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Full text of "A mulher fatal: romance"

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N.* li— Boftro d*arti*iaf romance de Octávio Feoillet, tradncç&o do Pi- 
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M.* 18<— Os ^MusomoTM, contos e bailadas, po Trindade Coelho, 1 voL 
N.** 18 e 14 — A aventura d'um polaooy por Vietor Cherbulies, tradaeçSo 

de Maria Amália Vai de Carvalho, 9 vol. 
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N.* 16 — As batalhas da vida, contos por Ouiomar Torreiio, 1 vol. 
N.* 17 ^Noites de Cintra, romance por Alberto Pimentel, 1 vol. 
K.** 18 e 19— JCm segredo, romance, trad. de Margarida de Seqnoira, t t<^ 

N.** 30 o 91 — il Irmã da Caridade, por Emilio Castellar, tradnrcio d« Li 
Q. Chaves 8 vol 

N.* 88 — Migaikas de historia portugMeãa, por Pinheiro Chagv, 1 toL 

N.* 88 — ^ Crus de Brilhantes, por A. Campos, 1 vol. 

N.* 84 ^Contos, de AíTonso Botelho, 1 vol. 

N.* 85 — Contos phantastieos, por Theophilo Braga, 1 vol. 

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M.* 34—0 eomeio de Ljfão, por Pierre Zaccone. 

N.* 85— Fida de Ushoa, por Alberto Pimentel. 

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N.* 41 e 43 — JP«pe/Ao de Porteyiiesee, por Alberto Pimentel. | 

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gnidas de Tartarin noa Alpes; por A. Daudet,. 

* N.« 2 — Pedro e João, por Guy de Maupassant. 

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N.« 4 — O Sonno, por Emílio Zola. 
N.^ 5 — Soror Píiilomena, por Edmond e Julea Goncourt. \ 
N.* H — O medico assassino, por Octávio Féré. 
N.* 7 — Os milhões vergonhosos, por Heitor Malot. 

* N.^ 8 — O amigo Fritz, por Erckmman Chatrian. 
N.* 9 — Vogando, por Guy de Maupassant. 

* N.* 10— Um romance de mulher, por Pierre Mael. 

* N.« 11 — Vontade, por Jorge Ohnet. 

* N.» 12-0 Nababo, por A. Daudet. 

* N.« 13 — Um coração de mulher, por Paul Bourget. 

* N.* 14 — Beatriz, por Itider Hageard. 

* N,* 15-0 crime, por Gabriel d^Anounzio. 

* N.* 16 — Lise Fleuron, por Ohnet. 
N.* 17 — Os dois rivaes, por Armand Lapointe. 
N.* 18 — O ultimo amor, por Jorge Ohnet 
N.« 19 — Um Búlgaro, por Ivan Tourgueneff. 
N.® 20 — Memorias d'um suicida, por Maiime du Caóap. 
N."* 21 —Forte como a morte, por Guy de Maupassant 

* N.« 22 — A alma de Pedro, de J. Ohnet i 
N.« 23 — Camilla, de Guérin-Ginisty. 

N.* 24 — Trahida, do Maxime Pas. 

N.« 2õ — Sua Mag estado o Amor, por A. Belot. 

N.« 26 — Magdalena Férat, por Emílio Zola. 

N.® 27 — Os Reis no exílio, por A. Daudet. 

N.* 28 — Divida de ódio. por Jorge Ohnet 

N.* 29 — Mentiras, por Paul Bourget. 

N.* 30 — Marinheiro, por Pierre Loti. 

N.^ 31 — A montanha do Diabo, por Eugénio Sue. 

N.^ 32 — A Evangelista, por A. Daudet. 

* N.* 33 — Aranha Vermelha, por R. de Pont Jest. 
N.^ 34 e 3õ — Odío antigo, por Jorge Ohnet. 
N.* 36 — Parisienses ! . . . romance, por H. Davenel. 
N.* 37 — Ao entardecer!... rom., por Iveling Bamband. 
N.* 38 — A confissão de Carolina, romance. 
Í\,o 39— Um casamento no mosteiro, por Alfredo AssoUand. 
N.* 40 — Os Parias, original de Francisco da Rocha Martins. 
N.* 41 — abbade de Faviôres, romance, por J. Ohnet. 
N.« 42 — A agonia de uma alma, romance, por Ossip Fchubin. 
N.® 43 — Memorias d'um burro, por Madame Ségur. 
N.« 44 — A nihilista. por Catulle Mendéa. 
^.* 45 — grande Industrial, por George Ohnet 
N.« 46— Morta d'amor, por Albert Delpit. 
N.« 47- João Sbogar, por Carlos Nadier. 
N.<^ 48— Viagem sentimental, por Sternè. 
N.« 49-0 milhão do tio Raclot, por Emile Richebonrg. 

Todos 08 vol. com este signal * estSo esgotados mas v2o 
"essos. 



OBRAS 



CAMILLO CASTELLO BRANCO 



EDIÇ&O POPULAR 



A MULHER FATAL 



VOLUMES PUBUCADOS 



I — Oolsas espantosas. 
II— As três irmans. 
III — A engeltada. 
IV— Doze casamentos follzes. 
V — O esqueleto. 
VI — O bem e o mal. 
VII — O senhor do paço de Ninães. 
VIII — Anathema. 
IZ— A mnllier fatal. 




CAMILLO CASTBLLO BRANCO 




MULHER FATAL 



ROMANCE 



QUARTA EDIÇÃO 



LISBOA 

Parceria Aicromo Maru Piriira — Livraria Editora 

Rua Aogntta ^ 3o, 52 e 54 



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HARVARD^ 
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JUíM 26 1967 




LISBOA 

Typographia da Pareería António Maria Pereira 

Rva dos Oorreeiroa, 70 e 72 



PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO . 




Ão sobrevieram acontecimentos, no espaço de 
tempo decorrido entre a primeira e segunda 
edição d*este livro, que merecessem escrí- 
ptura e immortalidade. Pôde ser que a per- 
sonagem glorificada no ultimo capitulo se haja feito heroina 
d*outra novella ; mas o author, sequestrado da sociedade on-. 
de ainda viçam e medram heroinas, vive emboscado n*umas 
brenhas de serra onde não chegam os lampejos das tempes^ 
tades sociaes, umas funestas, outras ridiculas. O.pudor pro* 
prio dos seus annos muito adeantados não lhe deixa especu* 
lar em vidas alheias, mormente umas que não levam a proa 
posta ao porto do arrependimento. O que elle souber, sem o 
perguntar, lá ao adeante na decima edição d*este romance se 
contará com o costumado melindre e resguardo dos bons cos* 
tumes. 
Assim o promette o author. 



INTRODUCÇAO 




Ão conto comigo para destramente me 
desempenhar de empresa litteraría, 
em que se faz mister mais* niocidade 
de coração que lettras bem ajuizadas. 

E' matéria — se pode com tal nome envilecer-se 
o que ahi ha mais subtil e espiritual — é matéria, 
isto d' amores, para mui serias considerações em 
homem dos meus annos. 

E, se os amores vem d' azas quebradas e envol- 
tas nas escomilhas do luto ; se, em vez de grinal- 
das de rosas, cingem cypreste ; se lhes alvejam a 
tiracolo caveiras em vez de aljavas, e lá dentro es- 
tiletes ervados em vez de flechas de oiro, — emfim, 
amores negros, amores abomináveis, — maior de- 
ver me corre de ser sisudo, elegiaco e espantador 
de paixões. 

Conheço-me. Dei o primeiro passo na senda da 
sabedoria, segundo Cicero : se ipsum nosce. Cavei 



8 Jntrodueção 

com utilidade no preceito : Nosce te ipsum. Sabia 
felizmente um pouco latim para me entender mais 
depressa. 

A minha raiva ao planeta em que estou é acerba; 
mas fica muito áquem da misanthrophia. Em rapaz 
fiz de Heraclito, quando não conhecia melhor do 
que hoje este grego que aforou as lagrimas com 
honras de escola de philosophia. De tal philosopho, 
coisa que sirva só temos o boato de que declama- 
va e chorava em publico. Hoje em dia, um homem 
com esta sensibilidade era levado ao commissario 
de policia. 

Por mim e pelos meus visinhos também eu cho- 
rei. 

Eis que desce a geada de muitos invernos a ne- 
var-me, o frio a filtrar, a temperatura dos líquidos 
a descer, o sangue a coaguiar-se, e logo o cristali- 
sar das lagrimas no coração como as concreções ví- 
treas d'uma caverna. 

Principiei a rir, á vezes. 

Rir é contrairem-se o diaphragma e os músculos 
faciaes. Operação materialissima, muscular, carnal, 
e que nenhum outro animal exercita. 

Claro é que o rir é attributo do ser racional. 

A par e passo que a rasão se allumia e fecunda, 
as contracções musculares amiudam-se. Raciocinar 
é rir. O acume da sabedoria humana é vêr os re- 
versos das tragedias sociaes ; lá está por força a 
comedia. A ignorância que esterilisa, e mirra, e en- 
calvece é a que só deixa ver uma face da medalha. 

Eu não cheguei ainda aos pináculos da sabedoria. 

Vou subindo. 

Subir é ir um homem desdando os nós que atam 
a dor estranha á sua : é ir tirando ás coisas tristes 



y 



Ifitrodue^o g 

a sua essência iacrimavel, por feição que o sunt la- 
crimce rerum de Virgilio não se perceba. 

O rir, porém, do animal philosopho não é a cas- 
quinada saloia do bipede implume de Platão que 
vaga á toa e á tuna, sem casta de philosophia ne- 
nhuma. 

Ha ahi um gargalhar que a sciencia denomina 
espasmo cinico9 ou «de cão 9, um exhibir das arca- 
das dentarias até aos condilos. E* o caretear bes- 
tial da canalha. E' o que os inglezes chamam «rir 
de cavallof horse langh. Ha também o rir chamado 
« sardónico ^ — o rir d' uns que comeram o fabuloso 
rainunculo da Sardenha. Ora entre nós os que 
doesta arte destampam gargalhadas não comeram 
rainunculos : é gente embuchada dê feijão branco e 
orelha de cevado. Essa hedionda deformidade cara- 
cterisa estupidez quasi sempre malévola; corres- 
ponde ao espojar-se, se o rir é meramente bruto, e 
ao escoucear, quando é bruto e mau. 

Não riram assim Demócrito, Aristophanes, Eso- 
po, Marcial, Petronio, Aretino, Gil Vicente, Eras- 
mo, Sterne, Rabelais, Charron, Molière, Voltaire, 
Tolentino, Byron, Heine. 

D'estes, alguns, senão todos riram dos homens 
e dos deuses. 

E o ultimo nome, que cerra a phalange, consub- 
stancia todas as calamidades comprehensiveis desde 
o jazer do paralytico cego até á theophobia — o hor- 
ror de Deus. E, assim mesmo, como elle adivinhou 
o sorrir de Satan a despenhar-se das regiões da luz 
onde o Summo-Bem permittiu que se gerassem an- 
jos soberbos ! Vejam a superrima vingança d'aquel- 
le Prometheu que recurva os dedos nos fuzis da 
gargalheira que o amarra, oito annos, a um leito, 



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» 

e do estridor dos ferros sacudidos modula o sinis- 
tro arpejo das suas gargalhadas sarcásticas ! Como 
Lúcifer invejaria o gentilissimo demónio que re- 
transidò dás agonias da nevrose, todo trevas den- 
tro e fora, creava a paradoxal harmonia do gemido 
com a risada ! 

E' preciso ter chorado para immortalísar o riso 
no livro, na strophe, na sentença, na palavra : 

O riso que escava, mina e alue theogonías ; 

O riso que desfaz religiões, cujo berço boiou 
embalado sobre ondas de sangue ; 

O riso que abate a abobada do templo sobre as 
ossadas dos martjnres ; 

O riso que revolutea as tormentas dos impérios, 
e abysma thronos, e espuma espadanas de lama — 
lama com que as gerações erigem os seus marcos 
milenários, as suas chronologias gloriosas. 



¥ 



Oh ! Mas que susto não faria aos próceres, que 
regem a republica, e aos sacerdotes que regem al- 
mas, o rir do demagogo e do atheu, se, a cada 
chasco d'uns taes, ruissem thronos e altares ? 

Nada de medo em Portugal. 

Aqui o dardo do sarcasmo alcança apenas o scô- 
po onde a calumnia mira. As gargalhadas, como 
aqui as vascolejam estas maxillas alvares dos go- 
liardos professos, vingam marear a honra d'um ho- 
mem, desluzindo-lhe o passado, ennoitando-lhe o 
futuro, infernando- lhe o santuário da familia. Isto 
é o mais. Receal-as, todavia, como attentorias das 
instituições civis ou religiosas, seria dar-lhes a hon- 
ra de ridicularisarem quem as teme. 



ímiyodÊtçSo ii 

Aqui não ha esgrícna de facécia que entre dois 
contendores decida um pleito útil. Dois homens que 
se medem e floreteam a remoques são dois fimdi' 
bularios que se apedrejam. 

Ninguém se lembrou de inscrever algum dos nos- 
sos satíricos na plêiade dos que, rindo, castigaram. 
O espirito portuguez nunca espantou ninguém. A 
bruteza c^miceira^ sim. Assevera-o o douto e pio 
bispo Amador Arrais cEspanta-se o mundo e tem 
inveja á nossa ferocidade.» Isto escreveu-se, de boa 
fé no século XVII entre a inquisição e a pirataria 
poFtugueza no Oriente. 

Quando Rabelais e Montaigne forjavam alavan- 
cas' para Voltaire — o vidente que transfigurou a Eu- 
ropa— ^ nós queimávamos homens em cujas fron- 
tes lampejavam reflexos de João de Leyde ou 
de Petrus Ramus. Quando, em França, rumore- 
javam os sorrisos prenúncios do terremoto social, 
aqui ouvia-se o mugir subterreo das masmorras 
d'um cruelissimo verdugo que disputava á inqui- 
sição trevas e supplicios para centralisar a fero- 
cia do poder em si, e esteiar o throno nos cai- 
bros da forca. Para o riso, que assombrava o 
dogma, accendia-se a fogueira : para o que assom- 
brava a realeza, arvoravam-se os patíbulos de 
Belém. 

D'ahi procedeu que portuguezes ainda têm n'al- 
ma crepúsculos d'aquella grande noite. Não sabe- 
mos rir com «espirito»; apenas gargalhamos com 
os queixos. 

Sem embargo, implantou-se entre nós uma corsa 
creada pontualmente para nós. Chama-se a «cha- 
laça», que já deu uma filha estúpida como sua mãe, 
chamada a «laracha». 



i% IfOrodueção 

Mãe e filha vivem abarregadas com uns chancea- 
dores lettrados da índole dos ceternos tolos» de 
Tertulliano. 



Aos quaes peço indulgência, se a merecem as tor- 
tuosidades por onde me transviei, degenerando d*a- 
quella derreada prosa com que abri esta coisa ala- 
byrintada. 

Era meu propósito dizer espalmadamente que, 
ha vinte annos, comecei a ver as duas faces dos 
lances tristes : uma que intende com as glândulas 
lacrimaes, outra com o diaphragma. Primeiramen- 
te, se não choro, condoo me; depois, csgaravatando 
na raiz das dores humanas, encontro ahi ou sedi- 
mento de perversidade ou ridicularias miserabilis- 
simas. Então é o rir. E, afím de que os padecentes 
me desculpem, rio primeiro de mim. 

D'ahi se causou que os meus livros, entre muitos 
defeitos, realçam em um que tem ferido a benevo- 
lência da critica; e é que não conservo, sem inter- 
cadencias desvanecidamente faceciosas, uma situa- 
ção plangente, e amarguro com o acerbo da ironia 
a dulcidão das lagrimas. 

E' justo o reparo. 

E n'este livro me quer parecer que tal defeito 
subirá de ponto ; por que vou intender em trage- 
dias amorosas, n'esta edade de quarenta e trez an- 
nos feitos, velhice em que nenhum escriptor since- 
ro, obediente a Horácio, deu aos seus leitores o 
exemplo das lagrimas. Si vis me flere^ etc. 

D. Francisco Manuel de Mello, em ahnos sédi- 



làirodtÊeç&> i3 

ços, escreveu uma Epanaphora amorosa. Succede, 
por isso, ao estremado estylista que faz rir a gente 
quando os seus personagens choram. E' o providen- 
cial castigo de quem anda, fora da rasão, á cata 
de flores, ou intenta com mirradas perpetuas dar 
fragrância de tomilhos ao livro que resumbra o acre 
enjoativo do bolor. 

E d'isto me pesa ; que este livro abrangerá um 
tristíssimo caso que me fez envelhecer annos na 
hora em que o vi. Que profanação, se o riso me 
ante-pozer os phantasmas irritados das almas inse- 
pultas ! 






*w- 



Creio que, ao fechar d'algumas sepulturas, se 
^ abrenLJiyros de proveitoso doutrinamento ao de 
cima d'ellas. 

Mas quem procura ahi fontes de vida ? 

Quem se demora a ver a ladeira por onde res- 
valou á leiva húmida um mancebo com o coração 
ainda a queimar-lhe a mortalha ? 

Por isso as historias dos mortos se escrevem, e 
este livro se faz. 

E', todavia, inutíl. 

A mocidade não lê d'isto para aprender. Atíra-se 
á voragem e morre — á voragem, onde o menos 
que se J)erde é o corpo. 

O coração não se afoga debaixo da pedra onde 
as cinzas d'outros se desfazem. Cada qual quer 
sentir, em pessoa, o desfibrar-se-lhe o coração fio a 
fio, o esvasiar-se-lhe de piedade, lagrima a la- 
grima. 



14 Jntrodueção 

Depois, ao fogo das volúpias infernaes, d'essa 
massa informe faz-se o pragal, a brutesa d'uma 
coisa que dá um som aspérrimo de lodo petrificado. 

Seja assim. Eu assim fui. Todos os que eu vi 
morrer assim foram. 



r 



I 



Orfuididi 




»oNHEa Carlos Pereira (•) em 1849. 

Apresentara-m'ò José Barbosa e Silva, no 
hotel francez da rua da Fabrica. 

Foi ha vinte annos. Barbosa e Silva 
e elle eram alumnos do collegio da Formiga, nos 
arrabaldes do Porto. Barbosa estudava allemSo. O 
outro, nada. 

Lembram-me porfnenores d^aquella noite de apre- 
sentação. 

Estava também Evaristo Basto, o príndpe dos 
folhetinistas d^aquelle tempo. 

Estava José Maria Gonçalves, a satyra cáustica, 
mas gentil e perfumada dos salões. 

Estava mademoiselle Pauline, filha do dono do 
hotel, dama de trinta annos, espirito francez e ma- 

(•) Pwadooymo. 



1^ 



i6 Á mulher faial 

teria não desattendivel sem os realces do espirito. 

Estava, emfim, mademoiselle Marie Elesmine, mu- 
lher de quarenta e dois annos, que vigiava os trinta 
de Paulina, sua irmã. 

O ar do meu quarto incommodava os hospedes. 
Eu tinha dez jarras de flores sobre uma estantinha 
de livros, sobre a banca de escripta, e á cabeceira 
do meu leito. Removi-as com amoroso respeito e 
escrúpulo. 

Era um lindo quarto o meu, lindo e rico de tan- 
tas porcelanas, e flores que vinham cada manhã 
d' uns hortos d'Armida onde as cultivava uma alma 
que as entendia, e com ellas fallava. 

Vinte annos depois os olhos da minha saudade 
vão á rua da Fabrica, e procuram o hotel francez. 

Era um palácio que ardeu ha quinze annos. No 
sitio d'elle está uma casa de azulejo, onde mora um 
tabellião, uma philarmonica, uma taverna, um car- 
pinteiro e um bazar. 

O dono do hotel morreu. 

Mademoiselle Marie afogou-se voluntariamente. 

Mademoiselle Pauline mendiga nas ruas do Porto. 

José Barbosa e Silva morreu ha trez annos. 

Evaristo Basto morreu ha quatro. 

José Maria Gonçalves morreu doido, ha dez. 

A doce alma que colhia as flores já não vê reflo- 
rir primaveras os bolbos que ella semeou. Ha sete 
annos que, ao cair da folhagem das suas acácias, 
por uma tarde fria de novembro, foi aquecer-se ao 
calor do céo, e não voltou. 

Carlos Pereira morto é também. 

Que admira! Foi ha vinte annos! Que longo es- 
paço ! Em vinte annos enfolha, enflora, fructêa e fe- 
nece uma geração. 



Á mulher fatal if 

Mas é pena! que todos contavam com tanta 
vida ! 

E alguns tinham pavor da velhice dos quarenta 
annos ! 



Carlos nascera no Brazil. Pae e mãe lhe tinham 
morrido no Porto, e no mesmo anno. Os adminis- 
tradores do seu património mandaram-n'o educar 
no collegio da Formiga. 

Que tristeza ! aos nove annos, de súbito atirado 
para alli, órfão, e, ainda a chorar, mettido n'aquel- 
las estranhesas d'um collegio, por ordem d'um con- 
selho de familia que o não viu, e d'um tutor que 
nem sequer lhe conhecera os pães. •• 

O menino entrou com o spasmo da angustia nos 
olhos. Ninguém deu tento da pallidez, nem do luto. 
Foi mandado sentar se numericamente no banco es- 
colar e no refeitório. A' noite mandaram-n'o apagar 
a luz e dormir. Ao outro dia mandaram-n'o erguer 
e estudar. O órfão ainda não tinha adormecido. O 
travesseiro estava húmido, e os olhos cavados n*um 
circulo côr de chumbo, e as faces purpurejadas de 
febre. 

Quinze dias antes tinha mãe, que espirara ética 
estendendo-lhe os braços escarnados, e soluçando: 
«Ficas sem o amor de ninguém! Sósinho, o meu 
querido Carlos ! Que será de ti ! ... » 

E tão sósinho ! Que infernal seria o céo á pobre 
mãe, se ella visse de lá o filho ! Com que ternura 
diria a Deus: «Eu quizera antes voltar ás duras 
provações da vida ! Dae, Senhor, que eu desça á terra 
por que o meu filho está só, e os vossos anjos não 



i6 A mulher fatdi 

são mais formosos que elle, nem rrle chaoiam máe ! 
È se esta separação, meu Deus, me é necessária á 
salvação, dae o meu logar a quem não deixou na 
terra o melhor de si, e deixae me amparar a crean- 
GÍnha embora me perca; por que vós. Senhor^ só 
concedestes a cada intiocente um coração de mãe, 
e não fazeis o milagre de aquecer os frios do órfão 
no regaço carinhoso d'outra mulher!» 

Não pôde ser assim, meu Deus ! Lá em cima não 
podem entrar memorias d'esta vida. Os orfãosinhos 
cá em baixo empallidecem de fome e frio? Não im- 
porta: esquecem pae e mãe, providencialmente. O 
esquecer da vida que fíca não nos persuade da in- 
consciência da vida que se transformou? Dor supre- 
ma e eterna seria para os pães, se a alma evolasse 
com a consciência do que foi. 

Não pôde ser assim. 

O coração que palpitava, o nervo que estremecia, 
os braços que estreitavam ao seio, os lábios que 
aqueciam a beijos, os olhos que viam os seus en- 
cantos ao travez de grossas lagrimas, tudo isso é 
podridão que ahi fíca. Ai ! e que não fosse assim ! 
A alma immortal, com as reminiscências d'esta vi- 
da, com a visão dos filhinhos alanciados por sau- 
dade, pobresa, e desvalimenio, seria . . . não lhe sa- 
bemos o nome. 



Carlos esqueceu-se. 

Ao cabo de seis mezes já não chorava. As horas 
de folga sorriam-lhe nas do estudo; as do estudo 
entristeciam-n'o nos brinquedos. 

Nas férias grandes, ficou no coUegío com mais 



Á tmãherfàié iQ 

trez órfãos. Eram quatro que se entre-olhavam me- 
lancholicos, quando os outros partiam doidos de aU- 
gria^ Não diziam nada com os lábios; mas no cora- 
ção de cada um espelhava-se a imagem de pae e 
mãe, rostos ainda retintos das cores da vida^ um 
anno, dois annos antes: cSe elles vivessem^ também 
eu iria ! » A sua saudade não diria mais, e as lagri- 
mas, pouco depois, lh'as enxugaria a bondade dô 
Deus, divertindo-lhe o espirito para qualquer pueri- 
lidade que nós não entenderíamos. 

Quantas vezes, pensaes d'um menino que brincáj 
ainda vestindo lutos de orfandade: cCoitadinho! 
não tem pae nem mãe!» 

E elle sorri sem perceber o vosso olhar compas- 
sivo. 

E vós perguntaes á creança: 

— Lembra-se de seu pae ? e de sua mãe ? 
Elle recolhe-se, e diz com tristeza: 

— Lembro ! 

Oh! não lh'o pergunteis. Deixae-o brincar; deí* 
xae-o esquecer; que é compaixão inútil a vossa, e 
crueldade grande chamar-lhe aos olhos lagrimas. A 
Providencia quer que floreçam n'essa alma algumas 
primaveras; por isso lhe deu o esquecer-se. Se elle 
se sentisse já infeliz, então que álgidas negridões de 
inverno, que desamor de Deus por essa creatura 
sem peccado! E* preciso que elle, lá no dobrar dos 
trinta annos, se recorde d'estes dias tão escuros com 
saudade. 

E Carlos Pereira, quando eu o conheci com vinte 
annos, já se recordava d'elles como dos melhores 
da sua vida ! Saudade aos vinte amios ! que rugas 
d*alma tão precoces! 



II 



Primeiro amor 



ENTO escrever este capitulo em dia de frigídis- 
sima invemeíra. Pegões de nordeste vem sa- 
cudir suas azas fuscas contra a janella do meu 
quarto, embaciada da chuva que crepita e escorre 
nos vidros. Os cabeços das serras, que cingem os 
matagaes onde me abrenhei, negrejam atravez das 
nuvens cinzentas. Por entre as quebradas, e das 
carcavadas gargantas dos despenhadeiros, levan- 
tam-se rolos de nevoeiro alvacento que os bulcões 
de ventanias cruzadas rasgam e dispersam em es- 
padanas de agua gelada. Amenissimo dia para es- 
crever d'um primeiro amor! Tarde fragrante e té- 
pida como as de Florença, do Lido, de Cintra ! Do- 
nosa e inspirativa natureza ! 

Branquejou agora uma clareira do céo desanu- 
viado ! Que côr tão livida ! Que frio lá irá no alto, 
nas visinhanças do sol pallido que entreluziu apenas^^ 



29 A mulher fatal 

em quanto uma nuvem se abria redemoinhada pelo 
furacão ! 

Relâmpago de sol em dia tempestuoso, quando 
não és tu que me dás a imagem dos prazeres d'esta 
vida, procuro-a na terra, e encontro-a nos pyrilam- 
pos que avoejam na escuridão das sepulturas e sú- 
bito se apagam* Dos meus prazeres, digo; que eu 
sei que ha ahi harta embriaguez das tuas delicias, 
ó terra ! ó alma mater de tanto mollusco lerdo para 
quem o sol e a claridade são inúteis n'uma d'estas 
tardes de fogão flammejante e flácida poltrona ! 

E esses não escrevem capitulos de primeiros amo- 
res. 

Amam e são amados, nos primeiros como nos úl- 
timos, com a mesma despesa de sensibilidade, sem- 
pre em pleno maio— o perpetuo mezd'elles — espo- 
jando a imaginação nos ervaçaes, onde lhes verdeja 
a leimga, o trevo e a ferran. Não se molestam á 
cata de boninas alpestres por alcantis e desfiladeiros 
para engrinaldarem seus primeiros amores. Antes 
querem adormecer, bem sevados, sobre o seio da 
realidade que despertar palpitantes do sonho em que 
o anjo da annunciação murmura o nome da primeira 
mulher. Conciliam hygienicamente a chilificação do 
bolo alimenticio com as serenas meditações dos prós 
e contras da ternura. Como os seus primeiros asso- 
mos cupidineos são influencias animaes, a alma não 
tem que intender com esses impulsos muito mais ga- 
lhardos no garboso animal que relincha farejando as 
brisas, e mais lyricos no rouxinol que festeja a namo- 
rada com uns trilos maviosos que já um poeta fran- 
çez traduziu com nominativo, verbo e caso, 



Á mulher Jataí ^ 23 

» 
* 



E* o primeiro amor uma estranha commoção va- 
gamente deliciosa, uma prelibação de delicias celes- 
tiaes, um sentir muito á flor d' alma a essência do 
amor divino. 

N'estas definições ha, talvez, demasiada theologia- 
Quem ama, pela primeira vez, não sente similhantes 
allianças de divino e humano. Faz-se mister amar 
vinte vezes, e ter envelhecido á decima oitava, para 
destrinçar da confusão cahotica das multiplicadas 
imagens, que se refundiram umas n'outras, a luz 
um tanto divina da primeira. 

N'este, por assim dizer, período mythologico do 
coração, encontrei Carlos Pereira em 1849. 

Era portuense a menina, de familia distincta, bem 
aparentada, bem servida, das graças, e mal da for- 
tuna que as sobre-doura. 

Os vinculos eram do irmão; a ella bastava- lhe a 
honfa de descender d'uma prosápia de varões que 
fundaram vinculos no século XV. 

E como no século XV até ao XIX os filhos se- 
gundos de cada geração ficassem reduzidos aos ali- 
mentos, e estes não tivessem alimentos que legar 
aos seus filhos, era de presumir que taes fidalgos 
de 1849 tivessem muito parente artifice, obreiro e 
peior. 

Mas a familia dos Carvalhaes (#), a este respeito, 
não achava sufficientes esclarecimentos nos seus tom- 
bos genealógicos. Em heráldica, do quarto gráo para 
além não ha parentes : salvo se o proletário, em 

(#} Pseudonymo. 



34 A mulher fatal 

sexto gráo de parentesco, mandou filhos chatinar na 
America, e estes voltaram com o sangue azulado, 
beneficio devido á transfusão do sangue de negros, 

A nossa fidalguia de raça, aqui, ha oitenta annos, 
pejava se e escondia-se de proceder, em grande par- 
te, dos commerciantes Lafetas, inquinados de he^ 
braismo. ' 

Hoje em dia, o representante directo de Juda de 
Kerioth casaria em Portugal com a representante de 
D. Pedro de Castilho, ou d'outro inquisidor geral 
mais rancoroso de judeus, com tanto que os vinte 
dinheiros da traição, no dobar de dezenove séculos, 
cumulassem nos cofres de seu neto o juro a vencer 
desde a prisão do divino Mestre. 



O pae de Laura de Carvalhaes, casquilho de 1820, 
e elegante em 1849, ^^^ ""^ amável velho, chas- 
queado dos seus coevos, e querido da mocidade. 
Instruira-se com o congregado Theodoro d' Almei- 
da, em Lisboa, na casa do Espirito Santo ; e sahiu 
d'alli com mui diflferente espirito d'aquelle que pa- 
trocinava A casa dos seus estudos sagrados e pro- 
fanos. Toda a physica aprendida com o sábio ora- 
toriano abastardou-a o discipulo em physica expe- 
rimental, da laia de Panglóss. 

Casara com sua prima D. Epiphania, herdeira rica 
e tanto ou quê endiabrada de condição. Paulo de 
Carvalhaes seria infeliz, se attentasse na sua vida 
seriamente, ou pretendesse dar exemplo de marido 
honesto. O seu demónio aconselhou-o como amigo. 
Çlncouraçapdo o do fino aço do despreso contra ps 



Á mulher faial 25 

dardos da esposa, convenceu-o de que Sócrates era 
ainda hoje reputado um parvoeirão por deixar-se 
agadanhar em corpo e alma por certa Xantippa. 

Dotado de philosophia menos socrática e mais ao 
lume do século, o discipulo do congregado abriu o 
coração a todos os ventos tempestuosos, guardando 
apenas os ouvidos para as borrascas domesticas. O 
trem de vida que elle viveu, por espaço de trinta 
annos, tresandou escândalos de que ainda se lem- 
bram vários maridos. Depois, como D. Epiphania 
morresse abafada de ciúmes, ou d*um fleimão, se- 
gundo a sciencia, o viuvo deu se mais aos cuidados 
caseiros e á educação um tanto serôdia do morga- 
do, e de duas filhas. 

Uma das quaes, requestada por certo argentario 
de Ínfimo nascimento, deixou-se levar da ambição, 
e authorisou o negreiro a pedil-a ao pae. O aíFavel 
fidalgo fallou d'este teor ao ricasso : 

— Não me opponho; mas aconselho. Minha filha 
hade arrepender-se. Escuso dizer que vossa senho- 
ria se arrependerá. A sua figura dá ares d*uns qua- 
renta annos bons. . . se nao me engano. 

— Tenho quarenta e dois. 

-^ E ella dezoito. Queira pensar n'isto. Quando 
minha filha tiver vinte e oito, quantos tem vossa 
senhoria? Eu em contas sou pouco prompto. . . 

— Heide ter cincoenta e dois. 

— Cincoenta e dois ! ora veja lá ! E quando ella 
tiver trinta e seis . . . tem vossa senhoria ? . . . 

— Sessenta. 

— A velhice, cercada das fúrias que se Chamam 
dispepsia, paralysia, gota, etc. Uma enfermeira de 
trinta e seis annos, n'essa edade, convem-nos, com 
t£|nto c|ue não [seja nossa mulher. Queira pensar 



26 A mulher fatal 

n'isto. . . Fui marido como quasi todos, fui homem 
como poucos em estudar os costumes do meu tempo 
— que vão peorando — ; mas sou bom pae. Não ca- 
sei por minha vontade; e valeu-me, para affrontar e 
vencer a desgraça, dispensar-me da auréola de mar- 
tyr, e peccar bastante. Diz lá um hymno da egreja: 
felt\ culpa. Fui vivendo soffrivelmente, e tive o des- 
gosto de enviuvar, quando minha mulher e eu enve- 
Iheciamos e já tomávamos o chá sem esmurraçar a 
bandeja. Amestrado pela experiência, volto a dizer- 
Ihe que sou bom pae. As minhas filhas hão de ca- 
sar á vontade d'ellas; mas, ainda assim, heide acon- 
selhal-as como amigo. Porém, umas coisas que não 
devo dizer a. minhas filhas, digo-as aos que as pre- 
tendem, se elles estão na edade em que a natural 
prudência os desampara e deixa de olhos empoeira- 
dos como aos vinte annos. Vossa senhoria está no 
caso. Conjecturemos, entretanto, que não demovo 
vossa senhoria nem minha filha do indiscreto intento 
de se casarem. Desvio-me e deixo-os passar. Não 
querendo cu ter parte na responsabilidade da cruz 
em que vossa senhoria e ella vão crucificar-se, lavo 
as mãos como Pilatos. 

O ricasso saiu penhorado das attençôes do dono 
da casa; e, quando poz o pé no estribo da sua ca- 
leche, tirada por hanoverianas que escarvavam irre- 
quietas, olhou para as janellas, e viu a loira Júlia 
com a face apoiada na mão e os olhos envidraça- 
dos de lagrimas. 

A dolorida tinha escutado o pae, e agourara mal 
do silencio do noivo, que se lhe figurou parvo. Elle, 
porém, arregaçara os beiços por modo que deixou 
entrever um coração resolvido. 

Depois, o velho, agradavelmente assombrado. 



Á mulher fatal 27 

conversou com a filha, acerca do seu casan^ento, 
insistindo menos no delicado assumpto das edades^ 
e bastante na falha de educação de um homem, que 
saíra em rapaz para Africa, e lá vivera em navios, 
e sertões, e portos de mar, veniagando as suas mer- 
cadorias de carne viva com alma e feitio á seme- 
lhança do Creador. 

Júlia respondeu : 

— Eu heidc dominal-o e polil o. 

O pae riuse do grutesco da resposta, e tregeitou 
como quem lava as mãos. 

Casaram. 

# 
# # 

Corridos trez annos, o negreiro, perdida a mão 
de verniz que lhe dera o milagroso amor, desnu- 
dou-se qual saíra das brutas entranhas da nature- 
za. O polimento de Júlia n^^o pegava na aridez d'a- 
quella epiderme curtida ao sol de Mossamedes. A 
esposa definhava-se no desalento, face a face do 
selvagem que se enfuriava quUndo via os formosos 
vinte e um annos da mulher contemplada com pe- 
tulante admiração no theatro. 

Inventou rheumatisrao para não ir ao theatro. 

Fez- se atheu para não ir á missa. 

Vendeu as éguas para difficultar as saidas de casa. 

Deixou amontanhar os callos para não poder cal- 
çar botas d'um cyclope, e ficar ao fogão a beliscar 
na paciência da esposa. 

Cançada de resignação, Júlia queixou-se ao pac. 

Ora um pae não lava as mãos, onde uma filha 
chorou, por mais Pilatos que se finja. 



98 A mulher fatcU 

Escutou-a, magoou-se e disse lhe : 

— E' preciso lutar. Nada de polimento, agora 
quer-se plaina na madeira, e ir desbastando n'ella 
até por fim topar camada lisa onde pegue o verniz, 
Ergue-te iracunda, bate-lhe o pé, e diz: t quero». 
Se elle te injuriar com palavras, injuria-o com a, gar- 
galhada ; se te pozer a mão, dize-lhe que nas cavai" 
lanças de teu pae ha lacaios e tagantes. 

Fidalgos espirítos ! A humilde Júlia destampou na 
mais altaneira vingadora de pretas que ainda viu 
negreiro ! O homem, em menos d'um mez de cabe- 
ções, curou-se do rheumatismo, adelgaçou as pro- 
tuberâncias pedestres, voltou ao christianismo, e re- 
comprou as éguas, para poder fugir de casa. E, em 
menos d'um anno, Júlia, com o anteparo dos lacaios 
de seu pae, e a cortez indifferença da sociedade, en- 
tendia e fazia entender ao marido que a velhice não 
gosa impunemente a faculdade de ser néscia. 

E Paulo de Carvalhaes, quando algumas velhas 
primas lhe diziam: 

— Primo, rosna-se da nossa Júlia . . . 

— Rosna-se ? ! — acudiu elle . . . 

— Sim. . . O marido não desconfia ; mas, . . 

— Mas as primas desconfiam? 

— Pelo que ouvimos. . . 

— Eu não sou mais esperto que o marido ; e vos- 
sas excellencias devem fingir que são mais tolas do 
que elle e eu. 

Amável velho ! 

E a sociedade não gostava d'elle, porque formu- 
lara á filha a mesma receita que o tinha salvado da 
cachexia d'alma ! 

Mas a razão e$caz do odip ao libertino antigo 



Á mulher faial 2g 

êra porque elle conhecia as mães das libertinas mo- 
dernas. 



Laura, a outra filha, escutava as tias Com ares de 
liiui pesarosa e envergonhada. E dizia, com gestos 
de Sophonisba, que o padecer e morrer louvada e 
admirada, era heroismo ; em quanto que a alegria 
criminosa de sua irmã, o pompear nos trens e se- 
das, o levantar-se da lama somente á altura do eixo 
da carruagem, causava-lhe grande amargura e vexa- 
me. Sentimentos dignos de suas quartas avós ! 
- E o pae, a fim de consolal-a, dizia-lhe : 

— As modas, ou feias ou ridículas, é mister accei- 
tal-as. Não te queiras fazer pomba de expiação com 
a tua melancholia. A sociedade é que fez isto, pondo 
o negreiro á altura de tua irmã, ou abatendo a á 
baixeza d^elle. Instituiu-se o feudalismo do dinheiro. 
Envileceram a gerarchia de raça para nobilitarem as 
industrias. O dinheiro enfeirou corpos de mulheres, 
sem condicionar a existência d'almas bem formadas 
n'esses corpos, nem o exemplo de virtudes como 
herança. Obteve o que comprou. Lá o tem. Se a 
sociedade alluiu os deveres próprios da educação, 
exaltando e condecorando a ralé que não tinha ru- 
dimentos de moral, sofifra-lhe, se é que sofifre, os 
resultados. O millionario que se doe do ultrage, 
compre diplomas de estima publica ; isso é fácil : dê 
banquetes, embriague os convivas para a vertigem 
do baile : lá irá tudo, desde a honra que se vendeu 
até á honra que se almoeda. 

Pendo a crer que a donzella entendesse o immo* 
ral fundamento d'estas razões ; mas a leitora, cujo 



3o A mulher fataí 

corâÇâo se confrangeu ao áspero som d'aqUellas 
ruins palavras como a incauta avesinha estremece 
ao longinquo rolar da trovoada, é que de certo nâo 
entende. 

Laura parecia ir ganhando ódio a homens, e no- 
meadamente a brazlleiros, a africanos, á coloma de 
capitalistas que infestava então a cidade da Virgem, 
como empenhados em provar, honesta e deshonesta- 
mentCj que a cidade, sendo da Virgem, só hyperbo- 
licamente poderia chamar-se das virgens. 



í- 



N^este entretanto, Carlos Pereira, em íerias no 
Porto, foi apresentado por seu condiscipulo Luiz 
dos Carvalhaes ao pae e á mana Laura. 

Carlos era um gentil moço. Não me demoro a 
descrever-lhe as graças por miúdo. E* uma usurpa- 
ção, e, peior ainda, um máo gosto, quasi a fazer té- 
dio, isto de pintar homens com as mesmas tintas e 
contornos de que usam poetas e romancistas nos 
retratos das damas. Nem a Musset, nem a Hugo, 
nem a Garrett, nem a Sand, se ha de revelar tama- 
nha semsaboria. Se é escriptora a que pinta, des- 
honesta-se ; se é homem, ridiculisa-se. 

Ahi appareceu uma vez um archi-tolo (*) com 
grandes foros para maior graduação, descrevendo os 
contornos da perna e espádua de certos coridons, á 
grega, com uns toques de tal asco lúbricos que 
seria isso um desbragado hymno de bordel mixto, 

(») O senhor doutor Joaquim Theophilo Braga na Visão 
dos tempóSy i.* série. 



A fnuiher faial Éi 

se as linhas fossem versos, e a gandaice da idéa não 
envergonhasse depois o auditório. Quem então sen- 
tiu engulhos e pejo d'aquelles sujos quadros, aos 
quaes ahi uns chamaram «estro bisantino» (ó Ché- 
nier, perdoa-Ihes !) não poude mais sequer arriscar- 
se a descrever um nariz de homem. 

Pois era essa a feição mais característica e irre- 
gular de Carlos Pereira, bem que não armasse aos 
espantos que torturaram nasalmente a eidstència de 
Cirano de Bergerac* Era nariz plusquam grego, mais 
relevante pela magreza das faces, e pequenez do buço 
que principiava então a pungir. Gomtudo, a gentile- 
za de homem era esculptural no moço brazileiro, 
sem impedimento da estatura meã e do sobejo apru- 
mo das suas posturas, não sei se naturaes se por 
arte. 

No tocante ao espirito — que se hade aqui estre- 
mar do coração — minguavam-lhe notavelmente os 
favores do acaso. Em doze annos de collegio, seria 
pasmosa a sua indigência de conhecimentos, se uma 
inflexível causa lhe não empecesse. E' que não estu- 
dara, nem castigado, nem espicaçado pela emula- 
ção. Forcejava e não podia. Fugia-lhe a rasão, se 
teimava. Desmaiava, quando media o período im- 
posto á sua rebelde memoria. 

A' custa de annos, vingara examinar-se em fran- 
cez, depois de ter ' conseguido um vulgar conheci- 
mento da sua lingua como ella se aprende em tra- 
ducções de novellas. 

Doze annos, portanto, de cruel constrangimento a 
um moço, cuja vocação foi por maneira abafada que 
nunca mais se dilucidou do cháos em que a violên- 
cia lhe escureceu o espirito. 

Coração era dos melhores que Deus bafejou — doce 



3a Amuíhet faial 

como a piedade, mavioso como a tristeza das almas 
virgens* Assim que via creanças maltrapidas e ama- 
relias de fome, dava-lhes pão e lagrimas* O vetera- 
no amputado, o artífice sem trabalho^ o pobre que 
havia dissipado a sua abundância, a mulher que só 
tinha o esteio da ignominia, estas ulceras sociaes 
que apenas inquietam a policia e raro commiseram 
a sêcca philanthropia, esvasiavam-lhe as algibeiras, 
redUzindo-o a condições muito de louvar, e nada de 
invejar quanto a recursos. 

O património de Carlos era uns vinte contos, do 
juro dos quaes o tutor apenas lhe dava em ferias 
seis moedas mensaes, encarecendo a prodigalidade 
do tutelado. Regularmente, desde o dia dez, o es- 
tudante ou vivia de empréstimos, ou de fiança no 
hotel, no alfaiate, no botequim e no estanco. Mas 
estes apertos deram a súbitas em larguezas libera- 
lissímas. O mysterio descortínou-se, quando Carlos 
Pereira comprou uma lettra de cambio, e entrou em 
casa d'um usurário. , 

Terminou o praso das férias. O órfão declarou w 
ao seu tutor que não voltava ao coUegio. O tutor 
declarou-o sem mesada, e o tutelado redarguiu : 

— E sem património d' aqui a pouco. 



N'este tempo, viu Laura, fallou-lhe, ouviu-a, e es- 
pantou-se de ter ousado fallar-lhe. 



UH 



A mulher fatal 33 



Ao outro dia, os alvores da aurora, chilreados de 
rou3dnoes e calhandras, carmínavam-lhe o horison-^ 
te. Por entre festões das baunilhas soava o rumo- 
rejo das lufadas fragrantes da viração. As trépidas 
fontinhas, espelhando na limpidez dos seus mean- 
dros a inquieta alvéola que as roçava com as azas, 
iam levar ao pedicel da bonina o beijo reanimador. 
Dos fundos casalejos da serra trepavam ás encostas 
verdejantes os rebanhos, e depôs elles os pegureiros 
modulando nas frautas as cantilenas com que seus 
pães já deram rebate amoroso ás pastoras da visi- 
nha aldeia. O sol apontou formoso e purpurino co- 
mo se coasse os resplendores da esphera em que 
os anjos psalmeam os hymnos de cada alvorada. 

E o amado de Laura, em meio d'este abrir-se a 
primeira manhã de sua felicidade, cuidava que toda 
a natureza, desde o gigante de fogo, erecto sobre o 
horisonte rubro, até á borboleta que sacudia e sec- 
cava as azas húmidas sobre uma flor de madre-sil- 
va, lhe festejava os seus primeiros amores. 

Mas a manhã era de outubro e carrancuda como 
esta de hoje. 

Não havia sol, nem baunilhas, nem alvéolas, nem 
rouxinoes, nem pastores, nem borboletas, nem ma- 
dre-silvas. 

As torrentes de chuva despejadas dos caleiros es- 
trepitavam na rua. As rajadas assobiavam nas vigas 
do hotel francez. A escuridão ás dez da manhã con- 
densava-se nas nossas alcovas. Eu escrevia o folhe- 
tim d'uma gazeta á luz do candieiro ; e Carlos Pe- 

3 



34 A. mulher fatal 

reira via todas aquellas e outras delicias d'uma ma- 
nhã de julho. 

Via, por que um primeiro amor é capaz de corri- 
gir as imperfeições da creação, menoscabadas por poe- 
tas; um primeiro amor, se entrasse no coração om- 
nipotente de Deus, sairia com mais formosos mun- 
dos; um primeiro amor faz julho em outubro quando 
se sente, e não nos dá um capitulo tolerável quando 
se recorda. 






III 



Primeiro golpe 



O amanhecer de Laura foi pontualmente o in- 
dicado no Reportório: tempo borrascoso^ 
chuva e frio. 

Almoçou a menina café com leite, pen- 
teou-se, e foi sentar-se ao piano. 

O pâe reclinou-se n'uma ottomana, a cachimbar 
com uma perna á cavalleira da outra, e, com. uma 
das mãos a dedilhar e a compassar n'um joelho a 
musica d'/ duo Foscari. 

Suspendeu-se Laura e disse maviosamente com 
uma entonação que continha as quatro notas mais 
melodiosas do rouxinol : 

— O' papá ! 

— Que é, menina ? 

— Aquelle condiscípulo do mano Luiz quem é ? 

— E* . . . o condiscipulo do mano Luiz. 
Laura sorriu-se e murmurou : 



36 A mulher fatal 

— Ora ! . . . 

— Que querias tu saber então? — perguntou o 
pae jocosamente. — Se é rico?... Desculpo-te a 
pergunta, que é obrigatória das meninas d'esta ter- 
ra, quando um forasteiro entra no bazar das sa- 
las . • . 

— A mim que me importa ? — acudiu Laura por 
sua dignidade. 

— Não te importa ; mas queres saber. . . 

— Eu não, papá . . . 

— Então que perguntavas ? Já sabes que é rcon- 
discipulo do Luiz. Que mais desejas saber ? Se pelo 
appellido de Pereira entronca na real casa de Bra- 
gança ? Não sei. Ainda lhe não vi as, armas. O que 
consta é que é brasileiro, e bom mocinho, que não 
hade corromper nem reformar os costumes com o 
talento. 

— Tão acanhado ! . . . — volveu ella desdenhosa- 
mente. 

— Também notei. Pareceu-me contçmplativo bas- 
tante. 

— E tristonho. 

— Isso. 

— Passou duas horas n'um canto da sala . . . 

— A meditar ... 

— E roía as unhas . . . não reparou, papá ? — no- 
tou a menina casquinando e ferindo algumas teclas 
machinalmente. 

— Ah ! elle roía as unhas ? E' preciso que tenha 
boa cascaria para estar sempre abastecido de tal vi- 
tualha. Os sujeitos que se roem têm em si mesmos 
um armazém de viveres. São uns pelicanos do pró- 
prio sabugo. 

Laura sorriu-se e observou : 



A^ mulher faial Sj 

— E* um feio costume ! . . . A cara não é desen- 
graçada, apezar do nariz . . . 

— ^ Dizes bem: apesar do nari:{ ; e, a pesar o na^ 
ri\^ acharíamos os rudimentos d'uma tromba cle- 
phantina na balança. Deve ter olfato á proporção, 
e faro grande. Um nariz humano, d'aquelle feitio, 
carresponde aos dois do perdigueiro de teu irmão... 

— O papá hoje está... — interrompeu dengosa- 
mente Laura,- tirando do céo da bocca um estalinho 
com a lingua. 

— Estou naturalista, não estou? — disse elle, car- 
regando novamente a cachimbo de kentuky. 

— Tem ahi zombado do pobre rapaz ! . . . 

— E de ti. 

— De mim!? — acudiu ella com espanto. 

— De ti mais do que d'elle, porque o pobre ra* 
pai receia talvez que eu o tenha adivinhado, e tu 
procuras em teu pae astuciosamente uma pessoa 
com quem falles do pobre rapa\. Paliemos, pois. 

Laura córára até aos lóbulos das orelhas. 

As faces diziam que lá dentro lavrava lume de 
amor. Não Javrava nada. O corar é uma clausula 
dos temperamentos. Tem a mesma origem que a 
brotoeja e a herpes e a impigem. O sangue que 
acereja a epiderme das faces revela, quando muito, 
a compleição sanguínea da pessoa. 

E a filha de Paulo de Garvalhaes, quanto a tem- 
peramento, estremava-se das nervosas e arganazes 
meninas da casta heráldica. As artérias pulsavam- 
Ihe túmidas. AUi havia regeneração do pujante san- 
gue dos avós godos, ao mesmo passo que seu pae 
e irmãos provavam com a pelle adherente aos ossos 
o fino e remontado de sua linhagem. 

E não arguamos de ineptos aos que blasonam de 



38 A mulher faial 

nobilíssimos offerecendo em testemunho de verdade 
a pequenez do pé, como quem apresenta dez certi- 
dões de fílhamento, e o brasão da casa na sala de 
Cintra. Nós é que estamos sempre a passar alva- 
rás de patriciato ás mãos delgadas com unhas côr 
de rosa afiladas e longas, aò mesmo tempo que in- 
ferimos da grandeza d'uns joanetes o plebeismo de 
seu dono. 

Na verdade, o pé que abusa do máximo da cra- 
veira, é o trambolho denunciante d'uma descendên- 
cia da gleba, do besteiro, do peão, da ralé que sal- 
tou a quatro pés ao meio da»» classes, e vingou des- 
ordenadas, embaralhal-as, vasculejal-as por feitio 
que a delicadesa nervosa do pé feminil deixou de 
ser dote, e veio a succeder apoiar-se complacente 
sobre as protuberâncias ossificadas dos alicerces 
em que se firma o representante d'uma c fortuna». 

Assim é ; mas que frívolas rasões justificam a 
nossa admiração pela magresa e pallidez significa- 
tivas de raça primorosa ? As da plástica, certo que 
nãOi 

Pois que representa esse enfezamenjo ? 

Serosidade de sangue ; pulmões mal arejados ; 
sueco gástrico dessorado; digestões morosas, infil- 
trações, diatheses, emfim, que depuram a raça até 
vaporisal a. p'ahi o anguloso da figura, a côr esfu- 
mada, o arcaboiço das mãos, o escarnado das espá- 
duas, e o escadeado do peito, suspenso das cordo 
veias do pescoço. Quando topamos d'isto, exclama^ 
mos nos nossos folhetins : cDona fulana é silphide. 
O mais puro sangue de fidalga raça apenas lhe re- 
tinge de leve as aérias formas. A suave pallidez que 
lhe veste o rosto de poético languor. . . etc.» 

De Laura é que não poderia escrever-se tal sem 



A mulher falai 3^ 

mentir á natureza, á arte, e aos assígnantes da ga- 
zeta. 

Era mulher ás direitas, da raça, ao menos appa- 
rentemente, de umas portuguezas espadaúdas que 
armavam os alhos para a guerra; que defendiam 
castellos e praças ; que tersavam nos prélios, sem 
soffrerem as contingências desairosas da donzella 
de Orleans, se Voltaire não mente ; emfim, da laia 
de umas matronas celebradas em divina prosa por 
António Pereira da Cunha, e em corcovada rhetorica 
por Damiam Froes Perim. 

Não era Laura, todavia, um virago. Pelo contra- 
rio, os mais brandos toques e flexuras de feminili- 
dade lhe amimavam o fallar, o olhar, o mover-se 
langorosamente d'um sofá para outro. E, depois, 
não era sobeja prova de denosissima e mulheril fra- 
queza o corar? 



— Mana Laura, tenho uma coisa importante que 
lhe dizer . . . 

— Sim, mano Luiz ? 

— Sim ; mas não sei como hei de principiar. 

— Pelo contrario. 

— Olhç que é assumpto maito serio, mana Lau- 
ra... 

— Então aqui me tem muito seria. Diga lá. 

— Sabe que eu sou muito amigo de Carlos ? 

— Sei. 

— Então não se admirará que eu seja o confi- 
dente do meu amigo de dez annos . . . 

— Não . . . E' natural . . . 

— Sei todos os segredos de Carlos, desde que o 



40 A mulher fatal 

vi chorar de saudades de sua mãe, até que o vi cho- 
rar atormentado pelo seu primeiro amor. Perguntei- 
Ihe por que sofFria, e elle nem podia mentir nem 
dissimular. Contou-me momento por momento to- 
das as suas sensações desde que viu a mana Laura, 
ha quinze dias. Pediu-me perdão para me dizer que 
amava minha irmã, e que desejava morrer antes' 
de sentir a necessidade de esquecêl-a. A mana 
Laura desconfiou que era amada? 

— Desconfiei que o seu amigo me queria dizer o 
mesmo que disse ao mano; mas fugi á occasião de 
o ouvir por que não sou das que amam ou fingem 
amar por passatempo. 

— iPor passatempo? Escuso dizer-Ihe que a mais 
santa e ardente esperança de Carlos é casar com a 
mana. 

— Eu não penso em casar-me, mano Luiz. Já lh*o 
disse a respeito d'outras propostas que eram de van^ 
tagem quanto á riqueza, e me não faziam descer 
da plana do meu nascimento. A nossa Júlia é uma 
lição e um exemplo. 

— Mas que differença de homens, de edade, de 
figura e educação ! . . . — contrariou Luiz. 

— Bem sei, mano; ha uma differença muito sen- 
sível; mas eu. . . não vejo nos homens senão os ho- 
mens. Pensar em casamento é o amor que pensa, 
mano Luiz. Eu não amo; e, sacrificando-me, não 
faria a felicidade de ninguém. Diga isto assim fran- 
camente ao seu amigo ; que elle, ainda depois de 
esquecer-me — o que será fácil — terá obrigação de 
estimar-me pela sinceridade com que o avisei. 

Qualquer redarguição de Luiz, seria uma imper- 
tinência. 

O irmão de Laura protrahiu com engenhosos sub- 



A^tmdher faial 41 

terfugios o desengano a Carlos. Doía-lhe velo e ou- 
vil o, macilento e lagrimoso. Eu é que sabia como 
andava tresnoitado e abstinente de alimentos o meu 
pobre companheiro de hotel. Nunca me recolhi ás 
seis da manhã que o encontrasse na cama. Passea- 
va sempre no recinto do seu quarto, fumando, re- 
frigerando com cognac os beiços queimados e a 
garganta reseccada da nicotina. 

O presentimento da terrível verdade que, afinal, 
Luiz de Carvalhaes lhe disse, já lhe tinha antecipa- 
do parte da dor. Abraçou o amigo com o estreme- 
cer apaixonado do dorido, que, ao pé do leito d*um 
morto adorado, vê pessoa que muito amada havia 
sido d'aquella alma ida para sempre. Luiz desafo- 
gou-se em consolações e esperanças que o recon- 
centrado moço parecia não attender. 

Eu, com magua-minha, assisti a este espectáculo, 
e nunca pude esquecer o aspeito de suflfocante amar- 
gura com que Carlos voltado para mim balbuciou : 

— Agora o suicídio ! . . . 

E eu, no propósito vulgar de o defender de tama- 
nha allucinação, discorri tanta coisa fútil, tanta frio- 
leira clássica sobre o suicídio, que tenho bastante 
vaidade para não reproduzir aquella esponja de vi- 
nagre que espremi na chaga do meu paciente ami- 
go. A minha única e boa acção n'este trance foi pas- 
sar com elle algumas noites, lendo-lhe poesias de 
Alfred de Musset,.mais ou menos afinadas pela dôr 
do amante infeliz. 



Passado um mez, Carlos pareceu-me entrar em 
convalescença, bem que triste e descarnado. 



4^ A mulher fatal 

Saía de noite e vinha ao repontar da manha, di- 
zendo-me que vinha das «Virtudes» ou das «Fon- 
tainhas», paragens melancólicas, onde os suicidas 
preferem acabar, sendo certo que alguns, morando 
em quintos andares, d'onde a queda lhes seria sufi- 
ciente ao propósito, vestem-se, e saem a precipi- 
tar-se d'um paredão infamado de centenares de mor- 
tes. Signal é de que ha ahi influxo fatal, attracçâo 
de abysmo. 

Apesar d'isso, medos de catastrophe desvanece- 
ram-se desde que vi o meu amigo apontar-se no 
trajar, e cuidar de certas louçanias incongruentes 
com um corpo que intenta destruir-se. 

Verdade é que eu, n'aquelle mesmo anno, tinha 
conhecido um poeta de caracter sombrio, fino ama- 
dor d'uma esbelta senhora^ que lhe queria com a 
devoção dos vinte annos immaculados. Estorvos da 
má fortuna impediram que Jorge Arthur (*) offere- 
cesse deante de Deus o perfume do seu coração e 
intelligencia áquella senhora. Ora, elle não era já 
mancebo que buscasse vida e felicidade fora da ve- 
reda da honra. Tinha trinta e oito annos. As paixões 
n'esta edade, quando são contrariadas, pesam so- 
bre a alma, immobilisam-n'a, açamam-lhe os Ímpe- 
tos, e privam-n'a de prevaricar na satisfação dos 
ruins desejos. Em annos mais floridos, um obstáculo 
remove-se ; lagrimas, infâmia e a publica abomina- 
ção escassamente assustam. O homem salta por 
sobre abysmos, e ás vezes acontece deixar cair lá as 
perdidas almas que lhes teriam sido anjos do lar se 
as colhessem abençoadas pelo padre e depois pela 
sociedade. Jorge Arthur de Oliveira Pimentel só co- 

(#) Irmão do visconde de Villa Maior. 



Á mulher fatal 43 

nhecia dois caminhos : o da egreja e o do suicídio» 
O da egreja atravancaram-lh'o porque era pobre» 
Encaminhou-se pelo outro. Mas, na véspera d^essa 
ida em busca do abscondito, ou do nada^ — cuida»- 
ria elle e^o leitor por infortúnio d'ambos — encon*- 
trei-o n'uma assembleia onde se jogava» Vi-o apon- 
tar tranquillamente, sorrir ao revez da sorte, esva* 
siar as algibeiras e sair. Parece que nem o óbolo 
levava para o barqueiro do Lethes ! 

Ao outro dia, por noite, ouviu cantar a doce voz 
da sua pallida amiga, que. era chamada a divertir as 
visitas de seu pae. Ouviu, desceu á margem do Dou- 
ro que rugia entre as* escarpas que o estreitam, deu 
a ultima moeda de cobre ao recebedor da portagem, 
e, em meio da ponte, sentou-se na guarda de ferro, 
cravou os olhos no golfão onde não se espelhava 
estrella,. e . . . morreu. 

E, por tanto, mczes depois doeste suicídio, quando 
me disseram que Carlos Pereira ia, muitas noites, 
defrontar- se com a casa de Laura, no escuro d'uma 
travessa, e ouvil-a cantar até uma hora, receei con- 
tagio e imitação. 

Tentei divertil-o d'esse inútil e perigoso extasis 
que, ao parecer de bons praxistas em amor, era ri- 
diculo. Convenceu-me de que ouvir cantar Laura lhe 
lisonjeava os ouvidos, quando lhe não mitigasse sau- 
dades. Um dia me disse elle com certa alegria: 

— Contaram-me que Laura pediu licença ao pae 
para entrar n'um convento. 

— Vocação ascética ? 

— Não sei. . . —murmurou ellè com o desvaneci- 
mento de lhe ser Laura disputada por um rival divi- 
no — Sabes que eu ? . . . — proseguiu elle. 



44 Á mulher fatal 

— Sei o que vaes dizer-me ... Se houvesse con- 
ventos de frades ■. . . Vestias o habito de Abeillard, 
quero dizer, de Abeillard honesto e escapo das 
unhas do sogro... Se isso acontecesse, davas-me 
um romance, e eu dava-te a immortaliclade. Pois 
bom é que não haja conventos. Deixa te estar cá 
fora no soalheiro do século; e a mimosa flor que 
vá recender e esmaiar-se nas jarras do altar, se tem 
medo que a feneça o hálito empestado d'esta gera^ 
ção combalida até á medula dos ossos. 

— Gracejas ... — disse magoadamente Carlos — 
mas ha n'isto uma sublime tristeza!. . . 

— Em quê? na dedicação religiosa de Laura ?••• 

— Não será antes algum mysterioso amor. . . 

— Pôde ser ; mas não entres a imaginar-te o cau- 
sador d'esse eclipse d'uma estrella de primeira or- 
dem na sociedade portuense. Isso que vá lá a quem 
tocar. Laura, se quizesse ser tua esposa, era-o. 

Isto desagradou a Carlos. Não se fallou mais em 
convento. 

Mas eu perguntei a um cavalheiro, intimo e pa- 
rente dos Carvalhaes, se D. Laura ia enclausurar- 
se. O sujeito riu-se, e perguntou : 

— Quem lhe encampou essa fábula ? 

— Encamparam-n'a ao meu amigo Caries Pereira. 

— Esse seu amigo . . . é uma creança . . . Diga-lhe 
que se divirta, e que não ande por travessas a efi- 
cher os ouvidos de notas e o nariz de miasmas. 
Uma coisa não compensa a outra. 

Este homem era de raça d'uns que, desde i83o 
até i85o, jogaram a pella com a pudicícia do Porto. 
Consideravam-n'o* acabado por que tinha quarenta 
annos, e bebia absinto com a presença de espirito 
d*um vigário endefluxado que bebe o seu capilé. A 



Á mulher fatal 4S 

mocidade chamava-lhe o leão decrépito, e qualquer 
rapaz de vinte annos se considerava na posição do 
burro, consoante resa o apologo. Eu, porém, que 
passei com elie algumas noites, bebendo cafeteiras 
de café frio, e lhe ouvi historias pasmosas, contadas 
com admirável modéstia, entendi sempre que effec- 
tivamente os rapazes eram os onagros tirante o at- 
tributo do couce. 

Contei esta passagem, convenientemente modifi- 
cada, ao meu amigo, a fim de o despersuadir do de- 
sejo de ser frade. 

Carlos irritou-se, e disse desabridamente : 

— Quererá esse macrobio passar por namoro de 
Laura ? 

— Não. Disse-me apenas que Laura não pensava 
em sair da sociedade. 

— E que te disse d'ella ? 

— Só isto. 

— Não te deu a entender que amava alguém ? 

— Não. Deu-me a entender que não amava nin- 
guém. 

— Mas que lhe importa elle que eu vá ouvil-a 
cantar ? 

— Não lhe importa. . .Estranhou o romanticismo 
do caso . . . Homens d'aquella edade não entendem 
que debaixo das janellas de D. Elvira esteja um D. 
Jofo de Marana a não ser para subir por escada de 
corda. 

— E' um corrupto esse velho ! — volveu indignado 
Carlos Pereira. 

— Estou por isso. 

— Leão sem garras . . . 

— Isso não sei. Eu, se tivesse mulher ou irmãs, 
quando elle^me entrasse em casa sempre havia de 



46 A mulher fatal 

pedir exame das garras, á cautela. Olha que elle 
vale mais do que nós, Carlos. João de Campos (#) 
pertence á phalange de i83o, raça satânica que a 
onda revolucionaria atirou ao meio d'uma sociedade 
desordenada, quando as cruzes dos templos caíam, 
e as almas se atiravam ao inferno á mingua de fra- 
des. Nós já pertencemos á reacção moral de Chateau- 
bnand. Os pães de familia não lêem o Génio do 
Chrtsttanismo ; mas têm lá um geiíio seu, e péssimo, 
que defende com tranca a entrada das casas, e vão 
de noite, em cuecas e candieiro, collar o ouvido ás 
portas dos quartos em que as filhas digerem a pes- 
cada da ceia. 

— Queres tu dizer...? — interrompeu o meu 
amigo. 

— Quero dizer que João de Campos não é leão 
que se entregue ás vaias de Esôpo. 

— Pensei que julgarias Laura tão ignóbil que o 
amasse • • . 

— Se ella o ama, não sei. . . mas... 

— Sei eu que não ! — bradou quasi irrisoriamente 
Carlos. — Mas . . . quê ? 

— Mas, se o amasse, não era por isso ignóbil. 

— Pois uma formosa menina que se apaixona por 
um velho . . . 

— Prova que o velho é amável. Ai ! meu Carlos, 
quando tiveres quarenta annos e mais eu, com que 
saudade recordaremos a soberba juvenil com que 
estás ahi remoqueando os quarenta annos de Cam- 
pos ! . • • 

— Não heide lá chegar. Espero que este infame 
mundo me mate muito antes . . . 

(*) Pseudonymo, 



A mulher fatal 4j 

Carlos proferiu com amargura e desabrimento es- 
tas vozes propheticas. 



* 



E continuou os seus romanescos arrôbos na tra- 
vessa. 

Por uma calmosa noite de agosto, o arrebata- 
mento d' alma prolongou-se-lhe muito além da mu- 
sica. Laura calára-se, as visitas saíram, as janellas 
fecharam-se; mas Carlos ficou até sumir-se o der- 
radeiro clarão que transluzia da vidraça d'uma tra- 
peira, onde provavelmente dormia alguma criada. 

Ia sair da congosta, quando lhe pareceu ouvir o 
rodar vagaroso do ferro em que prende o fecho da 
j^nella. Recuou, sofifreando o respiro. Contava elle 
que, ainda antes de abrír-se a janella, sentira um 
choque no coração que o deixara todo em tremuras. 
Aberta uma portada subtilmente, saiu á janella um 
vulto vestido de branco, olhando a um lado e outro 
da rua. Carlos reconheceu Laura. 

Se ella viria ali para ver a lua ? Se fugiria ao ca- 
lor dos estofos e tapetes para aspirar a brisa conso- 
ladora ? Se enlevos de coração a convidariam ao 
scismar doce no silêncio de tão inspirativa noite ? 

Conjecturas que lhe banhavam de goso o peito ! 

Se ella estaria esperando um homem ? Se elle iria 
ser testemunha de palavras d' amor caidas d'aquel- 
les lábios á rua? Se Laura teria um amante? 

Conjecturas excruciantissimas ! 

E ella estendia o collo de garça escutando o ru- 
mor de passos lá nos dois extremos da rua. 

Passos não se ouviam ; mas quasi inesperadamente 
viu Carlos perpassar ás surdas um vulto em frente 



48 A mulher fatal 

da travessa e parar debaixo da janella d'onde Laura 
se retirara. Quem quer que fosse pisava leve como 
andorinha. Julgal-o-ieis sombra. Um tapete-velludo 
não abafaria mais inaudiveis os passos d'uma chine- 
za. Que calçaria aquelle sujeito ? A gutta-percha en- 
trou annos depois n'estes escândalos, ou entrou, 
mais exactamente, para não escandalisar a visinban* 
ça, nem accordar a familia — beneficio que os ma- 
ridos e outros devem ás artes. 

Como quer que fosse, a aragem d'uma consolado- 
ra hypothese refrigerou o esbraseado coração de 
Carlos, deixando-lhe presumir que Laura se retirara 
discretamente para deixar a alguma visinha o pra- 
zer de palestrar com os seus amores. 

O meu amigo não podia entrever o que fazia o 
vulto um pouco dobrado para o chão, jogando con:i 
os cotovellos como quem estivesse descalçando umas 
botas. Depois viu levantar-se um braço, e buscar 
qualquer coisa indistincta aos seus olhos perplexos. 
Em seguida, enxergou que duas cordas pendentes 
com travessas a modo de escaleiras, iam subindo 
como se ninguém tirasse por ellas. Divisou que saía 
d' entre as portadas um braço, e, tomando a extrema 
da escada, erguida provavelmente por um cordel, a 
segurava no peitoril de ferro da janella com outros 
ferros que, ao roçar, deram um som áspero e me- 
tálico. Em seguimento, o vulto marinhou lesto esca- 
da acima, cavalgou o peitoril sem lhe tocar com os 
pés, repuxou a escada, e escoou-se para o interior 
da casa. Tudo isto com tal prestesa, que não ha ahi, 
atticismo de estylo capaz de lhe levar vantagem na 
descripção. 

Carlos Pereira sentiu oscillar e abater-se-lhe a cal- 
çada debaixo das pernas convulsas. Sem attentar no 



Á mulher fataí 4g 

grutesco da sua postura, acocorou-se, e apertou en- 
tre as mãos a cabeça onde martellavam estrondos», 
cavos e zoeiras sibilantes. Eile não sabia dizer de- 
pois que tempo de minutos ou annos durara esta 
alienação de si próprio. cEu ouvia chorar o meu co- 
ração, e não me sentia a mim» — explicava elle con- 
fundindo as minhas taes quaes noções psychologícas« 

A's duas horas e meia da manhã Carlos Pereira 
permanecia ainda na travessa ; mas já então distin- 
guia chronologicamente as phazes do seu infortúnio. 
Sabia que por volta de uma hora e um quarto havia 
subido o vulto, e certamente não tinha ainda desci- 
do* Ouviu trez horas nos Congregados^ trez e meia 
nos Clérigos, e quatro na Lapa. As pancadas do 
bronze, como se lhe dessem no peito, iam marcando 
o periodo interminável da sua agonia de quarto em 
quarto d*hora. 

Oh! quanto é preciso ter padecic^o um homem 
para, n'um trance d'esta natureza, levantar olhos ao 
céo, e ir deitar-se na sua cama, e meditar sobre os 
effeitos do peccado original, ou dormir, que é ainda 
melhor ! Isto conseguem-n'o aquelles cujo coração, 
trespassado muitas vezes, abriu fendas que são ou- 
tros tantos respiradouros. Por via de regra, um des- 
mentido á sua confiança pôde, quando muito, vol- 
vel-os mais corrompidos e transgressores do pacto 
social. A lança, que feriu, apenas fez esvurmar pos- 
têma que irá empestar almas. 

Mas, se o amor é o primeiro, o golpe sangra ge- 
nerosas lagrimas. O desenganado não se rebella 
contra Deus. Abraça-se á sua cruz sem blasphemar, 
e ahi se estorce com dolorosa voluptuosidade. 

Assim se explica a pertinácia de Carlos em que- 
dar-se alli na travessa, ouvindo as horas, sem desfi- 

4 



ío A mulher fatal 

tar olhos da janella da alcova que elle tantas noites 
contemplara, pedindo ao anjo dos sonhos innocentes 
que velasse o dormir de Laura com suas azas iriadas 
de luz celestial. 

A's quatro horas e dez minutos, um pouco antes 
de amanhecer, já quando o morrão dos candieiros 
apagados fumegava o seu fétido de purgueira, abriu- 
se a janella, a escada desenrolou-se, o homem des- 
ceu, sobraçou o cordame em roscas, cingiu a orla 
do capote ao rosto, a janella fechou-se, e o vulto, 
cozido com as portas, sumiu -se. 

Sumir-se não; que o meu amigo seguiu-o a dis- 
tancia de vinte passos, com tanta levesa de pé que 
o perseguido não deu tento da espionagem. E, an- 
dado um longo espaço, viu parar o vulto, abrir uma 
porta, entrar e fechal-a. 



* 

# # 

A*s cinco da manhã, quando eu entrava no hotel, 
encontrei Carlos a passear no pateo. 

— Que fazes aqui ? ! . . . Que pallidez é essa ? Es- 
tás doente ? — perguntei, espantado da desfiguração 
do meu amigo. 

— Como te não encontrei no quarto, vim aqui 
esperar-te. Não te custa vir comigo ? 

— Aonde ? vou onde quizeres. 

Deu-me o braço, sem proferir um monosyllabo. 
Se eu lhe perguntava que tinha, respondia-me : 

— Logo saberás tudo. 

Andado um curto espaço de duas ruas, parou de- 
fronte da casa onde vira entrar o vulto, e disse of- 
fegante : 



Aynulher fatal 5i 

— Sabes quem mora aqui ? 

— Sei. 

— Quem é ? 

— E* o João de Campos* 

— Oh ! que vergonha ! — murmurou elle, tapando 
o rosto com as mãos. 



IV 



Segundo amor 




Ão comia nem dormia. 

A febre e suores nocturnos chcga- 
<©^>^ ram a inspirar ao medico receios de 

lesão pulmonar. 

Pedi lhe que saísse do Porto, e consegui que um 
nosso amigo dos Arcos de Val-de-Vez o conven- 
cesse a passar o outomno em-uma sua quinta do 
Minho. 

Saiu Carlos Pereira dcixando-me a desconfiança 
de ser aquelle um adeus dos que se trocam á beira 
da eternidade. Pae e mãe e trez irmãos lhe tinham 
morrido tísicos, e elle levava duas manchas incen- 
didas nas faces, como se o clarão d'outro mundo 
lhe desse já no rosto. 

Illudi*me, ainda bem ! 

Carlos escrevia-me semanalmente, primeiro com 
lacónica melancolia, e presentímento de acabar ce- 



54 Á mulher fatal 

do ; depois ampliando as cartas com a notícia das 
bellezas campestres, e no descrevel-as um suave 
prazer da vida, uma certa poesia luminosa de crer 
e esperar, mudança que eu já tinha conhecido em 
mim depois de ter visto negro, tudo, desde a minha 
alma até ao fundo d'uma cova, e lá no fundo, mais 
negra que a morte, a infernal duvida. 

O hospedeiro amigo, que o seguia sempre, con- 
firmava as minhas alegres supposições, dizendo-me 
que a cura se completaria cedo, se um acaso feliz 
lhe deparasse outra Laura, melhor ou peior. 

Entrou o dezembro, e Carlos não voltava ao 
Porto. 

«Pois passas ahi na aldeia o inverno?» escrevi- 
Ihe eu. 

cSim. Agora é que eu principio a ver e sentir 
outra vez a minha mocidade, mas sem flores. Es- 
pero que ellas voltem com a primavera d'estes sitios 
que me remoçaram : que a natureza me vista a mim 
também de folhas. Tenho vinte annos. Quero viver.» 
Resposta de Carlos. 

E, no mesmo correio, estas phrases do seu ami- 
go: «Temos Laura... peior. Deixal-a ser. O que 
nós queremos é pêllo do mesmo cão ou da mes- 
ma...» Desculpem, minhas senhoras, o plebeismo 
do annexim ; que eu já lhe aspei o mais indelicado. 



Era verdade. 

E passou assim este grão caso, cuja narrativa 
hei-de levar seguida com a possivel seriedade. 
Chamava-se Virgínia. Bom agouro dç nome ! Vir- 



A mulher fatal 55 

ginia de Menezes Picaluga de Ias Cuencas. Os apel- 
lidos estão explicados no brasão do portal. Cuencas 
vem de fidalgos gallêgos que se entroncaram nos 
Picalugas de Melgaço em 1524. 

Virgínia, dama de vinte e seis annos e bellesa so- 
lida, vive na sua quinta das Açudes. E' só, solteira 
e rica. Veio para alli ; mas não se sabe d'onde. Eu 
sei. Depois direi d'onde e como foi. O que lá cons- 
ta é que seu pae, Christovao de Picaluga, a man- 
dara pequenina para longes terras, e na velhice a 
chamara, e reconhecera para os effeitos de succe- 
der na casa paterna. 

Esta rica herdeira tem comsigo um padre que fei- 
torisa os negócios da casa, alguns criados de lavou- 
ra, criadas de sala e cosinha, um litcireiro, e mais 
ninguém. Não visita, nem é visitada. Aforamentos, 
pagas de rendas, laudemios, coisas attinentes á go- 
vernança dos seus casaes, pertencem ao padre admi- 
nistrador, que veio para alli, também se não diz 
d'onde, nem como. Eu direi tudo opportunamente. 
N'estc officio de romancista, ou se sabe tudo da 
vida alheia ou não se escreve nada. 

O que todos sabiam do feitor de D. Virgínia era 
que. nunca padre mais valente d^animo e pulso pi- 
sara o Alto Minho! Representava trinta e tantos 
annos, apessoado herculeamente, olhos coruscantes, 
compostura de feições, a primor, bem que um tanto 
rústicas. A fama de valente e destemido ganhou-a 
deslocando o pulso a um escrivão remisso no lavrar 
uns mandados de posse, e torcendo ô pescoço a 
um parocho que usurpara á fidalga das Açudes o 
direito d'um local exclusivo na egreja, onde ajoe- 
lhar- se, á imitação de seus avoengos, direito nunca 
disputado desde D. Urraca Picaluga, sua decima ter- 



56 A mulher Jataí 

ceira avó. Afora isto, os algebristas, algum tempo, 
tiveram muito que fazer destorcendo ou soldando 
costellas dos caseiros de D. Virgínia, j:razidos ao 
caminho da pontualidade no pagamento das rendas 
pelo systema summario do feitor. 

Carlos Pereira ouvira contar estas e outras pas- 
sagens relativas ao mordomo de D. Virgínia, depois 
que ella passara na sua liteira na ponte dos Arcos, 
seguida do capellão cavalgado em possante macho. 
O meu amigo reparara na fidalga e admirou-a. Os 
conhecidos d'elle poetisaram-lh'a nubelando a exis- 
tência mysteriosa de Virgínia, e o insulamento em 
que se apartara tão peregrina belleza, n'uma edade 
em que o habito de amar centuplica as forças do 
coração, mormente n'um estado independente e rico 
para poder desprender-se de respeitos sociaes. 

Carlos dormiu alvoroçado, e levantou-se melan- 
cólico. Tinha entrado n'elle o amor por fulminação ! 

O seu hospede informou-o alegremente do cami- 
nho que levava á quinta meia légua distante. O bom 
amigo almejava distrail-o. E, para o intento, um 
passeio quotidiano de légua era exercício hygienico 
e preparatório para bem dormir as noites. 

Arvorou-se Carlos em caçador, e foi caminho da 
ventura até encontrar o portão ameiado da quinta 
das Açudes. 

Impressionou-o o aspecto vetusto e feudal da casa 
torreada nos quatros ângulos com suas setteiras, 
adarves e guaritas. Estas carrancas guerreiras, con- 
struídas no século XVII por um fidalgo que nunca 
tersára um faim, serviam apenas de pacíficos mira- 
douros e ornato na forma quadrangular do edifício. 

Não obstante, o moço brazíleiro, lido em Walter 
Scott, transportou-se aos tempos feudaes ç ás tra- 



A mulher fatal S7 

gedias que espadanaram sangue d'a()uellas sombrias 
pedreiras, E as castellans que lhe avultavam na em- 
bellesada imaginatíva, certo, não eram mais adorá- 
veis que Virginia — a mysteriosa. 

Oh ! a mysteriosa ! Não era já isto um traço ca- 
valleiroso da edade media ? E elle, se podesse en- 
nevoar-se até passar por mysterioso^ não seria coisa 
para que estas duas almas olympicas dessem de si 
uma épica extravagância, a destacar da chilra prosa 
em que nos deixamos ir animalmente pelo cabresto 
do instincto ? 

Deixamol-o parado em frente do portão olhando 
para ^s torres que sobranceiam o vasto terraço. Ali 
está, e sente- se bem ; mas o seu intento não se sa- 
tisfaz a contemplar o paço da castellan. 

Já nos não parece o homem da travessa ! E' que 
o primeiro amor, prospero ou funesto, dá atrevi- 
mentos novos para o segundo. 

Delibera abrir o portão e entrar ao pateo. 

Abre, com eíFeito. Avança meia dúzia de passos, 
e é atacado por um formidável casal de cães da 
Navarra, marcados a ferro no focinho como os mo- 
lossos das selvas druidicas. Acode-lhe animo nas 
fauces do perigo. Encosta-se á parede, e ofFerece a 
cronha da espingarda á dentadura minacissima. O 
meu amigo ia ser irremediavelmente devorado, quan- 
do de uma janella gritaram ás féras, que obedece- 
ram de cauda caida e rosnando. 

A redemptora foi Virginia. 

Carlos descobriu-se, deu alguns passos, e balbu- 
ciou, gago de amor e de susto : 

— Entrei para pedir licença de accender um cha- 
ruto, se vossa excellencia permitte. 

— Eu mando ... — disse e retirou-se a fidalga. 



58 A mulher fatal 

Momentos depois uma criada entregava ao caça- 
dor uma caixa de fósforos. Quiz elle aproveitar se 
de um; mas a moça disse que a senhora mandara 
entregar a caixa. 

Olhou Carlos para cima, e viu Virgínia. Desco- 
briu-se com refinada elegância de meneios, e disse: 

— Agradecido a vossa excellencia. 

Virginia abanou a cabeça três vezes, e conser- 
vou-se. 

Ao transpor o portão, o bello desconhecido vol- 
tou-se para a frontaría da casa, e cortejou nova- 
mente. 

— Que bonito rapaz ! — disse a fidalga á sua cria- 
da. Aquillo é papa-fina ! —acrescentou ella em ter- 
mos assaz destoantes da sua prosápia. 

— Bonitoj bonito ! —confirmou a criada. 

— Quem será ? Eu nunca o vi . . . 

— Nem eu. 

— Dava n'esta santa hora uma moeda por saber 
quem era ! — tornou Virginia cada vez mais plebêa 
na linguagem. 

— Olhe lá o que diz, fidalga ! — acudiu a criada. 

— O dito, dito; mas vê lá como fazes isso, Per- 
petua! Que não vá elle cuidar que. . . 

— Que hade elle cuidar ? Deixe-me lá ir, que ain- 
da o apanho na calçada. 

Apanhou, de feito, mais perto do que suppunha. 
O caçador estivera espreitando por um resquicio do 
portão, e somente se retirara quando viu a criada 
atravessar o pateo ás carreiras. 

— Vossa senhoria, ainda que eu seja confiada, é 
doestes sitios ? — perguntou ella titubiantc. 

— Não, menina — respondeu Carlos agitado pela 
esperançosa surpresa de tal pergunta. 



A mulher fatal 5g 

— Ai ! não é ? Então d'onde é ? 

— Do Porto ; mas estou, ha trez mezes, na quinta 
de S. Braz, meia légua arredada d'aqui. 

— Sim ? 

— Sim, menina. 

— Está bom. . . Queira perdoar. . . Estimarei que 
passe muito bem. 

— Adeus, menina. 

Minutos depois, Carlos pensava comsigo : «Não 
ha basbaque maior do que eu! Pois não deixei ir 
a críadaí sem lhe dizer qualquer coisa que podesse 
lisonjear a ama ! Eu ainda estou muito garraio ! 
Conhece-se que saí ha seis mezes do collegio ! Que 
juizo fará de mim esta mulher ! . . . Mas quem sabe 
se a curiosidade é da criada e não da ama ? ! . . . 

Outras reflexões conscienciosas lhe sobrevieram, 
ao mesmo tenjpo que D. Virginia dizia á criada : 

— Nem te disse como se chamava?! 

— Eu não lh'o perguntei, fidalga. 

— Então não te dis«e mais nada, mais nada ? ! 

— Mais nada. Se eu soubesse que vossa excellen- 
cia queria saber-Ihe o nome . . . 

— Agora queria. . . que me faz cá isso ? mas cui- 
dei que tu, indo lá, trarias mais alguma noticia. . . 

— Deixe que elle torna. . . 

— Quem te disse que tornava ? 

— Digo-lh'o eu, minha senhora. Olhe que elle 
veio cá para ver vossa excellencia. 

— Bem me fio eu n'isso, mulher! Pois o homem 
nunca me viu . . . 

— Vossa excellencia sabe lá ! Talvez que a visse 
antes de hontem, quando a fidalga vinha da quinta 
dos Arcos. 

— Não te vás sem resposta, que eu figura-se-me 



6o A mulher fatal 

que vi aquelle rapaz a passeiar com outros na pon- 
te* 

— Pois olhe que não foi oiiti a coisa . . . quer a 
fidalga que eu vA deitar as cartas ? 

— Vae buscal-as. . . 

Quando a criada saiu para nos completar o con- 
ceito que vamos formando do espirito de sua^ama, 
Virginia chegou á janella, olhou distraída por cima 
do muro e viu o caçador subindo uma colina fron- 
teira e parar no topo a olhar para elia. 

Entrou Perpetua, e a ama advertiu a alegremente: 

— Queres vêl-o? Lá está no cimo da bouça pa- 
rado a olhar para aqui. 

— Adivinhei ou não? Olhe que eu sou muito fi- 
na ! — jubilou a criada. — A moeda d'oiro que não 
esqueça, ouviu, fidalga ? 

— Não tenhas medo. . . Ganhaste a moeda ! 

— Faz a senhora' muito bem em se divertir — ap- 
plaudia a moça cá do fundo da sala, sem que a ama, 
toda inlevada no caçador, desse grande attenção 
aos incentivos da matreira. — Uma senhora linda 
como vossa excellencia, aqui mettida sem ver nin- 
guém que lhe falle ao coração ! Credo ! não sei de 
que lhe serve a riquesa ! . . . Todas as fidalgas que 
eu servi se divertiam o seu todo-nada. Só vossa 
excellencia parece que disse adeus ao mundo ! An- 
de-me, minha senhora, que ainda está uma flor, e 
na edade de se casar com quem lhe parecer. .. 

Virginia desprendeu um profundo suspiro e um 
ai tanto ou quê mysterioso. 

— Qual ai nem meio ai ! — tornou Perpetua. — 
Divirta-se em quanto é tempo, fidalga. Olhe que 
isto da vida são dois dias. Deixe-se de contos. Não 
queira tutores da sua porta p'ra dentro. O senhor 



A mulher faial 6t 

padre que trate lá da sua obrigação e que não se 
lhe importe com vossa excellencía. 

— Ai! repetiu a fidalga, e tão do peito tirou o 
gemidO) que Carlos ouviu o dulcíssimo som, por 
que o portal da quinta quasi embeiçava com o so** 
pé do outeirinho. 

Ora isto era motivo para endoudecer um homem 
d'aquelles annos. Um af> um suspirar assim de fi- 
dalga entre quatro torres acastelladas ! Um ai da 
mysteriosa Virgínia ; expressão de angustia mal aba- 
fada, ou grito de alma que se levanta do seu tu- 
mulo e sacode a mortalha, e se aquece dos gelos 
da ingratidão ao sol da esperança ! • • . Um ai l 

# 
# « 

Carlos dobrou os joelhos sob o peso da sua feli- 
cidade ; e ajoelhou mentalmente com reconhecidas 
lagrimas, em acção de graças, á Providencia que o 
recompensou. 

Como o jubilo lhe pulava do coração aos olhos, 
quando se atirou aos braços do amigo, exclamando : 

— Sou feliz ! Sofiri pouco em comparação do que 
estou gosando ! 

— Pois já?! — espantou-se o hospede. — Tão ce- 
do!... Ou tu és César, qu a mulher é Fulvia ; se 
antes, meu poeta, não és tão parco em amor, que 
te contentas de pouco ! Chegar, ver e vencer, meu 
caçador ! . . . Estranha caça é essa ! . . . Nós, os mi- 
nhotos, conhecemos pouquíssimo d'essa volateria! 
Não alcançamos perdiz sem caminhadas de muitas 
léguas por montes e valles . . • 

Contou em florido es^lo o brasileiro o prospero en- 



02 A mulher fatal 

contro accrescentando ao que sabemos que Virgí- 
nia lhe acenara com o lenço brancO; ao dcspedír-se* 
O amigo felicitou-o; mas a consciência culpava-o 
de lisonjear uma paixão nascente e, a seu ver^ mal 
empregada. 

— Com que intento namoras esta mulher ? — 
perguntou elle. 

— Com o intento de amal-a . * . 

— Casarias com ella ? 

•*-E crês que senhora tão fidalga, rica e beíla 
aceitaria a mâo do filho d'um negociante^ com pe-^ 
quena «fortuna» ? 

— Creio que sim* Pois não a ouviste dar um ai! 
não te acenou com o lenço ? Não te namora ella ? 

— Sim . . . 

— Então uma das duas : ou te quer para esposo 
ou para amante. Qualquer dos bicos do dilemma 
te serve. A segunda hypothese, porém, é offensiva 
de tão nobre dama; todavia, dé-se de barato, que 
ella não capricha em primores de dignidade » . . 

— Isso é triste... — interrompeu Carlos. Não me 
rebaixes esta mulher que me salvou. . . 

— Dos cães de Navarra? 

— Adeus ! . . . isso é máo gosto ! Que sabes m da 
vida d'ella para aviltal-a ? 

— Eu não a avilto. O que sei d'ella? Sei apenas 
o que me contas. . . e é bastante. Meu amigo, mu- 
lher que atira assim um ai da janella a um homem 
que viu pela primeira vez; mulher que agita um 
lenço á laia de cosinheira. . . 

— Ora ... — atalhou indignado o moço. — Tens 
trinta e dois annos, e eu vinte ! . . . O meu prisma 
é o de uma alma cheia de santas illusões que me 
não deixam escarnecer d'um suspiro, nem do agi- 



A mulher fatal 63 

tarse um lenço que exprime um adeus. Seria ri- 
dículo eu, parado no alto do outeiro a contemplal-a? 

— Não. 

— Se não, por que hade ser ridícula Virgínia ? 

— Ridículo serias tu, se pegasses a dar ais no 
alto do outeiro. Creio que não gemeste, Carlos. . . 
Em fim, não te enfadem estas minhas esquisitices* 
Estamos conversando. O que eu sinceramente desejo 
é que esta Virgínia não esteja tão longe do seu no* 
me, como a Laura portuense estava da do poeta 
italiano. Entretanto, a amisade força-mè a aconse* 
Ihar-te que estejas de sobre-avíso com um padre 
que mordomisa a casa da fidalga. Consta-me que o 
homem tem na alma trez casaes de cães navarre- 
zes. 

— Podes imaginar que elle seja amante de Virgí- 
nia ? ! — interrompeu com azedume o coUegial da 
Formiga. 

— E se podesse. . .? 

— Calumniarias sem graça nem piedade uma se* 
nhora, abatendo a até á villanía de amante do seu 
capellão... Tu és terrível! O sceptícismo é uma 
aljava cheia de dardos venenosos, . . 

— Um nosso amigo sceptico — volveu o minhoto 
sorrindo — desembestou uma vez um d'esses dardos 
ao peito d'uma certa Laura. . . A tua crença esbra- 
vejou de innocente cólera; mas isso não impediu 
que o sceptico te fosse depois ensinar a porta d'um 
tal João de Campos. 

— Isso aconteceu no Porto. . . 

— Que faz ao caso a localidade ? 

— O Porto é um foco de miasmas socíaes. 

— Olha que as nossas aldeias, apesar da pureza 
dos ares, não t'as recommendo como alfôbres de 



64 A tmtlher faial 

candura. A|corrupçâo^ quando nos empesta, é por 
atacado. Os capellaes das faaiilias nobres não são 
bastante entulho a empecer a entrada do vicio aos 
paços acastellados. 

— Ahi tornas tu com a insinuação hedionda..* 
Pois bem ! Seja embora o padre amante de D. Vir» 
gínia! Se o é', porque me deu ella provas de que 
me acceita a corte ? Se desceu até bo feitor, é por 
que o ama. 

— A' falta d*um gentil caçador. . • Suppõe que a 
tua presença desalojou o padre do peito de Virgi** 
nia!.. . 

— Obrigado pela lisonja. . . 

— Sem lisonja ; que o rival não te honra, nem o 
supplantal-o te deveria empavesar. . é 

— A final, queres dizer-me que não volte a vêr 
Virgínia ? 

— Seria inútil. Hasde vêl-a, hasde amal-a como 
se os anjos do Senhor t'a invejassem. • . Seria inú- 
til tentar demover-te . . . 

— Vê lá! se esta paixão me desdoura, retiro-me, 
vou amanhã para o Porto. 

— Um homem nunca se desdoura por mais ab- 
jecta que seja a mulher que ama. O peior que pode 
acontecer-te — continuou jocosamente o amigo — é 
tropeçar no padre. 

— Se cair, levanto-me. 

— Com o tardio remorso e pejo de ter malbara- 
tado grande porção do puro sentir que é tão pouco 
em cada alma . , . EUe te faltará depois aos trinta 
annos • . . 



A mulher fatal 65 






Seria inútil^ disse avisadamente o nosso amigo 
do Minho. 

Programmas de infortúnios amorosos por milagre 
vingam esfriar corações ferventes; antes parece que 
as ameaças lhe refinam o ardor. E' escusado acon- 
selhar com theorias e despersuadir com exemplos. 
Em amor ha um só e único argumento que ensina : 
é a experiência. Bem- aventurados os poucos que, 
apalpados pelo segundo desengano, tiveram máo 
de si á terceira tentação ! 

Ao outro dia e á mesma hora, o caçador — inno- 
centissimo Nemrod que não seria capaz de acertar 
n'um urso adormecido — estanceava nos arredores 
da quinta das Açudes. 

O céo emborrascava se, rolando trovões, e abrin- 
do relâmpagos por entre castellos de nuvens que se 
recruzaram, conglobaram, desfizeram e encorpora- 
ram até se fecharem de horisonte a horisonte em 
abobada cinzenta. 

Quando ás primeiras gotas cairam frígidissimas, 
Carlos estava no topo do outeiro, e D. Virgínia na 
janella, continuando a reciprocidade contemplativa 
que já tinha, áquelle tempo, uma boa hora de vida 
de paraiso. 

Notou o moço que lhe não bastava a estufa do 
coração para alimentar o calórico da peripheria; ti- 
ritava e contraía-se quando o açoite da chuva lhe 
verberava as orelhas. 

N'este comenos, a fidalga retirou-se da janella, e 
d'ahi a minutos abriu-se o portão, onde saiu a já 



66 A mulher fatal 

conhecida Perpetua de chalé pela cabeça acenando 
ao caçador que fosse lá. 

Desceu Carlos com o alvoroço próprio do caso, 
no que era grande parte uma espécie de susto de 
se ver face a face de Virgínia — sensação vulgar que 
não merece analyse. 

— A fidalga manda-lhe dizer que não esteja á 
chuva — disse a criada. — Faça favor de vir comigo; 
mas venha depressinha. 

Seguiu-a, estugando o passo, o nosso aventureiro. 

Entrou n'uma das portas térreas do edifício, foi 
ao longo de um comprido corredor, subiu poucos 
degráos, e achou-se n'um casarão rodeado de cai- 
xas de milho, com seus pingentes de presuntos no 
tecto. 

— Hade perdoar trazel-o para aqui — desculpou-se 
Perpetua. — O senhor padre está em casa e é pre- 

•ciso muito cuidado com elle. Se o tempo estiar, 
elle tem que ir á Barca, e depois vossa senhoria 
pôde dar duas palavrinhas á fidalga ; mas hade ser 
com muito esguardo dos outros moços. 

— Sim?... — murmurou attonito Carlos, mal com- 
penetrado ou indigno avaliador da sua feliz situa- 
ção. 

— Sim, meu senhor... olhe que a minha ama 
quer-lhe muito ! Parece coisa de peccado ! . . Viu-o 
só uma vez, e está mesmo apaixonada ! . . . Vossa 
senhoria como se chama, ainda que eu seja con- 
fiada? 

— Carlos Pereira. 

— Por muitos annos. Pois eu vou lá cima, e vol- 
to já, senhor Carlos. Assente-se ahi por onde pu- 
der. 

Temol-0| portanto, em trances não invejáveis. 



Á mulher faial 67 

Está mal de espírito. Quem o acreditará ? Eu, e, 
mais do que eu, uns que amaram fidalgas formosas 
residentes em solares torreados, guardados por cães 
de Navarra, na quebrada de uma serra, pleno sé- 
culo XIV, tudo isto rodeado de silêncios medonhos 
ou do zoar aspérrimo das arvores ramalhadas 
pela ventania. Pois hade elle vêl-a e fallar-lhe ? ! A 
castellan descerá a ver o menestrel nas suas m- 
Ihas?... 

Que lances tão de D. Florizel de Niquea ou Ama- 
dís passam obscuros nas aldeias do nosso Minho, 
onde muita gente cuida que o producto mais admi- 
rável é o tamanho das abóboras ! 

Voltou a criada, meia hora depois, com uma ban- 
deja de biscoutos e uma garrafa de cristal, coando 
a côr vetusta do licor com que foi substituída a Cas- 
talia antiga. 

— Trago-lhe dois biscoutos e uma pinga para ma- 
tar o frio — disse a jovial Perpetua. — O diabo do 
padre ainda não saiu ! Raios o partam ! 

Carlos, com o propósito de animar-se, bebeu, 
sem que ao ideal implicasse o prosaismo de se es- 
tar avinhando da garrafeira da castellan. 

Depois, um tanto espiritado, perguntou, recor- 
dando as insinuações do amigo : 

— Esse padre é parente de sua ama? 

— Não lhe é nada: é o feitor da casa, e diz a 
missa ás vezes. 

— Mas a senhora D. Virginia parece que. . . que 
se esconde d'elle ! . . . 

— E' porque elle quer-se metter a governal-a. A 
fidalga deu-lhe muito ousio quando elle veio para 
aqui, e agora. . . como elle é quem sabe dos títulos 
da casa, minha ama não quer pôr*se ás más. Sabe 



68 A mulher fatal 

vossa senhoria o que eu penso? E' que elle náo quer 
que a fidalga case. 

— Por quê ? Não quer ! Com que direito ! ? 

— Porque, se ella casar, o marido tira-lhe a elle o 
governo d'esta grande riqueza, e pôe-n'o fora. O pa- 
dre o que está é a encher-se, e por isso não lhe faz 
conta que a minha ama tome estado, entende vossa 
senhoria ? 

Isto pareceu plausivel a Carlos. «Vejam como ás 
vezes se calunmia uma innocente victima d'um la- 
drão!» dizia o moço entre si. 



A chuva não cessava. As carvalheiras estrondea- 
vam como um rugir de vagas embravecidas. E o pa- 
dre feitor, desesperado de melhor dia, mandou des- 
apparelhar o macho e descalçou as botas d^agua. 

Feita esta revelação pela raivosa criada, Carlos 
deliberou retirar-se; mas Perpetua, em nome de sua 
ama, pediu que não saisse com tal tempo, porque 
teria de dar uma volta de légua em razão de não 
poder passar as poldras d'um regato engrossado 
pela chuva. 

— Vossa senhoria fica até parar a chuva — ajun- 
tou a criada — e se não parar, cá dorme. 

— Dormir ! . . . — disse o moço enleiado. 

— Então que tem?! Assim que fechar a noite 
passa d' aqui para um quarto onde não vae ninguém, 
e durma descançado que não tem perigo nenhum. , . 
Não tenha medo ... 



"A mulher fatal ' 6g 

— Medo. . . nenhum! — repelliu Carlos, chofrado 
de que na mente de Perpetua coubesse o receio de 
lhe fazer medo o padre. 

— E se o padre dormir a sesta, — acrescentou 
ella — a fidalga talvez lhe falle . . . 

— Mas — atalhou o moço frivolamente — a se- 
nhora D. Virgínia deseja fallar-me ? 

— Pois então ? Se não desejasse fallar-lhe, man- 
dava-o chamar ? ! Assim Deus gostasse da minha 
alma, como ella gosta de vossa senhoria ! 

A's trez da tarde, Perpetua entrou na tulha com 
um açafate de tampa, d'onde tirou um pedaço de 
lombo de porco assado com loiras batatas, um po- 
dim das mesmas, um prato de linguiça con^ ovos, 
uma compoteira de doce de ginja, e uma tigella 
vermelha de marmelada. Aberto o guardanapo so- 
bre uma caixa, e posto o faqueiro antigo de prata 
com as armas dos Picalugas, a criada estendeu a 
apetitosa coberta, e disse : 

— Coma á sua vontade e com todo o descanço, 
que eu vou ver se o diabo se deita. 

Carlos comeu quasi nada e sem apetite. Falta- 
vam-lhe dez annos para honrar dignamente aquellas 
iguarias recendentes, e sentir ao mesmo tempo es- 
tar-se-lhe o coração a dilatar em competência com 
a viscera visinha. Figurava-se-lhe profanação e cha- 
teza, o cair da altura do seu ideal sobre aquelles 
nacos de sevado ! Oh ! como se é creança poucos 
dias antes de envelhecer ! Quão tarde chegam a col- 
laborar as entranhas harmonicamente na felicidade 
do homem ! A poesia estéril é o coração sem estô- 
mago; a materialidade corruptora é o estômago 
sem coração. Alma feliz é a que participa do bom 



70 A mulher fatal 

sangue de um órgão filtrado de suas impurezas ani- 
maes pelo outro^ 

Carlos fumava o ultimo charuto, quando a criada, 
entrando e pondo os olhos nas vimalhas, excla- 
mou : 

Ai ! que não comeu ! 

— Comi bastante, senhora . . . 

— Perpetua para o servir. Vejam que pclém este ! 
Por isso vossa senhoria é tão magrinho ! Está como 
a fidalga que também não come nada ! . . . Ora ve- 
jam ! Não gostou do cosinhado, é o que foi. 

— Pelo contrario : gostei muito ; mas não pude 
comer mais, senhora Perpetua. 

— Olhe que o padre deitou-se. . . 

— Sim? 

— Parece-me que a fidalga não tarda ahi. 

— Sim? 

— Mas ella está com vergonha. . . e diz que não 
sabe o que hade dizer a vossa senhoria. 

— Não ?. . . — acudiu Carlos com um sorriso que 
lhe faria pena, leitor^ se vossa excellencia lhe ou- 
visse depois contar os phenomenos interiores que se 
escondiam n'aquelle sorriso. 

E, passados instantes. Perpetua, fitando a orelha, 
disse de mansinho : 

— Ella ahi vem. 

O' musas ! . . . propiciai-me o paragrapho ! 



D. Virgínia Picaluga entrou com desembaraço, e 
um sorriso, digamol-o assim, de familiaridade e ale- 
gria nos olhos negros e brilhantes. 



A" mulher fatal ^/ 

Cçrios deu dois passos, baixou a cabeça, e mur- 
murou : 

— Minha senhora . . . 

— Olhe que elle não comeu nada ! — acudiu Per- 
petua apontando para os pratos. 

— Não ? ! — disse Virginia com um timbre de voz 
avesso do que se espera d'uns lábios de frescura 
infantil. — ^Não trouxeste outras comidas, Perpetua ? 

— Minha senhora— tartamudeou Carlos— eu não 
tenho vontade de comer. . . Agradeço muito a vossa 
excellencia. . . o incommodo que. . . 

— Incommodo nenhum. . • Desculpe vossa senho- 
ria a casa para onde o trouxe a minha criada. • . 

— O' minha senhora. . . 

— Infelizmente estava em casa o meu capellão 
que . . . 

— Eu já lhe expliquei tudo... — interveio Perpetua. 

— Nem cadeiras !. . . Vae buscar duas cadeiras... 
Saiu a criada, Carlos permanecia direito, hirto de 

braços pendentes como um recruta, ou como um 
palaciano. 

— Como veiu dar a estas montanhas, senhor Car- 
los ? — perguntou D. Virginia, apoiando-se no braço 
que escostára a uma das caixas, quebrando um 
pouco de lado, em bella, mas menos senhoril pos- 
tura. 

— Como vim, minha senhora ? 

— Sim • • . 

— Vi-a. . . vi vossa excellencia. Ouvi o seu nome 
e a sua morada. . . 

— Eu também o vi. Já sei que o senhor Carlos 
é do Porto. 

— Sou do Rio de Janeiro; mas tenho vivido em 
collegio dos arrabaldes do Porto. 



72 A mulher fatal 

— E a sua família onde está? 

— No outro mundo. Não tenho pae nem mãe. 

— Não ? . • . Tão novo ! . . . quantos annos tem ? 

— Vinte, minha senhora. 

— E eu tão velha ! Sabe quantos tenho ? Diga 
lá... 

— Vinte e quatro ? 

— Com mais dois. 

— Está no vigor da mocidade, minha senhora. 
Chegou Perpetua com duas cadeiras. Carlos apres- 

sou-se a tomar uma que oflFereceu a D. Virginia, e 
ficou em pé, na attitude do pagem de tocha que es- 
pera as ordens da castellan. 

— Queira mandar-se sentar, — disse a fidalga. 
Mandar-se sentar. O meu amigo reparou na phra • 

se que lhe pareceu duplicadamente urbana. A se- 
nhora das Açudes não o mandava sentar-se; pedia- 
lhe que se mandasse elle a si. Quem inventaria este 
requinte de cortezia ? Devia de ser phrase trazida ao 
castello por alguma senhora creada na corte poli- 
ciadissima de D. João III, onde Gil Vicente reci- 
tava aquellas suas policiadissimas comedias. 

— Vae espreitar, que não venha alguém, Perpe- 
tua — continuou D. Virginia, no estylo do nosso uso 
quotidiano. — Fecha a porta do corredor que não 
venha aqui ter algum criado. 

— E agora ?! — dizia de si comsigo o confuso 
moço, sentindo aquecidas as faces pudibundas. 

A neta dos Cuencas deu ares de sangue hespa- 
nhol no tom desempenado com que lhe disse : 

— Senhor Carlos, não faça de mim máo concei- 
to. .. 

— Oh minha senhora ! Vossa excellencia magoa 
me . . . Eu considero um anjo do céo quem me dá 



A mulher fatal yS 

a felicidade <}ue estou gosando. . . — exclamou elle 
com sincera ternura. 

— Eu bem sei que as senhoras da minha quali- 
dade são mais. . . são mais. . . sim, são mais demo- 
radas em acceitar a corte dos cavalheiros que as 
adoram ; mas eu tenho outro pensar. Se amo e vejo 
que sou amada, declaro logo os meus sentimentos. 

— Isso é próprio de um coração generoso, minha 
senhora. . . Mas tive eu a ventura de mover o cora- 
ção de vossa excellencia ? 

— Se não movesse, decerto não estaria aqui, se- 
nhor Carlos. Ha quatro annos que me não deixam 
estes cavalheiros de seis léguas em roda. Dou lhe a 
minha palavra de honra que não tenho dado cavaco 
a nenhum. . . 

Este cavaco bateu no coração do rapaz como se 
fosse uma sorveteira. Não obstante, o seu bom juizo 
reflexionou lhe que se desse os emboras de topar 
uns ouvidos virgens da linguagem tersa e selecta 
dos salões do Porto, onde o portuguez se falia a 
primor. E a fidalga continuou cavaqueando : 

— Tive muitas cartas, e para ahi estão todas por 
abrir. Posso-lh'as mostrar, se quizer. 

— Minha senhora, vossa excellencia não tem que 
justificar-se ; eu creio-a, e adoro a sinceridade das 
suas revelações. 

— Não sei mesmo o que dizem as cartas ... 
Susteve-se D. Virgínia, e perguntou: 

— Diga-me cá: o senhor Carlos, se me não fal* 
lasse, que fazia? 

— Que fazia ? não entendo bem a pergunta, mi- 
nha senhora. . . 

— Escrevia-me, não é assim? 

— Se vossa excellencia me permittisse . . . 



74 A mulher faial 

— Pois, se me escrevesse, eu não lhe respondia, 
ainda que quizesse, por que não sei ler nem escre- 
ver. Awdmira-se? 

— Não me admiro, minha senhora... Eu sei que 
certos fidalgos despresam a educação litteraria das 
filhas ... 

— A mim não me ensinaram nada... Eu lhe con- 
tarei n'outra occasião como fui creada. O que eu 
quiz agora foi dizer-lhe a razão por que o recebi em 
minha casa. Gostei do senhor Carlos, quiz mostrar- 
Ihe que correspondia ao^ seu . amor. Vi que não ti- 
nha outro modo ipais . • . mais desenganado. Aqui 
tem. 

— Vossa excellencia é adorável, minha senhora! 
A minha alma inclina-se deante de tão amável fran- 
queza. Que importam os dotes da intelligencia ? 
Vossa excellencia tem os thesouros do coração. Que 
mais heide eu pedir a Deus ? 

— Que faz vossa senhoria n'estas terras? Tem 
alguma quinta ? 

— Saí do Porto ha mezes doente, e vim restau- 
rar-me na quinta d'um amigo ; vim conduzido pela 
mysteriosa Providencia . . . Era vossa excellencia 
quem eu procurava... era a realisação dos meus 
sonhos. . . 

— E demora-se por aqui ? 

— Emquanto vossa excellencia me não repellir ; 
em quanto . . . sentir que mereço a estima de vossa 
excellencia. 

— Então havemos de fallar mais vezes. Olhe . . . 
domingo sei eu que o meu capellão vae para Bra- 
ga, e volta na segunda feira. Venha no domingo ao 
meio dia, e espere que a Perpetua o vá chamar, 
sim? 



A mulher fatal 

— Sim, minha senhora. 

— Tenho muito que lhe dizer. . . muito, muito. . . 
Sympathiso muito comsigo. 

Perpetua deu çignai de que o capeiião nâo ador- 
mecera, e já andava a pé, D. Virginia ergueu-se de 
golpe, e apertou a mSo de Carlos, que se inclinou 
a beijar a d-ella. Era o primeiro osculo que depu- 
nha em mão de mulher. 

A fidalga sorriu-lhe com amoravel complacência 
e retirou-se, apertando o passo. • 

O meu amigo, querendo debuxar ení sombra e 
muito á flor do coração as delicias que o endeusa- 
vam ao separar-se de Virginia, disse : 

— Tive orgulho de mim, e, assim mesmo, eu 
achava*me um insignificante para aquella mulher 
que se me figurou o brilhante, como elle saiu das 
mãos do Greador, antes que os homens o polissem 
para o converter no ouro das paixões abjectas. 

Este paragrapho seria absurdo, se o capitulo se- 
guinte não alumiasse os incrédulos e justificasse o 
author. 



l 



Segíiiido golpe 



^ ToLViDO um mez, depois da mais honesta scenâ 
^ • de amor dos meus romances, appareceu-me 

Carlos Pereira, alegre, nutrido e robusto. 
Eu sabia apenas que o moço amava, e projectava 
um casamento rico. Sabia-o d'elle e do meu amigo 
dos Arcos, para quem o tal matrimonio, se não 
fosse uma fabula, seria uma calamidade. Pedi ex- 
plicações confidenciaes. Respendeu-me : Não sei que 
instincto me di\ que a mulher amada por Carlos 
esconde mysterios indissimulaveis a um marido. Car- 
los tem cataratas. Não lhe faço a operação^ por que 
receio cegal-o irremediavelmente. Espero que uma 
eventualidade lhe relampagueie a lu\ da ra^^ão. 

Do primeiro fôlego, levou Carlos a calorosa nar- 
rativa ao ponto em que a deixamos. D'ahi por dean- 
te, a exposição é confusa, derramada e superabun- 
dante. Trato de esclarecel-a, abrevial-a e mondar-lhe 
as superfluidades. 



yS \ A mulher fatal 

As visitas do caçador ao solar dos Picalugas fo- 
ram espacejadas a prasos de jtrez dias. Duas ou 
trez vezes, o aventureiro recebeu ordem de retirar- 
se, e d'uma vez pareceu-lhe divisar a corporatura 
entroncada d'um homem atravez da vidraça. O in- 
temerato moço não temia o padre. Fiado nos dois 
tiros da sua espingarda, affrontava desassombrada- 
mente a fama do pimpão tonsurado. 

Na derradeira vez que fallára á castellan, o pacto 
definiu-se nos mais positivos termos. Carlos obteria 
licença do prelado do Porto ou do bracharense 
para que um vigário qualquer celebrasse entre elles 
o sacramento. Virginia sairia de sua casa «m occa- 
sião que o padre andasse fora, com tardança de trez 
dias. O ensejo apropositava-se, porque o adminis- 
trador dos vastos dominios ia a Trazos-Montes 
instaurar processos contra uns foreiros. Quando 
saisse, a noiva levaria comsigo os titulos da casa, 
ou os esconderia da rapacidade do capellão. Casa- 
dos, permaneceriam algum tempo no estrangeiro, 
onde D. Virginia muito desejava ir, revelando ao 
noivo, n'esse acto, que possuia algumas centenas 
de peças encontradas nos contadores de seu pae. 

Em consequência da qual combinação, Carlos Pe- 
reira passara a negociar no Porto a licença prelati- 
cia, e me pedia a mim que lhe solicitasse as rela- 
ções necessárias ao intento. 

Escutei pasmado e quasi incrédulo esta urdidura 
de novella insensata. Pintou-se-me aquillo uma das 
minhas creações românticas n^aquelle tempo, em 
que tudo me saía d'esta laia, desalinhavado. Recor- 
ri ao meu juizo, que eu raras vezes incommodava : 
o qual, lisonjeado do apêllo, me acudiu n'este exem- 
plar interrogatório ; 



A mulher fatal 7Ç 

— Essa mulher não te pareceu doida ? Franque- 
za, Carlos ! 

— Doida !. • . Não. Pareceu-me tão innocente co- 
mo enérgica. 

— O chamar-te a sua casa sem precedente algum 
que desculpasse a estranheza do desembaraço, pa- 
receu te um acto innocente ? 

— Pareceu, pois então ? ' 

— E o grande cómico d'essa primeira scena qua- 
drou com os teus altos espiritos de boa critica e 
fino sentimento? 

— Onde está o grande cómico da primeira scena? 
pergunto. 

— Em ti que olhaste idealmente para essa mu- 
lher. Poupemol-a á irrisão, visto que tu dás suflfi- 
ciente assumpto de comedia. 

Carlos fez-se escarlate de cólera. Eu abri placi- 
damente a ultima carta do nosso amigo dos Arcos, 
e disse : 

— Não conheço somente essa senhora das tuas 
informações. O que tu me contas corrobora o que 
vem muito superficialmente apontado n'esta carta. 
O nosso amigo declara que não te opera as cata- 
ratas. Eu sou mais atrevido operador. 

Carlos leu, esforçou-se por fingir placidez e disse: 

— O que vejo aqui são palavras. Vamos a factos. 
Tu ou elle accusem Virgínia : se eu a não defender, 
seja ella infamada, e vocês venceram. 

— Eu não accuso : inquiro por em quanto o teu 
testemunho; mas, meu caro rapaz, conversemos 
com sereno desafogo. Essa senhora, á primeira vez 
que fallou comtigo, allegando que não sabia ler, 
prometteu contar-te como foi creada. 

— E contou. 



— Que conrcu? 
Que seu pae, por mctivGS muitc asgrai^r • 

mandara entregar a uma ama muitas Ifyias oi^sn- 
te, cam quem viveu até á edade das ^rarce *^^^^^*^ 
ignorando de quem era álha, areada a3mo as 
de sua ama^ sem educação de aanireza algnmai - 
— Isso é verosimiL Pedia ser asam* I>i:^c-« 
que tetra fora areada? 

— Não Ih' o pergunte:, 

— Convinha per^jctar. 

— Com que fcn ? ! 

— Com o fim de saber que vida tcre até aos Tinte 
annos ; quem era quando o páe a mancioG buscar. 

— Eira uma aldeã com a innoccnda c igoorancia 
próprias ào seu viva-. 

— As aldeãs vivem igiorarte.% concordo; mas 
innocentes nem sempre. Que me £zcs tu a esse 
administrador da fidalga ? A ftiga de D- Virgínia, 
senhora emancipada e livre, não te faz suppor que 
esse padre não é temido como empaloaador dos tí- 
tulos, senão como outra casta de patife menos di- 
gna do nosso horror ? 

— Nao entendo. 

— Então, mais claro : o padre será amante da fi- 
dalga ? Pensemos n isto, Carlos. 

— Jé expliquei sufficientemente os receios de Vir- 
gínia. Disse-te que o padre Joaquim das Neves- . - 

— O padre — quê ? — interrompi com embasba- 
cado assombro. — Toma a dizer. . - o padre ? 

— Joaquim das Neves, conheces? 

— Que edade tem esse padre ? 

— NSo sei^ Poderá ter trinta e tantos annos. 

' — Ha que tempo foi chamada D. Virgínia para 
casa do pae ? 



A mulher fatal 8i 

— Ha quatro annos. 

— Jó me disseste que essa mtilher é alta, refor- 
çada, um pouco morena, olhos negros . . . ? 

— Sim. 

— E o padre é um homem muito corpolento, cór 
amulatada, e... muito valente, me disseste, nâo é 
verdade ? 

— Justamente. 

O meu interrogatório precipitava-se á medida que 
as reminiscências me acudiam ; mas, afinal, fez-se 
tal negrura no meu espirito, que senti vontade de 
chorar. 

— Por que me fizeste essas perguntas ? — excla- 
mou Carlos alvoroçado. — Conheceste Virginia ? 

— Conheci uma mulher que não se chamava Vir- 
gínia. Vae ás Açudes e pergunta-lhe, se antes de 
ser Virginia, não foi Narcisa. Se ella disser que não, 
pergunta-lhe em que terra viveu até aos vinte an- 
nos ; se disser que sim, chama-lhe infame, e foge, e 
foge mesmo de ti, em quanto essa imagem te fizer 
lembrar que estiveste á borda d'um abysmo de op- 
probrio. 

— Eu não vou fazer similhante pergunta — repli- 
cou o pallido moço — Dize o que sabes.. . 

— De Narcisa ? 

— Sim. 

— Digo, que vou contar a historia de Virginia, 
visto que o padre Joaquim das Neves não se cris- 
mou. Olha que é historia de fazer asco a indifFe- 
rentes ! • . . Mas, se ha no mundo alguém interessa- 
do em sabel-a, és tu ! Escuta : 

Eu, ha quatro annos, estudava latim n'uma terra 
que prende Traz-os-Montes com o Minho. De lá é 
que eu trago estas recordações. 



82 A mulher fatal 

Vi ahi uma mulher chamada Narcisa, vivendo 
com um padre cliamado Joaquim das Neves. Era 
linda, teria vinte e dois annos. Impressionava sua- 
vemente a quem lhe não sabia a vida. 

O nome que lhe davam era a Vaca-loira, porque 
diziam ser filha d'outra Vaca loira, recoveira de 
Cavez. 

Esta rapariga^ quando tinha quinze annos, amou 
um estudante de clérigo, e perdeu-se. O estudante, 
que era filho d'um pequeno lavrador, deixou-a e foi 
para Braga continuar sua ordenação. Narcisa, crean- 
ca de mais para acceitar como lição o primeiro in- 
fortúnio, buscou seu remédio descendo d'uns a ou- 
tros abysmos até parar no extremo, que tem a porta 
franca aos que passam. 

Estava ella aqui no Porto, arrebanhada com as 
de sua condição, quando a visitou um padre. Este 
padre era Joaquim das Neves, áquelle tempo abba- 
de, na terra onde eu estudava. Ella reconheceu-o e 
chorou. Elle, que andava em busca da sua victima, 
apertou-a ao seio e disse-lhe : tEu vinha buscar-te, 
Narcisa. Tenho pão que repartir comtigo. E' tarde, 
mas faço o que posso. Ha trcz annos que te pro- 
curo.» 

Quando me lá contaram isto os menos inimigos 
do sacerdote, eu louvei o homem, e não vi a batina. 

Levou-a para a sua abbadia; mas, passados me- 
zes, o abbade foi expulso, e o padre foi suspenso 
das ordens como immoral e amancebado. Fôra-lhe 
melhor tel-a deixado ir ao hospital. Seria cónego, 
d' ahi a dias. 

Levantaram-lhe a suspensão, repunham-n'o' na 
abbadia sob condicional de largar a manceba. Re» 
jeitou o partido. 



A muihêr/auU BS 

O seu património era quasi phantastico. Faltava- 
Ihe o mais urgente á vida. 

Quando o conheci era grande a pobreza do padre; 
Passava os dias no monte ou no rio a caçar ou a pes- 
car* Trocou a batina por uma saia para Narcisa, é 
os breviários por umas botas para elle. Ensinava á 
ler os rapazinhos, quando recolhiam os rebanhos^ 
e recebia de cada discípulo seis vinténs por mez. 

Não sei se a Vaca-loira teve saudades do mister 
infame e farto que trocara pela miséria infamada 
em que vivia. Contava-se que não; que estava mu- 
dada, que não se confessava por não ter a quem, e 
não ia á missa porque os fieis se arredavam d'ellá 
com tregeitos de nojo. 

Na correnteza d'estas passagens, appareceu umá 
senhora e um sacerdote, ambos de avançada edade) 
na aldeia de Cavez, indagando d'uma recoveira de 
alcunha a Vaca-loira. 

Ainda vivia. 

Pediram novas de uma exposta que ella tirara da 
roda de Braga vinte e dois annos antes. A recovei- 
ra lembrou-se de ter ouvido dizer á enfermeira da 
roda que a engeitada levara signal, e fora encon- 
trada envolta ^'uma coberta de se^a muito rica. As 
novas pedidas deram-lhe rebate de que a rapariga 
era procurada por seus pães. Não contou o viver 
de Narcisa, por interesse seu. Esperava recompen- 
sa ou dos pães, ou da íilha, agradecida ao silencio 
da ama. 

E tomou a seu cargo ir demandal-a. 

Ouvi dizer que a senhora, quando viu a moça, 
exclamara : tNão posso duvidar, que é o rosto da 
minha irmã» e se abraçara n'ella com muitas la- 
grimas, e lhe revelara que era filha de uma dama 



84 A tntdker fatal 

já fallecida, e de um fidalgo moribundo que a man- 
dava procurar pelo seu vigário. 

Dizia-se mais^ que a já defunta mãe da exposta, 
sendo religiosa d'uma ordem nobre, dera á luz 
aquella menina, e a entregara á piedade de sua ir^ 
ma; a qual, não podendo occultal-a, a enviara á 
roda com um papel em que declarava o nome da 
menina, a fim de ser entregue quando outro papel 
idêntico na forma e nas palavras fosse apresentado. 
E juntava o meu padre-mestre que o fidalgo^ ana- 
valhado de remorsos no fim da vida, e solitário no 
seu sombrio palácio, chamara a irmã da freira^ e 
lhe perguntara se sua fílha poderia milagrosamente 
apparecer. E, informado da previdência da condoída 
senhora^ enviara o seu abbade a colher informações 
ha roda de Braga. 

Narcisa acompanhou sua tia, e padre Joaquim 
das Neves ficou. Pouco tempo depois, o padre des- 
appareceu, e grassou logo a nova de que a Vaca- 
loira herdara uma das maiores casas do Alto-Mi- 
tiho^ e chamara para si o padre que se morria de 
saudades d'ella. Concluindo : 

O que eu não sei dizer-te é como a Vaca-loira se 
poetisou em Viijginia; mas é fácil calcular. A egreja 
tem o sacramento da confirmação que permitte es- 
tas mudanças. 

Narcisa ou Virgima, essa mulher tinha em sua 
vida uma face apenas maculada de nódoas vulgares. 
Caíra. Os atascadeiros por onde ella passou até se 
amparar ao coração do homem que a engolfou no 
primeiro, eram nojosos; mas a caridade fechava 
olhos para não vêl-os. O que eu vi e todos viram 
foi uma mulher resignada na miséria, acceitando as 
migalhas de quem a perdera aos quinze annos. 



Á mulher Jataí 85 

Se me tu contasses a historia que ouviste, e con- 
cluísses louvando a lealdade e estima que Virginia 
consagrava ao padre Joaquim das Neves, e tivesses 
em grande conta o coração regenerado d'essa rica 
senhora, que o amor perdera, e a pobresa cancera- 
ra, e na pobresa se restaurara, ó meu amigo, tam- 
bém eu iria jurar que a luz do bom anjo da infân- 
cia de Narcisa se não tinha apagado. Também eu, 
ao passar pela meretriz de ha sete annos, me des- 
cobriria respeitoso como deante das Porcias que a 
visitariam no Porto, se ella cá viesse, e desse par- 
tida semanal. 

Desde, porém, que essa mulher, assaltada por 
um desejo honesto ou torpe, infama de ladrão o ho- 
mem que se empobreceu por amparal-a; desde que 
ella, ou apaixonada ou a sangue frio, te mentiu in- 
famissimamente e quiz cobrir-te de opprobrio, c pôr 
na tua cara a lama de sua vida ... o nome que essa 
mulher tem. . . dá-lh'o tu. 

Derivavam lagrimas copiosas nas faces de Carlos 
Pereira. O chorar é, umas vezes, allivio de angus- 
tias, as quaes são tributo de dores que honram o 
coração; outras vezes rebentam como o pús da pos- 
têma, e são também allivio. Esta saudável supura- 
ção restaura os corações sobre os quaes a Provi- 
dencia dos bons firmou o seu dedo purificador. Taes 
eram as lagrimas do moço que depozéra o beijo vir^ 
ginal de seus lábios, em que toda a alma lhe estre-^ 
mecia, na fronte de Nárcisat 



VI 



Terceiro amor 



UNS corações teem melhor carnadura que ou- 
tros. Ha d'elles que cicatrisam depressa 
golpes fundos. Outros, escoriados á super- 
fície, ulceram mortalmente ; e, se escapam, a lesão 
para toda a vida é certa. 

Carlos Pereira não era dos últimos. 

Este segundo golpe fechou sem febre. O enfermo 
não chegou a acamar. Passou uns poucos dias es- 
quivo a conversações e quasi sempre no seu quar- 
to ; depois andou por botequins e theatros, e outras 
diversões. 

Ajuizei, temerária e offensivamente, do meu ami- 
go : confesso-me escarmentado para nunca mais jul- 
gar uns pelo que sei d'outros e de mim. 

Que havia de imaginar eu, homem nado de ven- 
tre de mulher, quando, por espaço de quinze dias, 
não vi Carlos Pereira, nem pessoa que o tivesse en- 



88 A mulher fatal 

» 

centrado? Imaginei que elle estivesse alapado na 
tulha das Açudçs, lendo alguns capítulos paradoxaes 
de Manon Lescaut, ou quejando romance justifica- 
tivo das paixões ignóbeis ! Refujo d' esta involuntá- 
ria aleivosia. Pejo-me do leitor, respeitando a deli- 
cadesa dos seus sentimentos, e de mim que pude 
aflferir o coração d'este rapaz pela rasa còmmum... 
communij não digo bem. Apenas haverá ahi trezen- 
tos leitores (dos trezentos e um que hão de ler este 
livro) capazes de voltar ao palácio torreado de D. 
Virginia de Picaluga. O leitor é o um que lá não 
ia, com toda a certeza. Pois receba os parabéns da 
moral publica, e os meus. 

Inesperadamente recebi carta do meu amigo, da- 
tada em Coimbra. 

Desculpava- se de hão se ter despedido, attribuin- 
do a culpa ao estado de torvamento em que saíra 
do Porto por uma noite de horreadissimo choque. 
Explicando a retirada improvisa, disse que, chegado 
ao theatro de S. João, vira Laura n'um camarote 
da primeira ordem com o pae, e João de Campos. 
cNão pude mais encarar aquella infame! — acres- 
centava elle com desvairada injustiça. — Se eu po- 
desse medir-me com ella, mostraria aos meus conhe- 
cidos a devassa honesta para quem os homens olha- 
vam com respeito.» 

Pelos modos, o intento, em Coimbra, era subju- 
gar a sua mocidade ao estudo, e defender das illu- 
sões da alma os mais funestos annos da vida. Exem- 
plar alvitre ! 

Contei isto aos meus amigos, e riram todos. De 
quê ? Do mancebo que presumia ser melhor do que 
elles. 

Se era ! Que anjo n'aquelle homem restituiria ^ 



A mulher fatal 8g 

Deas a sociedade, se ella não fosse, em toda parte, 
o inferno dos anjos e o paraizo dos demónios, como, 
da de Pariz, dizia Henri Heine ! 

Ao fim de alguns mezes, soube-se que o brazí- 
leiro se matriculara no primeiro anno philosophico, e 
estudava assiduamente, tencionando voltar para o 
Brazil, concluida a formatura. 

Esta assiduidade, porém, desmentiu-m'a o boato 
de que o meu amigo requestava certa menina muito 
recatada, no seio de sua familia, uma das distinctas 
de Coimbra. 

D'esta feita, ri eu também. O coração do meu 
pobre amigo não podia com o vácuo de mais de trez 
mezes ! 

E quem será a terceira inquilina ? perguntava eu 
a mim mesmo, conjecturando que espécie de tercei- 
ro logro lhe pregaria o cupido piccaresco da sua 
juventude ? 

Informaram se com mais ou menos exactidão os 
seus contemporâneos. 

A menina teria dezeseis annos ; não era formosa, 
mas revelava na meiguice do rosto bonissima alma; 
também não era rica, mas podia viver decentemen- 
te com o seu dote ; não fallava nas salas por ser 
muito escassa de intelligencia, mas captivava com o 
seu modesto silencio a sympathia das pessoas gra- 
ves ; era de estirpe fidalga, mas não se dedignava 
de intender no governo da casa, e dar muito gosto 
á sua familia n'aquella sua lida e perfeição de mi- 
nistérios caseiros, ou «lances caseirissimos » como 
diz o author da Carta de Guia de Casados. 

Outros informadores menos sisudos disseram-me 
que a menina era idiota ; que creava canários e pas- 
sava o mais de sua vida a coser ovos para elles ; 



go Á mulher fatal 

que, tirante as horas de cosinhar para as aves, dor- 
mia e comia á proporção. 

Sem embargo doestas qualidades medianamente 
cobiçáveis, era voz unanime que os parentes de Es- 
tella — nome tâo mal casado com a Índole culinária 
e passarinheira d'esta senhora — a estorvavam de 
namorar Carlos Pereira, e viviam muito dissabo- 
riados da primeira inclinação de creatura tão arisca 
e desdenhosa de homens. 

Salta logo ao espirito o silencio de Carlos comi- 
go : tinha pejo de me dizer : <cá estou amando.» A 
gente como que se envergonha de amar terceira 
vez, deante das testemunhas que assistiram duas ve- 
zes aos nossos desastres, mormente se o tombo foi 
de feitio que fez rir as pessoas mais cordatas, como 
succede no cair por escorregadella, em que a gente 
se magoa burlescamente. 

No fim do anno de i85o fui a Lisboa e passei por 
Coimbra. 

Era no tempo das caléças. . . Ai ! 

Não cuide o leitor impaciente que o faço retro- 
ceder ás delicias do meu tempo, pintando ante os 
seus olhos invejosos a poesia do jornadear em ca- 
léça. Não. Releve porém a rogos de uma saudosa 
alma que eu repita a phrase que me sae do intimo 
em soluços : era no tempo das caléças ; no tempo 
em que Coimbra, a namorada do Mondego, mal 
pensava ainda que um dia as suas grutas de sincei- 
ros, — tão cheias de amor antigo, tão rumorosas dos 
murmúrios que alli fallou a mocidade de trez sé- 
culos — seriam rotas, e devoradas pelo dragão de 
ferro, que silva estridente como o demónio da ma- 
téria que triumpha. 

Era no tempo das caléças. 



A mulher Jataí gt 

Apeei em Coimbra^ dei um geito ás costellas des- 
locadas, e fui em cata de Carlos Pereira, que en* 
contrei na rua do Coruche. Quem se lembra já hoje 
da rua do Coruche? Ha doze annos que passou 
por alli o Progresso, este iconoclasta implacável 
que subverte as coisas santas da religião artística 
de antiquários e poetas. O Progresso é barrigudo : 
não cabe em ruas estreitas. Aquella, a do Coruche, 
levou-a elle deante de si ; e, como ás cavalleiras 
d'esse pujante demolidor andem os bons progres- 
sistas para darem o seu nome ás emprezas que elle 
commette, aquella rua das minhas saudades ficou- 
se chamando do Visconde ^a Lu^. 

Com que prazer eu vi, ha dois annos, o senhor 
doutor Diniz que n' aquella rua me deu lições de la- 
tim! A custo me contíve que lhe não dissesse: cO' 
meu querido professor, eu sou um dos que antiga- 
mente desceram das regiões transmontanas n'aquel- 
les machos que o progresso tirou da circulação para 
dar praça a outros maiores. Sou um dos anciãos que 
ainda viram a rua do Coruche, e imaginaram saltar 
da vossa janella para a da visinha fronteira. Per- 
tenço áquella quasi extíncta raça de homens fortes 
que patinharam nos atascadeiros da vossa rua, e 
ante-cheiraram o fedor da desorganisação geral no 
dia em que a Providencia converter em lama as 
obras do Progresso. Etc.it 

• # 

Morava pois na rua do Coruche o meu amigo 
Carlos Pereira. 
Queixei-me do immerecido silencio. Deu largas á 



§9 A fhulher faial 

sua alma, e contou-me tudo, como quem precisava 
d'um confidente. 

Amava ternissimamente a sua Estella, com um 
affecto purificante das fezes que as outras paixões 

lhe haviam sedimentado no coração, Disse-me d'ella 

> 

encarecidas finezas, audácias innocentes de amor 
virginal» arrojos emfim de creança que se atreve 
contra a tyrannia d'um avô, d'iipia avó, e tios, e ir- 
mãos ferocissimos. 

Este esboço desdizia algum tanto dos outros que 
me tinham feito. Menina assim reaccionária pare- 
cia-me não tanto idiota como se dizia, e menos ca- 
ptiva dos canários. 

Quanto a estas aves, me tapou o meu amigo a 
bocca, dizendo-me que Estella amava os passari- 
nhos, e os aquecia implumes no seio, e lhes afofa- 
va os ninhos. 

No tocante a intelligencia, disse que Estella ape- 
nas lia nas estrellas os livros dos anjos : que conhe- 
cia Deus nas suas maravilhas, e o adorava com as 
palavras do Evangelho. 

Pelo que pertencia á alma, era a formosura ideal ; 
e, no ponto de belleza plástica, sinceramente se 
gloriou de que ella tivesse uns olhos por onde se 
lhe via o mais secreto do coração, c Dizem que não 
é bonita» — ajuntou elle. — Basta que eu te diga 
que é amada. 

A traça d'esse affecto era qual devia ser de ani- 
mo tão estreme de vicios: legitimar, santificar o 
seu amor. Já a tinha pedido. Foi mal acceite, Per- 
guntaram-lhe quem era, cujo filho era, e d*onde. 
Respondeu verdade pura como cumpria. Plebeu, 
com riqueza não bastante a aplacar as iras dos avós 
de Estella, 



A mulher fatal ç3 

Á menina bandeou-se com o plebeu, e auctorí- 
sou-o a deposital-a judicialmente. 

N'este conflicto andava irriquieto o espirito de 
Carlos, quando cheguei a Coimbra; 

Exhauríu o assumpto ; e como eu me demorasse 
em alvitrar sobre tão grave matéria, Carlos, des- 
confiando do meu silencio, acudiu impacientemente : 

— Não tentes despersuadir-me !. . . 

— Pelo contrario : incito, se é preciso, a que te 
cases com essa senhora, de quem já tenho infor- 
mações eguaes ás mas nos pontos importantes^ Ca^ 
reces de repouso e de familia. Casa-te, Carlos; se- 
não, dás cabo do teu coração e do teu património:. 

Este agradável thema foi a nossa pratica d'uma 
noite. Deixei-o bem firme no propósito de requerer 
o deposito de Estella em casa d'uma respeitável se- 
nhora, cujos filhos eram condiscípulos de Carlos. 



Na minha volta de Lisboa pernoitei em Coimbra, 
em abril de i85i. Carlos convidára-me para assis- 
tir ao seu casamento. 

Vi Estella no adro da egreja, ao alvòrejar da ma- 
nhã. 

Vestia um modesto vestido de seda, e agasalha- 
va-se em uma capa de martas. 

Nem coroas, nem brilhantes. Pareceu-me bem 
esta simplicidade. 

Entraram com ella duas senhoras idosas, embru- 
lhadas nas suas capas de panno. O padrinho era 
um velho professor de direito; as testemunhas eram 
dois condiscipulos do noivo e eu. 



g4 Aimãhêrfaiai 

Carlos tremia de felicidade. A muita alegria pre- 
judicava-Ihe o tom serio que o acto reclamava. 

-^Que te parece Estella? não é um anjo? — per- 
guntou-me elle,* um momento antes de ajoelhar rio 
arco da egreja para commungar. 

-*-Se te sentes anjo, ella hade sêl-o — respondi* 

— Já é — insistiu elle infantilmente. 

— Eu respondi-te como quem faz um discurso 
exhortatorio ao moço que se casa — repliquei. 

Concluida a ceremonia, fui apresentado á esposa 
do meu amigo. 

Dei-lhe os emboras um tanto ambiciosos e esto- 
fados de palavras e idéas em demasia lítterarias. 

Estella inclinou trez vezes a cabeça em signal de 
reconhecimento, e não respondeu. 

Este silencio provava favoravelmente. 

Acompanhei os noivos a casa do doutor, onde 
almocei. 

Durante o repasto, Estella entrou escassamente 
em conversação monossylabica e só com as senho- 
ras. O marido perguntou-lhe não sei que innocente 
frioleira acerca do frio da madrugada. A esposa 
sorriu-se e purpurejou-se. 

Findo o almoço, acompanhámos os noivos a sua 
casa nos arrabaldes da cidade. 

As aves festejavam a passagem da sua amiga. Ao 
atravessarmos o Jardim Botânico, ouvi-lhe dizer com 
maviosa saudade: 

— E os meus canários ! . . . coitadinhos ! . . . 
Fez-me isto muita pena. 

Quando chegámos á casa campestre, recebi uma 
impressão asperamente melancólica. 

O edifício tinha sido hospicio de frades pobres. 
Era de um só andar, com umpateo central, ou claus- 



A tHuiher fatal j^ 

tra 9 áquelle tempo ajardinada com pouco artificio e 
esmero. O muro da pequena cerca tecia se de sebe 
de piteiras, arbustos áridos e tristes, em que li en- 
talhadas algumas iniciaes e datas. Eu nunca vejo 
estas memorias, talvez abertas alegremente, que não 
fique a scismar na mão que as abriu, já agora con- 
vulsa de velhice ou esbrugada dos vermes. Um nome 
de mulher escurenta-me ainda mais o coração, se 
dez ou vinte annos enrugaram o córtix entalhado. 
Se ella era então un^i anjo, quantas angustias lhe 
desplumariam as azas? Se formosa, conhecel-a-ia 
hoje ao pé da arvore, que lhe guarda a memoria, o 
homem amantíssimo que estas letras cortou? Se elle 
aqui viesse, e n'estas iniciaes e data se reconheces- 
se e recordasse, que lagrimas a fio lhe não enche- 
riam os vincos do rosto ! 

Se isto foi, se alguma intuição mysteriosa, não sei. 
Certa sei eu que era a tristesa que me fez aquella 
casa, sem eu poder a mim mesmo convencer-me 
de que era bello o local ao parecer de todos, e prin- 
cipalmente dos noivos. 

Os do pequeno rancho voltamos logo para Coim- 
bra. Observei que ninguém na ida nem na vinda, 
sequer, apparentou alegria! O doutor retirava-sç 
reconcentrado ; as duas senhoras trocavam raras pa- 
lavras ; os dois moços, filhos de uma d'ellas, impres- 
sionaram-me em dobro, attenta a sua edade, por 
via de regra, jovial e boa agoureira ^de casamentos 
em condições de mutuo amor, provado por sacrifi- 
cios de ambos. 

Abeirei-me do doutor, e disse-lhe intencional- 
mente : 

— Figura-se-me que deixamos no seu paraizo dois 
esposos muito felizes . . . 



g6 A mulher fatal 

— Estou por isso —annuiu o velho — mas pouco 
lhes hade durar o contentamento. 

— Por que, senhor doutor?! — repliquei, paran* 
do, dolorosamente admirado. 

— Pois não viu Estella ? 

— Vi. 

— E não reparou n'aquellas faces? Está tisica; 
morre como cinco irmãs que teve. 

— E Carlos sabe? 

—^Quando se manifestou o primeiro symptoma 
já ella estava em deposito. N'estas circumstancias> 
o aviso seria atormental-o inutilmente. O pobre 
moço ignora que lhe ha de morrer a mulher antes 
que volte outra primavera a desabrochar as flores 
da claustra. 

— Que infeliz rapaz ! — murmurei transido de 
compaixão recordando os lances d'aquella vida no 
espaço d'um anno. — E ella conhece o seu esta- 
do?' 

— Onde viu o senhor um tísico assustado da 
morte ? . . . Quando lançou os primeiros golfos de 
sangue, lembrou-se de cinco irmãs que assim ti- 
nham começado os longos paroxysmos. Chorou; 
mas, ao outro dia, sentiu-se tão aliviada que attri- 
buiu á hemoptise a cura de pequenas queixas que 
a molestavam, e rogou a essas senhoras o maior 
segredo para evitar sustos a Carlos. E eu recom- 
mendo ao senhor toda a prudência. Antecipar do- 
res, preparando um amigo para as que irremedia- 
velmente hão de vir, é amisade funesta... Deixe- 
mol-os com a sua ephemera alegria, que é, pouco 
mais ou menos, a duração de todas as alegrias. E 
muitos que hoje se sentem cheios de vida e fiados 
nos sorrisos da fortuna morrerão primeiro do que 



 mutkef fatal P7 

festella, ou serão desgraçados mais cedo do que o 
pobre Carlos. 

♦ * 

Fui jantar com os noivos no dia seguinte. 

Entrevi-os emboscados nos olivedos visinhos da 
casa. A face de Estella, reclinada para o peito do 
esposo, certo lhe ouvia pulsar o alvoroçado cora- 
ção. Caminhavam muito de passo, e pareciam-me 
silenciosos. Tanto que me avistaram, ella alçou a 
cabeça da languida e mimosa postura; e elle, como 
encantado d'aquelle tão gentil movimento de pudor, 
aconchegou-a mais de si, retraindo o braço. 

Estella, durante o jantar, disse menos palavras 
que as necessárias para se formar conceito do seu 
espirito. Eu, todavia, não a desairo, nem desciu*o a 
Urbanidade da critica, suppondo que esta dama, 
sendo dotada de excellentissimos predicados, dis- 
pensava-se de grande entendimento, o somenos de 
todos os dons feminis, e muitas vezes o empestador 
dos outros. 

No que respeita a formosura, com mais espaça- 
do exame, assenti á opinião dos que a não admira- 
vam. Em extremo alva, mas sem vida nas feições 
medianamente regulares; um quebrado de cores, e 
languidez de vista; mas denotando sangue pobre, 
aiiemia e desfalecimento. Se o carmim das faces era 
bellesa, mais para o céo que para nós a estava afor- 
tliosentando a morte. 

E que dor me fazia o contentamento de Carlos ! 
Como elle talhava, largo e longo, pelo futuro den- 
tro, ridentes planos ! 

— Levas por deante a formatura em filosofia ? — 

perguntei. 

7 



I 



gí A mulher faial 

— Não. Ha quatro mezes que não vou á aula, 
nem abri os compêndios. Não quero formaturas, 
nem sciencia, nem livros ; quero o que tenho: a fe- 
licidade suprema. O meu património está bastante 
desfalcado. Não se restauram patrimónios a estu* 
dar: extinguem-se. E concluída uma formatura em 
Portugal, quem a comprou com o seu trabalho e 
todo o seu haver, sente-se apenas habilitado para 
ir mendigar um ofScio de quatro libras mensaes ás 
portas das secretarias. 

— Mas também se extinguem os patrimónios sem 
estudar. . . — objectei eu. 

— Excepto quando se trabalha. 

— Trabalhar ! tu ? em que ? 

— Onde meu pae trabalhou: no commercio. 

— Ah ! no commercio ! que sabes tu d'isso, meu 
visionário ? 

— O que meu pae sabia : as quatro operações 
arithmeticas, e outras que jmeu pae decerto igno- 
rava. 

— Vaes portanto abrir uma loja. . . de quê? 

— Uma taverna, suppõe. 

— Apoiado! Vaes aquartilhar o espirito que mais 
reluz na cara da Minerva moderna. (*) Conheceste, 
como J. Jacques Rousseau, os costumes do teu tem^ 
po, e fazes-te taverneiro . . . 

— Verás que não gracejo — volveu Carlos. — Vou 
ser commerciante; mas não sei de que espécie . . . 

— De especiarias que é a espécie mais vendavel 
— prosegui mettendo a riso a traça mercantil que 



{*) N*esta época a vinolencia, entre os académicos, era dis- 
tincçâo invejável. Quem bebesse por alguidar e digerisse em 
pé o seu vinho, attingia o acume da celebridade* 



A mulher fatal gg 

também me parecia espécie de disparate novo. Elle, 
porém, proseguiu gravemente : 

— Vou com a minha Estella para o Rio de Janei- 
ro, logo que ella tenha recebido o seu património 
que regula pelo meu. Tenho lá tios maternos nego- 
ciantes não sei de quê. Se me admittirem como só- 
cio na proporção do meu capital, serei sócio; se 
não, serei guarda-livros, não podendo estabelecer- 
me com os fundos que levo. 

— Tens, portanto, cobiça de riqueza? 

— Não. Tenho vontade de trabalhar para os meus 
filhos. Quero imitar meu pae. 

— E' louvável o propósito; mas duvido que per- 
sistas. Teu pae não morreu rico, segundo infiro do 
teu património. 

— Tinha vinte contos quando morreu, porque os 
governos de Portugal, aos quaes elle confiara a 
maior parte da sua «fortuna», roubaram-lh'a, e de- 
ram- lhe um masso de papeis que se chamam títu- 
los de diflferentes cores. Eu devia ter cem contos, 
se Portugal não fosse uma cafraria. 

— O resultado da ambição desmedida. Esse de- 
sastre foi uma lição que teu pae te deixou. Se elle 
se contentasse com cem contos, e não negociasse 
com os cafres portuguezes, esperançado em dobrar 
o teu património, eras tu rico hoje. E serias mais 
feliz ? 

— Não. 

— Cem contos compram muitíssimos gosos com 
muitíssimas feses de tristeza, de doença, de remorso 
próprio e de alheias lagrimas, 

O meu amigo riu-se da gravidade sentenciosa 
d'este dizer, e remoqueou-me d'este feitío : 

— Ninguém devia ter saúde, alegria c socego de 



100 A mulher fatal 

alma como tu! Ninguém dirá que participas. dos 
achaques e tristesas dos cem contos ! 

— Esse argumento denuncia que a lógica no col- 
legio da Formiga é uma arte por meio da qual se 
aprende a não raciocinar. Tenho vinte e cinco an- 
nos, e já desbaratei um pequeno património. Vês- 
me triste e doente? E* isso verdade. Se houvesse 
herdado cem contos, meu amigo, ver-me-ias de 
certo mais doente e mais triste. 

— Pôde ser; mas cem contos concedem ás vezes 
que um homem se não ache muito mal de saúde e 
satisfação. A mim convinha-me possuil-os, para 
comprar um titulo de marqueza para Estella — 
continuou Carlos, na ausência da esposa. 

—Agora vejo que é legitima a tua ambição, meu 
amigo. Queres ser marquez ... 

— Somente para o fim de alegrar seis avós pinta- 
das de minha mulher, as quaes, no dizer de uma 
sétima que ainda está no original, amarelleceram na 
lona quando o juiz foi buscar Estella. 

Esta jovial palestra não desfez a nuvem de- me- 
lancolia que os ditos facetos de Carlos condensa- 
vam mais. 

— O clima brasileiro será bom á débil complei- 
ção de tua senhora ? — perguntei, impondo-me toda 
a prudência recommendada superfluamente pelo 
doutor. 

— Estella é débil; mas tem perfeita saúde — ^res- 
pondeu Carlos; mas não sei que spasmo de susto 
lhe vi nos olhos, ou a minha prevenção m'o figura- 
va. — Ouviste dizer que ella padecia do peito ? ! 

— Não — acudi logo com o mais sincero desas- 
sombro da mentira. 

— A mim disse-me alguém que ella sofiFria d'um 



A mulher fatal loi 

pulmão. E' falso. Estella nunca teve o minímo in- 
commodo de peito. Asseverou-m'o ella. 

— Muito bem; mas perguntava eu se lhe conviria 
o clima quente do Rio de Janeiro. 

— Convéem ás pessoas fracas os climas quentes. 
Mais uma rasão para que eu vá. Talvez ouvisses 
dizer que cinco irmãs de Estella morreram tísi- 
cas . . . Também meus irmãos morreram tísicos ; e 
eu, como vês, tenho perfeita saúde e uma forte con- 
stituição, não é verdade? 

— E' verdade. Ha muitos exemplos d'essas ex- 
cepções. 

Alguns minutos permanecemos silenciosos. Car- 
los escutava como receioso de que a esposa o ou* 
visse. Em seguida, travou-me do braço com vehç' 
meneia, e levou-me para o balcão de uma janella^ 
onde me disse abafando o som da voz : 

— E se ella estivesse já ferida da invencivel doen^ 
ça ! . . . Se me ella morresse agora ! . . . 

— Não penses em tal, Carlos!— atalhei eu for» 
çando palavras de alento. — Que receias, se ella 
está bem e diz que nunca padeceu ? ! 

— Receio a minha funesta sorte! Receio que, de- 
pois de dois annos de infernaes soffrimentos, este 
anjo descesse a enxugar-me as lagrimas, e me fuja 
com a minha felicidade. Não me falta mais nada!.., 
Resta-me vêl-a morrer!. , . 

— Jesus! que phantasia! — exclamei.— Onde vaes 
buscar esses imaginários terrores, homem ! 

— Onde vou? Pois imaginas que eu me illudi um 
instante desde que soube da morte das outras ?. . . 
Não vês que forcejo por afastar de mim o presen- 
timento de que a vida da minha Estella hade ser 
curta, e que hcide ficar n'este mundo, sósinho, a 



ro2 A mulher fatal 

choral-a . . . ? Quando me perguntaste se o clima do 
Brazil lhe seria bom, não me viste estremecer? Re- 
paraste hontem n'aquellas duas senhoras que esti- 
veram sempre tristes, e no doutor que se ficara a 
olhar para Estella com ura ar de piedade... Não 
reparaste ! 

— Não! 

— E tu por que estavas triste ? 

— Eu não estava triste, Carlos... O meu si- 
lencio era respeito ás pessoas que te acompanha- 
ram. Bem vês que eu não havia de gracejar em pre- 
sença de três velhos que assistiam a um noivado 
com o aspecto funeral de quem encommenda um 
defunto em trintanario cerrado. Hoje, porém, vinha 
eu com óptimas disposições para folgar, e contava 
com a tua alegria. . • 

— Alegre estou eu! redarguiu Carlos dissimulando 
e abrindo um falso riso. — Mas que queres? O ha- 
bito do infortúnio parece que atrophia. Imaginemos 
que alumiar-se o ar foi uma traição á minha crença 
para que me animasse a tentar a fortuna; c quando 
cuido que cu a verei, vae estalar algum novo raio 
da fatalidade. . . 

Estella appareceu muito alegre, participando ao 
esposo que sua avó lhe mandara os canários ; e vol- 
tou logo de corrida a dizer palavras muito cariciá- 
veis ás avesinhas que nós ouvíamos gralhear. 



vn 



Terceiro golpe 



ISTO passou em abril. 
D'ahi até agosto recebi assíduas noticias de 
Carlos. " 

Os receios eram desvanecidos, conforme suas 
cartas insinuavam. 

No próximo outubro gizava elle sair para a sua 
pátria — resolução que os tios approvaram com 
vantajosas promessas. Pedia-me que o fosse abraçar 
antes da partida, se eu era amigo á prova de quinze 
léguas de distancia. 

No meado de setembro voltei a Coimbra, não ten- 
do recebido carta nos últimos quinze dias. 

Achei Carlos desfigurado, quando me abriu os 
braços. 

— Que ha!? que tens!? — murmurei eu trespassa- 
do de glacial certeza do vaticinio feito pelo doutor. 

— Não tive coragem para te escrever — balbuciou 
o marido de Estella. 



104 ^ mulher Jataí 

— Tua senhora' está doente ? 

— Há quinze dias . . . Está perdídia ! . ,• Morre ! . . . 

— Pois tão depressa!... Não desanimes, Car- 
los ! . . . Ainda ha quinze dias me dizias que estava 
óptima .... 

— E estava... parecia^ estar... Constipou-se, 
tossiu uma noite, leVantou-se curvada com dores 
de peito. Chamou-se o medico; Auscultou-a, e dis- 
se me que a examinara antes de casar e j^á íhe sen*- 
tira os tubérculos. Está morta ! Estèlla morre infel- 
livelmente ! 

E remessou-se-me nos braços afogado por soluços.. 

— Olha que ás vezes o pulmão hepatisa-s€ e os 
tubérculos estacionam . . . Não desesperesy^ Car- 
los !.. . 

— O' meu amigo ! — exclamou elle. — Não me áei- 
xes. . . não me deixes, que eu estou sósinho d'aqui 
a dias. . • Estão com ella duas senhoras, suas tias 
que me fitam com rancor, e dizem que sua sobri- 
nha morre de saudades da família, e dos innocen- 
tes prazeres da mocidade que eu lhe destrui! Vê 
tu que vida a minha entre o anjo que me olha com 
piedosa magua, e estas duas mulheres que cospem 
affrontas nas minhas lagrimas ! Já a quizeram levar 
para casa, tirar-m'a, como quem arranca os restos 
de uma victima ao seu verdugo. Eu olhei para Es- 
tèlla, que me via chorar, e murmurava : «Não vou.» 
Do fundo silencioso da minha alma lhe peço per- 
dão, se o tirai- a da sua quieta e alegre infância lhe 
apressou a morte ; mas o medico me diz que ella, 
desde os doze annos deu signaes de seguir as ir- 
mãs. Ella mesma me confessou que pedira ás pes- 
soas, que a viam padecer, o maior segredo para 
mim. , . 



A mulher fatal io5 

Em quanto o affligidissimo moço alternava solu- 
ços e palavras, a mim me pungia o egoista pezar 
de me ver em lance tão constemador. 

Não me deixes! — clamara elle. 

Não o deixar seria assistir a duas agonias, uma 
consolada emfim pela morte ; outra prgtraida pelo 
supplicío da saudade. 

A' doce creatura diria eu : «vae, alma sem man- 
cha ; lá tens a pátria ! » e elle fecharia os olhos 
quando, já embaciados, não espelhassem a imagem 
do esposo, mas se Estellam'as não ensinasse lá do 
céo, que consolações poderia eu dar ao meu infeliz 
amigo ! ? 

Entrei no quarto da enferma. Brilhavam-lhe ex- 
traordinariamente os olhos, efiFeito da lucidez das 
conjunctivas ; as outras feições eram cadavéricas. 

Os circulos roxos que lhe cingiam as orbitas pare- 
ciam o apodrecer da carne em contacto com a tam- 
pa húmida do caixão. A tosse cavernosa e rouca 
engorgitava-lhe as cordoveias do pescoço. A mão- 
que ella levava ao seio esquerdo, nos ímpetos da 
tosse, mostrava as phalanges apenas cobertas de epi- 
derme amarellecida. 

Respondeu-me custosamente ás frívolas pergun- 
tas e murmurou, sorrindo-me : 

— Não deixe estar sósinho o meu Carlos, não? 

N*este lance, Carlos ajoelhou á beira do leito, e 
poz as mãos, e, voltado para ella, exclamou : 

— Tu não morres, não, minha filha? 

— Não morro. . . não heide morrer. . . — balbu- 
ciou Estella agitando-se em grande afflicção, pos- 
tos os olhos n'uma imagem da Virgem Mãe de Je- 
sus Christo. 

— Pede-lhe, — proseguiu elle anciado — pede á 



io6 A mulher fatal 

Virgem Maria que te deixe viver para o teu des- 
graçado Carlos ! 

— Peço, peço... — e, forcejando por sentar-se, 
orava : — Senhora da Conceição, deixae me viver! . . . 

Abafado pelas lagrimas, saí do quarto. 
Quando passava na antecâmara pouco alumiada, -4 

ouvi resmunear : 

— Dão cabo d'ella mais depressa. . . 

Reparei e vi duas velhas mal encaradas, que não 
corresponderam ao meu cumprimento. 
Eram as tias d*Estella. 



Durante a noite d*este dia a respiração ressonante 
da enferma, applacou-se com grandes allivios. Pro- 
vavelmente as excavações tuberculosas, inteira- 
mente vasias, explicavam a desoppressão de Es- 
tella. Se outras irrupções secundarias não tivessem 
sobrevindo, a cura dos primeiros tubérculos seria 
possivel, e, por conseguinte, realisavel a restaura- 
ção da doente, que os médicos consideravam per- 
dida. 

Como quer que fosse, as melhoras progrediram 
notavelmente. As dores de peito eram quasi insen- 
siveis, e a respiração, apesar de cavernosa, fazia se 
completa, sem anciãs nem esforço. 

O medico, bem que incrédulo na duração das 
melhoras, citou casos análogos da sua clinica, a 
comprovar a possibilidade da cura de Estella, e cx- 
plicou-nos technicamente o amollecimento dos tubér- 
culos, e a cicatrísação consequente, dando como 



A mulher fatal tay 

provável a salvação da doente, se outros se não es- 
^' tivessem ulcerando. 

Estella e Carlos agradeciam o milagre á Virgem 
supplicada em tamanha afflicção. Eu que sei o que 
é pedir a Deus a vida das pessoas por quem vivo, 
^ olhava com amoroso respeito para a imagem onde 

ôs olhos de Estella exalçavam os rogos silenciosos 
do coração. 

Ao cabo de quinze dias, a doente, recobrada de 
forças, quiz erguer-se. 

O sol de outubro, aquecendo o ar como nos me- 
lhores dias de agosto, entrava convidativo no quarto 
de Estella. Anímamo-nos a transportal-a para junto 
de uma vidraça de sacada que abria sobre o claus* 
tro, onde verdejavam as acácias, e erveciam os can 
tciros descultivados. 

Pediu Estella as gaiolas dos seus canários, que 
eram muitos, e alli se ficou a sorrir e a chamar ca- 
da avesinha por seu nome. 

AlH ficou, e nós saímos a colher verdura para 
os canários. 

— Creio que está salva! — exclamava Carlos com 
expansivo jubilo. — Como explicas isto ? 

— Eu!. . . Não ouviste a explicação do medico? 

— Ouvi. O medico ! . . . que importa o medico ? Se 
Estella está tisica, ou Deus m'a salva, ou morre. 

— Pois certo é que tudo se passa sob influencia 
providencial ; mas scientificamente a cura da tua se- 
nhora está explicada. Inutilisou-se-lhe parte do pul- 
mão, e salvou se o bastante para viver. Seja como 
fôr, está melhor, tem outro aspecto, não sofifre, está 
em convalescença^ 



io8 A mulher fatal 



Voltei para o Porto, convencido pelo menos, de 
que Estella viveria alguns annos. 

Três semanas depois fui para Vianna do Gastello 
contar os infortúnios de Carlos ao nosso commum" 
amigo José Barbosa e Silva. Demorei-me quinze 
dias ; e, no acto de sahir para o Porto, li n'um jor- 
nal portuense uma noticia transcripta d'outro de 
Coimbra. Era a morte de Estella, súbita, inespera- 
da, quando a sciencia a julgava salva de uma tísi- 
ca, admiravelmente e, quasi por milagre, atalhada 
;n'um já muito adiantado progresso. Do marido af- 
ílictissimo dizia a gazeta que não havia novas, des- 
de que poderá furtar-se á vigilância dos amigos. Re- 
ceiava-se algum desatino, que Deus lhe perdoaria, 
se por desgraça as suspeitas de suicidio se rea- 
lisassem. 

Quando cheguei á minha pousada do Porto, saiu- 
me na escada a dona do hotel dizendo que no meu 
quarto estava um senhor havia dois dias á minha es- 
pera. Que não tinha comido ainda, nem se deitara, 
que passeava sempre, e ás vezes rompia n'um cho- 
ro que cortava o coração. 

Era fácil adivinhar as delicias que me esperavam 
no meu quarto. 

Entrei convulso. 

Achei-o de joelhos no pavimento com os braços 
estendidos sobre a cama e o rosto entre elles. 

Curvei-me para o levantar. Ergueu-se, fixou -me 
espavorido, e exclamou com uma rouquidão angus- 
tiosa de que me não parecia capaz a voz humana ; 

r— Morreu ! Estella morreu ! . . . 



A mulher faia! log 

Devia ser-Ihe consoladora a minha resposta: 
eram lagrimas. 

A mim me tem acontecido centenares de vezes 
remessar com enfado livros muito esmeradamente 
escriptos, tão depressa me elles apertam o coração 
e fazem dores de que não careço para saber que 
as ha terríveis em peito de homem. Romances moder- 
nos principalmente, acaso toparia um que me não 
fizesse chorar mais lagrimas das que eu poderia 
enxugar com os dois ou trez francos que me elle 
custou. Fallo dos francezes ; que os de indole sin- 
ceramente portugueza (peço que me não excluam) 
apenas fazem chorar os editores ; e, se não fazem 
rir toda a gente, é porque toda a gente não com- 
pra novellas portuguezas, Hinc illce lacrimce: d'aqui 
o prantear do livreiro. 

Repulso romances que me percutem na alma e a 
molestam. Como creio tudo que é máo, todas as 
angustias humanas se me figuram, não só verosi- 
meis, senão realisadas. Todas as noites do espirito 
entendo, porque ha sido sempre negra a minha 
atmosphera. 

Quantos mal-sorteados assim? Quantos compra- 
ram este livro para aligeirar duas horas entre as 
muitas que se lhe arrastam carregadas de inquietos 
cuidados, de afflictivos receios, de cruciantissimas 
saudades ? Ir muito de animo frio pungir a sensibi- 
lidade alheia com uns quadros de tristezas vulgares, 
nem moralmente úteis, nem artisticamente medio- 
cres, é sobre ingratidão, malfeitoria. Para pesar e 
arrependimento sobram-me espinhos na minha vida 
passada de escriptor lúgubre. 

Accuso-me de ter feito chorar com a minha phan- 



tjo A mulher faial 

tasia muitas pessoas incapazes de verter uma lagri- 
ma balsâmica sobre uma chaga dcmiseria verdadei- 
ra ; e convenço-me, para mais dura penitencia, que 
dos meus livros plangentes não promanou bem- fazer 
algum aos consortes de muitos desgraçados a favor 
de quem movi a publica piedade. 

E, além d*isso, não esconde a minha vaidade um 
facto digno de louvor : e é que muitos leitores sisu- 
dos fizeram aos meus romances o arremesso que 
eu tenho feito a outros mais dignos de consideração. 
O máo livro não é somente o que é sandeu, o que 
parvoeja na idéa ou na forma, o que se ennevôa 
nas regiões solares do Apocalipse, ou se abaixa até 
encrustar-se no lodo que por ahi se vende em oita- 
vo. Máo livro é o que nos incommoda, o que nos 
entristece, o que nos tira de um socegado descuido 
de desgraças para nos levar a hospitaes de sangue, 
ou nos exacerba as nossas, rasgando-nos mais por 
largo o horisonte das calamidades que ainda nos 
.falta experimentar. 

Descrevei o lance de uma esposa estremecida que 
se estorce, no arrancar da vida, em braços de seu 
marido, e vendei esse livro ao esposo que vê es- 
maiarem-se, dia por dia, as faces de sua mulher. 

A um homem d'alma que tem seu filhinho doen- 
te dae-lhe a pintura de uma creança que «arrefeceu 
morta debaixo das lagrimas ardentes de seu pae. 
Dae semelhante quadro á mãe saudosa que ajoe^ 
Ihou ao pé d'esse berço, e vos comprou o livro para, 
alguns instantes, alargar da garganta o nó que a 
prende á sepultura do anjo. Amaldiçoar-voshão. 

São esses uns infernos que a imaginação capri- 
chosamente inflamma, já combinando cores, já re- 
dondando ou recortando períodos ; agora recorda o 



A mulher fatal iit 

grito escutado tfum lance verdadeiro, logo a inter- 
jeição afflicta, alli o tregeitar atribulado ... Ai ! e 
com que frieza de pulso, e desvanecimento de ar- 
tista, se está narcisando o escriptor n'esse estanque 
de lagrimas! 

Embargou me esta saudável reprovação quando 
ia bosquejar o traslado que me fez Carlos Pereira 
da morte de Estella. Não o saberia fazer, se me 
tentasse a presumpção de bem desenhar as feições 
convulsas e retraidas de uma mulher tísica, despe- 
daçada a um tempo pela morte e pela saudade do 
esposo. 

Concluída a exposição do lance de Estella,. dese- 
jei que a morte se amerceasse de Carlos. Já me 
era consolativo ouvil-o dizer em nove noites suc- 
cessivas de delirio: 

— Estella, eu vou, eu vou também ! Não vás sem 
mim, filha da minha alma ! 



t 

I 

I 



VIII 




Quarto amer 

Ão foi. 

iMorre quem Deus quer» é um m- 
foHo de philosophia esta sentença al- 
dean. 

tCusta muito a morrer» dizia-me a honrada viu- 
va d'um naufragado. Tinha razão : agonisára três 
annos ! Três annos a contemplar um retrato fron- 
teiro do espaldar do seu leito nupcial. Contemplou-o, 
até que os olhos se lhe fecharam. 

Sei de alguns que morreram de saudade com mais 
ligeiros paroxysmos: foram menos infelizes. Ha uns, 
porém, mais felizes de todos : sâo os que esquecem. 
E Carlos Pereira, decorrido um anno, esqueceu-se. 
Quando o encontrei no Marrare do Chiado em 
i833, inclinado sobre uma puncheira que flamme- 
java, ladeado de dois Saint-Preux do feitio que elles 
teem em Lisboa, observei-o de longe ao clarão azu- 
lado da chamma alcoólica, contristeí-me, e saí. 

8 



ii4 A mulher fatal 

Estella, precisando d'uma alma que a lembrasse^ 
espelhou-se na minha. Vi-a toda aquella noite a 
sorrir para os canários que lhe volitavam aos mir- 
rados dedos com as azas palpitantes. Vi-a, segundo 
a fúnebre pintura que me fizera Carlos de seu tres- 
passe. Lembrava-me ter-lhe ella dito nas derradei- ! 
ras vascas : cNunca esqueças a tua Estella, que eu 
vou rogar por ti a Deus U 

E, se rogou, obteve para elle a enorme fortuna do 
esquecimento. 

Passava eu, no outro dia, na Rua Nova do Carmo, 
e ouvi o meu nome. Puz a vista n'um primeiro an- 
dar, e vi Carlos. 

Era um hotel francez a casa onde entrei. 

— Já vieste do Brazil ou nunca lá foste ? — per- 
guntei. 

— Fui e vim. Ha oito mezes que nos despedi- 
mos • • . 

— Estás óptimo ... 

— Não. Saí do Rio por causa de incommodos do 
peito. Meus tios, excellentes velhos, viram-me partir 
com grande pesar. Melhoraram a minha «fortuna» 
e promettem auxiliar-me em qualquer empreza a 
que não baste o meu capital. 

— Muito bem. Ficas em Lisboa? 

— Alguns dias. Espero entrar n'estas emprezas • 
de viação publica como empreiteiro. E' negocio de 
cincoenta por cem. Eu te vou contar. 

— Não me contes negocio, que eu não percebo 
nada d'isso, meu caro amigo. Então para onde vaes 
d' aqui ? 

— Penso em fixar a minha residência no ponto 
mais convisinho dos trabalhos de viação logo que 
principiem. 



A mulher fatcd iiS 

— Estás portanto um fura-vidas como se quer! . . . 

— E tu que fazes ? 

— Estudo. 

— O quê? 

— O coração humano, quando não como coração 
de boi e d'outras alimárias. 

— Desperdiças o tempo quanto á primeira parte 
do teu officio. O coração humano é insondável — 
disse axiomaticamente o viuvo de Estella. 

— Já sabia. Insondável e irrespirável como uma 
sentina. O teu está bom ? 

— Negro, árido e frio como o mármore negro de 
um tumulo. 

— Isso é triste. 

— Não digas a zombar, que é. Morri ; crê meu 
amigo, morri ! 

— Resta-te, portanto, de vida a necessária para 
íiscalisar as empreitadas da viação publica! . . . Tens 
tu bom estômago? Supportas ainda bebidas de 
guerra ! Bebes o teu punch queimado como qual- 
quer official de marinha russa. 

— Bebo, bebo tudo que me possa desfibrar as 
entranhas. 

— Máo é : melhor te seria seguir os preceitos de 
uma boa hygiene. Quando mais tarde te resuscitar 
o coração, morrer-te-ha o estômago. 

— Tens ferido o melhor que podes a minha al- 
ma ! — disse Carlos com apparencia de dolorosa se- 
riedade. — Essas ironias são penetrantes ; mas não 
podem irritar-me contra ti, que já foste o meu am- 
parador em grandes angustias. Se queres fallar do 
passado, falia. Não me farás já chorar ; mas des- 
fecha as tuas mais ervadas injurias contra orim. 

— Deus me livre!. . . Se me lembrasses o passa- 



im6 a mulher fatal 

doy ver-me-ias sair. Consinto, porém, que me fal- 
les em Laura e Virginia. N'essas sim. Scenas da 
farça humana quantas quizeres. Historias que tre- 
sandem ao odor enjoativo de sepulturas, nem uma. 
E adeus, que tenho que fazer. Amanhã vou para o 
Porto. Lá me tens ás tuas ordens. 

Saí desestimando este homem, quasi aborrecen- 
do o, quasi despresando-o. 

Que soez ingenuidade a minha n'aqiielle tempo ! 
Que tarde amanheceu em meu espirito luz de en- 
tendimento, de juizo e de critica ! Como eu phanta- 
siava que devia encontrar o viuvo de Estella tra- 
jando perpetuo luto, faces cavadas, olhos cegos de 
chorar, cabellos brancos, e a voz cortada de soluços! 



E, por espaço de quatro annos, não vi Carlos. 
Lembrei-me d'elle algumas vezes ainda assim. 

Uma, quando João de Campos, o Fausto do Por- 
to, roto á força de velhice o pacto que fizera com 
Satan, se viu aos quarenta e cinco annos encanecido, 
corcovado, valetudinário, surdo, tremulo, e espanta- 
do de si mesmo. N'esta situação, quando o seu anjo da 
guarda lhe aconselhava renuncia, conformidade e 
penitencia, o amante de Laura, rebelde á graça tão 
fácil de coar a peitos maduros e já sorvados, re- 
mordido pela áspide do ciúme, deu pulos de ener- 
gúmeno. Para a certeza de ser traído faltava-lhe 
apenas ir, no calado da noite, áquella travessa onde 
Carlos tremeu sesões infernaes, e d'alli espreitar 
pela aresta do cunhal. Foi e viu. Se a graça o alu- 
miou então, ditosa escada que guindava uma alm£^ 



A mulher fatal uy 

á gloria dos pacientes, ao mesmo tempo que içava 
um corpo á janella de Laura. Recolhido ao seu 
quarto, o penitente, poucos dias depois, expirava 
nos braços do seu lacaio. Aquelle homem não ti- 
nha esposa, nem filhos, nem amor algum dos que 
dulcificam o trago da morte. Assim morrem os 
«leões». A' ultima hora acham-se sós, no seu de- 
serto, na Hircania que elles fizeram á volta de si, 
espedaçando ferozmente os corações que se lhes 
offereceram para os serenos contentamentos da ve- 
lhice. Quando, pois, o acompanhei ao cemitério, 
lembrei-me do ideal amador de Laura. 

Outra vez me lembrei de Carlos Pereira, quando 
li nos periódicos que uma fidalga do Minho, morga- 
da das Açudes, se fora a Roma em peregrinação 
com um padre seu familiar, a impetrarem do sum- 
mo pontifice dispensa para se ajoujarem matrimo- 
nialmente. O caso de Narcisa, de alcunha a Va- 
ca-loira, é sem duvida mais moralmente consolati- 
vo que o outro de Laura dos Carvalhaes. 

Ao fim de quatro annos, alguém me disse que 
vira Carlos Pereira no theatro de S. João, com sua 
senhora e um filho ; e, como quer que fosse ao ca- 
marote cumprimentar o seu contemporâneo de Coim- 
bra, elle lhe perguntara por mim, e a senhora ajun- 
tara que me desejava muito ver como seu amigo 
de infância ! 

Uma cadeia de espantos ensartados uns nos ou* 
tros ! Carlos segunda vez casado ! já com um filho 
que frequentava theatros ! e com uma senhora mi- 
nha amiga de infância ! 

Espicaçado pelos três pontos de admiração, fiz* 
me encontradiço com elle. 

Nutrira, arrendondaram -se-lhe as proeminências 



ti8 A mulher fatal 

faciaes. Abastecêra-se-lhe o negro bigode encala- 
mistrado nas guias. Estava, como nunca, um gentil 
rapaz, de vinte e oito annos, trajando ao bisarro, 
respirando força, radiando alegria, emfim um ho- 
mem que parecia redobrar de entranhas ao mesmo 
passo que bebia tudo que podesse desfibrar-lK as^ 
consoante me dissera, em Lisboa, quatro annos an* 
tes. 

— Sabes que estou casado?... — participou Car- 
los, depois que me abraççu com sincera efifusão de 
amigo, quanto podia sel-o a sua indole. 

— Assim me disseram ainda hontem que estavas 
casado, e pae de meninos. 

— Não te dei parte, por que. ,. não dei parte a 
ninguém... Convenci-me de que os meus amigos 
se dispensavam das minhas noticias. 

— E não te enganarias se os mediste pela con- 
sideração que lhes davas. . . Não obstante, ser-me-ia 
agradável a nova das tuas felicidades... Casaste 
ha muito ? 

— Ha trez annos e meio. 

— Seis mezes depois que nos encontrámos èm 
Lisboa ? 

— Justo. 

— Isso é que foi andar depressa, Carlos ! Enten- 
deste avisadamente que a vida é breve... Onde 
casaste ? 

— Na Beira-Alta. 

— Amor ou interesse ? 

— Amor. Interesse ?. . . eu ! casar por interesse ! 
Ora essa ! 

— Como me tinhas dito seis mezes antes que o 
teu coração era iiegt^Oy e árido e frio como o mar- 
more negro d'um tumulo^ . . . perguntei se o interes- 



A mulher fcaal tig 

se te dispensara de ter coração clarO) húmido e té- 
pido . . . 

— Ahi rompe o tiroteio das ironias ! . . . — redar- 
guiu Carlos accendendo um aromático charuto no 
lume de outro. — Venha de lá isso, rapaz ! Come- 
ço também a sentir o gáudio de tomar tudo á con- 
ta de brincadeira. 

— Ainda agora ? . . . Vamos a saber . . . com quem 
casaste ? 

E' segredo até que vás ao meu hotel. Minha mu- 
lher jogou comtigo os pinhões em pequena. 

— Sim?!... 

— Quero ver se a reconheces, 

— Eu joguei pinhões ha vinte e trez annos. Onde 
isto vae para que duas creanças se reconheçam ! 

Reuni as minhas vagas memorias de infância, es- 
pecialmente em jogo de pinhões, e não descriminei 
dos meus companheiros d'aquella edade a menina 
que me lisonjeava grandemente recordando-se de 
mim ou do meu obscuro nome. 

Todavia, não instei nas averiguações para dar a 
Carlos a satisfação pueril de me ver surprehendido. 



# 



Era verdade. Eu tinha jogado em i835 os pi- 
nhões com umas trez meninas, filhas d'um magis- 
trado civil que n'esse tempo governava o districto 
de ### ; uma das quaes era Philomena, esposa de 
Carlos. 

Assim que ella proferiu o seu nome, vi a crean- 
ça linda que ia commigo a um bosque de pinheiros 
mansos de sua casa aparar as abadas de pinhas 



190 Á mulher fatal 

que eu despegava dos ramos, e junto as queimáva- 
mos depois para lhes abrirmos as escamas e ex- 
trair as sementes. Lembrei-me que entre duas ar- 
vores fazíamos redouças de ramagem onde alterna- 
damente nos embalávamos, sendo graciosíssimo o 
pudor com que ella apanhava entre as botinas bran- 
cas a orla do vestido, se o baloiço a alteava de mais. 
Depois, sobrevieram outras lembranças já mais 
recentes. 

— Eu pensava que vossa excellencia tinha casado 
com um seu tio. . . — disse eu. 

— Casei ; mas enviuvei ha seis annos. Meu tio 
morreu em Lisboa, onde era juiz do supremo tri- 
bunal ; eu fui para a Beira, onde tinha casado a 
mana Leonor, e lá vi o meu Carlos. Já temos dois 
filhos : um é um rapazinho de dois annos e meio, 
que trouxemos, e se chama Eduardo ; o outro é uma 
menina, chamada Theodora, que ficou com a ama. 

— Onde residem ? — perguntei a Carlos. 

— N'um convento que comprei, cinco léguas dis- 
tante de Coimbra, em ***. Como as minhas em- 
prezas de viação correm todas na Beira-Baixa, com- 
prei um vasto edificio que vou recompondo e afor- 
moseando, por maneira que hasde vêr a mais com- 
moda, magestosa e pittoresca vivenda que ainda 
não imaginaste nas tuas npvellas. 

— Teem prosperado os teus cálculos de emprei- 
teiro ? 

— A's mil maravilhas. E, sobre tudo, o exercicio, 
o andar muito a cavallo por montanhas e arvore- 
dos desenvolveram-me esta robustez que me não 
admiraste ainda, mas que eu presumo ser digna da 
tua admiração. 

— Sim, admiro, estás um bello rapaz ! Aqui ha oito 



Á mulher fatal lat 

annos eras um madrigal ; depois passaste a elegia, 
hoje és um dithyrambo ! Percorreste a escala das 
formas poéticas quasi todas, e mais nunca acolche- 
taste duas consoantes. 

— Felizmente. 

— Deixe-o fallar — interveio D. Philomena. Elle 
fez-me versos. 

— Sim?! Creio que só vossa excellencia pode 
gabar-se de ter inspirado Carlos ! . . . Vejo que pre- 
cederam o seu enlace de todas as formulas d'um 
primeiro affecto ... A poesia é, na verdade, a cha- 
ve de oiro dos corações. Agouro bem d'amores con- 
fidenciados ás musas, se os poetas, depois de bem 
servidos, as não renegam ingratamente. Quero di- 
zer, minha senhora, que, se o noivo-poeta se con- 
verte em marido-prosa, o fogo sagrado apaga-se e 
fica a fumarar náuseas a torcida da lâmpada. Vos- 
sa excellencia deve obrigar cariciosamente seu ma- 
rido a consagrar lhe uma poesia lyrica todas as se- 
manas. 

— Tem graça ! — interrompeu a dama. — Os poe- 
mas que elle agora faz são de cifra e cifrões. Olhe 
que não compra um livro ! Nem os seus romances ! 

— Tens mais juizo do que eu suppunha, Carlos! 
Em que entreténs os dias de repouso ? 

— Vou jardinar, vou á caça, durmo, brinco com 
o meu Eduardo. . . Eil-o ahi vem. . . 

Entrou uma bella creança de jaspe e cabellos loi- 
ros que lhe ondeavam pelos hombros' em espiraes. 
Carlos tomou-a soffregamente como a disputal-a á 
mãe, que lhe abria os braços. 

— Esta é que é a minha poesia ! — Exclamou o 
pae com transporte. 

— Pobres mães! — murmurou Philomena. — Que 



/dá A mulher fatal 

ciúmes ellâs teriam dos filhos, se a Providencia as 
não ensinasse a renunciar o desejo de serem poéti- 
cas aos olhos dos pães ! . . . 

— As mães são a lijz, os filhinhos são as radia- 
ções — di^se eu por me não occorrer coisa mais in- 
telligivel. 

— Dizes muito bem! — applaudiu Carlos, enten- 
dendo melhor do que eu a substancia da ideia. 

— Eu não percebo essas distincções que os se- 
nhores fazem— contrariou sinceramente a minha 
parceira dos pinhões.— Os senhores até habilidade 
teem de poetisar o mal que fazem ! Engenham uma 
coisa com ares de sentença do Thesouro de meninos^ 
e mandam ás mulheres que se consolem de não po- 
der ser amadas depois que são mães. Porque não 
despresam a arvore depois que lhe colhem o fru- 
cto ? Os vegetaes são mais estimados. 

— O' menina ! — atalhou o ridente Carlos — o 
nosso amigo hade pensar que eu te colloquei de- 
baixo da macieira na ordem dos trez reinos ! 

— Não^dissuadi eu — Comprehendo perfeitamen- 
te que tua senhora defende por magnanimidade as 
damas desafortunadas. E' fácil asseverar que vossa 
excellencia é felicíssima. Carlos soflfreu, mais ou 
menos. O soflfrimento é um depurativo do sangue 
demasiado ardente da juventude. Vossa excellencia 
encontrou-o talvez desenganado, e, como tal, bom 
para a familia. E' elle pae extremoso ? 

— Como nenhum— respondeu Philomena. 

— Então descance vossa excellencia, que o tem 
preso ao seu coração por uma fortíssima corrente 
de dois elos. Isto é aço do céo que não verga nem 
quebra — disse eu, 'tomando para o collo o galante 
menino. 



A mulher fatal i93 






Gomo quem deseja não ajuisar de outiva sobre o 
que vae na alma de ninguém e muito menos na dos 
meus amigos, perguntei a Carlos, assim que me 
pude encerrar com elle no meu quarto : 

— Amas esta senhora? 

— Amei. Parece-me que amei. Deparou-m'a um 
acaso... Ahi vae a historia. Estava eu em Viseu, on- 
de me chamavam interesses commerciaes. Encontrei 
um condiscipulo que me levou a um baile do Antó- 
nio d! Albuquerque. Uma elegante mulher vestia de 
meio luto, e não dançava. ^Perguntei quem era Sym- 
pathisei com a viuva melancólica. Pedi que me apre- 
sentassem. Recebeu-me attenciosa, mas friamente. 
Fallou-me. . . Era a primeira mulher de espirito que 
eu ouvia. O tom da voz melodiosa quadrava com o 
luto do vestir e o triste dos pensamentos. Não sei 
como foi, meu amigo. Fiz-me também lúgubre. Co- 
meçaram as lagrimas a envidraçar-me os olhos, e. .. 

— Mas que funéreas coisas te dizia a triste viuva ? 

— Sei lá ! Coisas vagas, devaneios, philosophias... 

— Philosophias ! ? tu a chorar por causa das phi- 
losophias ! . . . Eram saudades dos teus compêndios 
de chimica? 

— Tu bem me entendes. . . Philosophias quer di- 
zer. . . quer dizer. . . desvarios. 

— Ah! — disse eu notando em discreto silencio 
quanto a gravidade antiga do meu amigo havia de- 
generado n'um tom zombeteiro que parecia postiço. 

— O que eu ainda não conhecia era essa face nova 
do teu caracter ... 

— Qual face nova ? 






t94 A mulher fatal 

— A relação humorística. . . o sal e pimenta com 
que adubas a historia do teu quarto amor. E' quarto ? 

-Não. 

— Então ha na tua vida mais aventuras das que 
eu sei . . . 

— Não ha. Sabes que desconfio d'uma coisa atroz? 
O amor fatal, o amor que mata, o amor que se encon- 
tra á porta do inferno, e nos leva dentro, e nos arroja 
ao abysmo... esse ainda o não experimentei... E vati- 
cino que o heide encontrar; e esse será o primeiro ! 

Antes me parece que seja o ultimo, porque do 
inferno abaixo é duvidoso encontrar mulher que 
ames secundariamente... O' grandíssimo scelerado ! 
pois se não amavas Laura, com que crueldade me 
fizeste velar onze noites á beira do teu leito em que 
fingias febre ? Se não amavas Virgínia, para que me 
espancaste os meus somnos da manhã obrígando-me 
a espreitar á fechadura do teu quarto que te não 
afogasses por emborcação no jarro da agua ? Se não 
amavas . . . Não citarei outro nome que seria vilis- 
sima profanação ! . . . 

— Agradeço a delicadeza — interrompeu Carlos 
com seriedade. — Desconhecer-te-ia, se não respei- 
tasses a memoria de Estella. Sou eu que profiro 
este nome sagrado, sem remorsos de lhe haver da- 
do ó mínimo pesar. Chorei-a no leito da dor; cho- 
rei- a na sepultura. Pedi á Providencia que me dei 
xasse seguir o rasto luminoso d*aquella santa alma. 
Achei-me vivo depois d'uma alienação cujos dias tu 
contaste. O suicídio é coragem não vulgar. Matar- 
me-ia, ainda^ assim, se tu e os outros me não cha- 
massem covarde. Vivi, portanto. Se houvesse con- 
vento onde me amortalhar, procural-o-ia. Achei-me 
n'este mundo com vinte e dois annos, com uma 



A mulher faUá laS 

alma sedenta e insaciável. Não esqueci Estella, obe- 
deci aos impulsos irresistíveis da vida como ella é, 
feita por Deus e peiorada pelos exemplos. Vi que os 
viúvos, á imitação das viuvas, não se queimavam : 
pelo contrario, raro será aquelle que chegar a arder 
na febre da saudade que me ia devorando. . . 

— Mas — cortei eu, entediado de tamanha vehe- 
mencia de palavras, aò parecer, contrafeitas — quem 
te pede contas dos teus actos? O meu reparo con- 
siste meramente no paradoxo romântico de te con- 
siderares ainda um peito virgem, e vaticinares o en- 
contro de certa mulher que hade engolfar-te no in- 
ferno! Semelhante necessidade, aos vinte annos, per- 
doa- se; aos vinte e oito, quando se é duas vezes 
marido e duas vezes pae, condemna-se. Se és aman- 
tíssimo de teu filho, se toda a tua poesia é aquelle 
menino, como receias que haja ahi demónio que 
te arranque aos bracinkos dos teus dois anjos, e te 
perverta e desvaires até á extremidade de lhe sa- 
crificares a tua desgraçada familia ! 

— Meu Deus ! — acudiu bem assombrado o marido 
de Philomena — onde te leva a phantasia! 

— A' quem do inferno, quero dizer, do vergonhoso 
infortúnio, onde a tua te arremessa. . . 

— Mas isto são palavras, homem! E, quando eu 
me deixasse amarrar pelo fio de retroz d'alguma 
Dhálila... 

— Que Sansão!.,. Figura-se-me que qualquer 
costureira te tosquia! E's um doido descompassado, 
meu pobre Carlos. Como eu me enganei çomtigo, 
quando uma vez te aconselhei o casamento ! E hoje 
que pena começo a ter da mãe de teus filhos, e 
d'elles ! . . . 



120 A mulher faial 



Este paragrapho é um parenthesis urgente mas 
breve. 

Trata se de mim. Peço ao leitor vénia para a im- 
modéstia. • 

Os anteriores diálogos e outros que depois vierem 
accusando juizo e san moral no author, não pareçam 
inverosímeis ou temporãos na sua edade. Eu tenho 
amigos vivos que me podem ser testemunhas da 
discreta velhice que, no aconselhar, me antecipou a 
desgraça precoce. Eu conhecia especulativamente 
todas as restingas d'este pego borrascoso em que 
mareamos as nossas paixões. Em algumas naufra- 
guei irracionalmente, estando a vêr os espigões das 
rochas á flor d*agua. Depois, assim que via lenho 
aproado n'ellas e pilotado por alma sem norte,, gri- 
tava-lhe, e quasi de mãos erguidas lhe pedia que 
safasse o coração dos escolhos infamados. O mais 
triste é que não consegui salvar ninguém. 

Se alguma vez, porém, os meus rogos tiveram a 
uncção da piedade foi quando vi creancinhas á volta 
dos homens que as nãò viam, cegos da sua fatal 
perdição. Eu, antes de ser pae, já sentia o travor 
acervo d'este horror que chamam orphandade, des- 
amparo, ninguém que se dôa, ninguém que acon< 
chegue do peito um menino que sente fome e sede 
d' amor. . . O parenthesis devia ser maior. Não pos- 
30. Ha idéas que se dissolvem nas lagrimas. 



Á mulher faial laj 



Uma tarde encontrei Philomena sósinha, quando 
eu procurei Carlos. 

— Carlos não jantou hoje commigo — disse ella 
magoada. — Deixar-me n'uma hospedaria, n'este pe- 
queno quarto um dia inteiro ! 

— Onde foi jantar ? 

— Com uns amigos, não sei quaes . . . Conhe- 
ce-os ? 

— Devo conhecer, minha senhora ; mas de prom- 
pto não me lembro quem sejam. Aqui, no Porto, ha 
o saudável costume da ancian hospitalidade, dando 
muito de comer aos forasteiros. Presume- se sem- 
pre que os convidados se retiram com indeléveis 
marcas de amisade no estômago. Releve vossa ex- 
cellencia que seu esposo sacrifique as doçuras da 
familia aos usos patriarchaes doesta boa terra, onde 
as expansões da amisade não espumam em ditos 
espirituosos se as não precede a expansibilidade do 
Champagne. 

— Estou anciosa por sair do Porto! — disse a 
dama. — Carlos, nas cidades, parece outro homem. 
Estivemos ha seis mezes em Lisboa. Não imagina 
como andava aquelle espirito!... Um ar tão di- 
verso ! uma abstracção . . . uma coisa ! . . . não sei 
dizer... Saimos de Lisboa para a nossa aldeia. 
Transformou-se, apenas deixámos Lisboa. Voltou á 
serenidade, ao amor da familia, áquelle seu natural 
alegre e amoravel. Viemos ao Porto contra minha 
vontade. EUe ahi está no estado em que o vi ab- 
sorvido em cogitações* que lhe spasmam os olhos, 
sempre distraído, inquieto, não come, dorme mal, 



ia8 A mulher fatal 

até o filho parece importunal-o com as suas cari- 
cias. . . Que explicação me dá ? 

— Eu, minha senhora ! ? . . . 

— Sim ; conhece-o ha tantos annos . . . 

— Conheço um homem que se chama Carlos Pe- 
reira. 

— Só ? ! Sabe lhe toda a sua vida. 

— E que tem isso com os descobrimentos que 
vossa excellencia faz no caracter de Carlos ? 

— Tem muito. EUe não amou aqui uma senhora 
chamada Laura de Carvalhaes ? 

— Dizia elle que amava. 

— Será possivel que essa mulher ainda o preoc- 
cupe ? 

— Não preoccupa, minha senhora. 

— Assevera-m'o ? 

-—Quanto podem asseverar-se coisas de seme- 
lhante naturesa. 

— E parece-lhe injustiça suspeitar- se que elle se 
impressiona facilmente doestas beílesas provocado- 
ras das grandes cidades ? 

— Minha senhora, eu não tenho a mais leve des- 
confiança de que seu marido lhe usurpe um instante 
de admiração aífectuosa. Sem duvida, o Porto é um 
alfobre de galantíssimas mulheres ; mas, nem vossa 
excellencia deve temer-se da competência, nem 
ellas sairão a disputar-lhe Carlos. As mulheres di- 
gnas de ser amadas, por certo não. As outras, não 
creio que o nosso amigo ande abstracto por causa 
d'ellas. 

— Seja como for, estou morta por sair d^aqui. 

— E demoram- se ? 

— Não sei... Essa sua pergunta assusta-me . . . 
•~ disse ella com alvoroço.— Sabe alguma coisa? 



A mulher fatal 1 29 

— A pergunta é natural, minha senhora. Eu não 
sei o mais leve desvio de Carlos aqui no Porto. 

— E em Lisboa ? 

— Ha quatro annos que vi Carlos em Lisboa; de- 
morei-me quinze minutos com elle; nunca mais o vi 
até esta occasião em que o encontro casado com 
vossa e]^cellencia. 

— Não lhe fiz uma pergunta frívola. Em Lisboa 
tive rasôes para desconfiar que meu marido olhava 
fascinado para uma mulher. Conhece a Cassilda 
Arcourt ? 

— Que mora no Chiado? 

— Essa mesma. 

— Vi-a. Contaram-me d'ella historias dignas de 
Pariz ... 

— Que lhe contaram ? 

— Que reduzira á miséria não sei quantos aman- 
tes, quantas esposas e quantos filhos dos aman- 
tes. 

— E' essa, sem duvida alguma. A franceza, dona 
do hotel em que estivemos, disse-me o mesmo. Não 
é muito formosa? 

— E' formosa, e passa por intelligente. Joga to- 
das as armas que prostram os leões. 

— E' unaa infame ! 

-— D'accôrdo, minha senhora. 

— Surprehendi Carlos com os olhos fixos n'ella. 

— Quantos innocentes surprehenderia vossa ex- 
cellencia n'esse olhar sem consequência ! Eu, por 
exemplo. Quando a encontrava, parava na rua. 

— Mas como os senhores podem extasiar-se dean- 
te de tão vis creaturas!? 

— A gente não se extasia, ratinha senhora. Olha. 

— Mas isso é reprehensivel em homens intelligcn- 

9 



i3o A mulher- fatal 

tes ! . . . em homens a quem Deus confiou a missão 
de dirigir as massas estúpidas ! . . . 

Ha exemplos dos sábios da antiguidade que 
pervertem tos sábios modernos. Aleibiades, como 
vossa excellencia sabe, finava-se de amores de Lais. 
A' mesma creatura abjecta offereceu Demosthenes, 
o primeiro orador grego, cem talentos, oitenta mil 
cruzados da nossa moeda, pouco mais ou menos... 
Se vossa excellencia não estivesse tão distrahida, 
havia de convencel-a de que os sábios de hoje estão 
muito mais ajuizados que os antigos. Onde está ahi 
um sábio 'portuguez que oflferecesse oitenta mil cru- 
zados á Cassilda Arcourt? Eu, cá de mim, que 
também sou um sabiò portuguez, não; e faço justi- 
ça aos meus collegas, que á vista de tão deslum- 
brante mulher, o mais que fazem é o que fez Car- 
los e o que eu fiz: olham para ella. . . 

— Não graceje que eu estou mortificada... inter- 
rompeu Philomena entre risonha e descontente. — 
Aquella devassa de Lisboa nunca se me varreu do 
espirito. Falei-lhe n'ella depois que estávamos em 
casa • • • 

-i— Indiscreção, minha senhora! para que lhe falou 
n'ella?... 

— Essa é boa ! . . . 

— Se elle não falava em Cassilda, que lucrou 
vossa excellencia lembrando-lh'a ? Ai, minhas se- 
nhoras, minhas senhoras ! vossas excellencias preci- 
savam de ser homens antes de ser mulheres . . . 

— Então o lembrar-lh'a!...— tornou ella cpm es- 
panto. 

— Sim, isenhora D. Philomena. Eu digo a vossa 
excellencia o que as mães aldeãs dizem aos filhos : 
cse falas no diabo, elle apparece-te.» As mulheres 



A mulher fatal i3i 

d'essa magia satânica ordinariamente avultam ao es- 
pirito ausente com seducções superiores das que 
teem para fascinar os olhos. Teem por ellas o pres- 
tigio das lendas, as paixões lacerantes que inspiraram 
as lagrimas de uma familia convertida nas pérolas 
que lhes manilham os pulsos . . . 

— Cale-se, não me diga isso, que me faz terror ! 
— exclamou ella levantando-se de golpe. — Não me 
deixe imaginar possível que o pão de meus filhos 
venha a ser o preço d'alguma torpe d'essa ordem!... 

— Eu quero que vossa excellencia imagine o que 
ha verdadeiro na sua situação, e mais nada — apla- 
quei eu com a placidez . nem sempre sincera. — 
Seu marido viu Cassilda Arcourt. Reparou n'ella. 
Fez o que todos fazem, sem excepção d'aquelles 
anciãos de bigode preto que em Lisboa convertem 
em irrisão o que em toda a parte é respeitável : a 
velhice. Se o vêl-a bastasse a deslumbrar-lhe os de- 
veres de esposo e pae, Carlos ou ficaria em Lis- 
boa, ou, deixando vossa excellencia na aldeia, vol- 
taria para lá. Não fez assim. Ha seis mezes que de 
lá saiu, e ficou em sua casa, entregue ás suas occu- 
pações. 

— Tem razão ! — exclamou ella com palpitante ju- 
bilo. — Tem razão . . . convenceu-me com bem pou- 
cas palavras; e, sendo essa a mais natural defeza 
do meu Carlos, elle nunca se defendeu. Ria-se, 
quando eu lhe falava n'ella. Apenas uma vez carre- 
gou o sobr'olho, e disse com certo desabrimento : 
tJá me vaes incommodando.» Isto magoou-me até 
ao intimo do coração!. . . Mas agora. . . perdôo-lhe, 
e hei de pedir-lhe que me perdoe . . . 

— Não peça, minha senhora — atalhei com gran- 
de assombro da dama. 



jS2 á mulher fatal 

— Porque ? ! 

— Porque tem de lhe lembrar essa mulher. Uma 
senhora só deve falar n'essas creaturas depois que 
ellas pertencem á historia da corrupção das edades. 
Hoje em dia não ha perigo em falar-se de Messali- 
na, de Marion de Lorme, de Ninon de Lenclos. . . 
e sinto grande e patriótica satisfação em me não 
recordar nome portuguez que enfileirar n'estapha- 
lange . • • De Cassilda Arcourt estd vossa excellen- 
cia prohibida de falai* em quanto ella não despir o 
coUo da rede de brilhantes e se lhe senhorearem 
d'elle os vermes do Alto de S. João ou dos Praze- 
res. Antes d'isso, não; que lh'o aconselha o seu 
avélhado companheiro dos pinhaes e comedor dos 
pinhões. 



(■.9I" 



IX 




Quarto golpe 

STE golpe lanhou febras mais mimosas que 
. as do coração. 

E* dôr que todos entendem, Trata-se da 
perdição de uma coisa mais preciosa do 
que a alma ; mais indispensável do que a virtude ; 
mais necessária aos bancos do que a honra ; mais 
necessária ao amor do que o coração. A coisa per- 
dida chama-se fortuna. Isto sim que é golpe ! 

O convento, que o empreiteiro de estradas com- 
prara na Beira-Baixa (*), até ao anno de 1854 não 
tivera licitante. Alguns cavalheiros abastados das 
visinhanças, conluiados para o fim de impedirem a 
venda, afifastavam a concorrência. A razão do impe- 
dimento era jazerem no claustro do mosteiro as 
ossadas de seus antepassados. Piedosa veneração ! 

(*} Por justos motivos omitte-se a localidade. Náo faltará 
quem a saiba, indepeadentemente da indicação. 



i34 Á mulher fatal 

Entretanto, n'aquelle anno, Carlos Pereira, agra- 
dado do sitio, e de seu natural aíFecto a grandezas, 
desejou possuir o mosteiro, collocado no -centro das 
suas operações emprezarias. Houve quem tentasse 
dissuadil-o do propósito, saindo-lhe com razões de 
zelo religioso, as quaes o desavisado moço teve em 
nenhuma conta. 

Comprou o convento por alguns contos de réis, 
alluiu a porção carecida de reforma, deslageou a 
claustra para jardinar o terreno ; e, amontoando as 
ossadas que lascavam sob a enxada dos jornaleiros, 
mandou as enterrar no adro da egreja parochial. 

A indignação do povo era suíFocada pelos cava- 
lheiros influentes, cujo plano de vingança, de natu- 
reza mais summaria e menos arriscada, aprazavam 
para quando fosse tempo. 

Gastou Carlos largo cabedal em reparar aquellas 
quasi ruinas, por espaço de dois annos, chamando 
alvencis de longe^ liberalmente estipendiados. Os 
seus haveres, acrescentados por donativos dos tios 
do Brazil, iam sumidos em alicerces, em cantarias, 
estuques, jardins, taças marmóreas, plantações de 
arvoredos peregrinos, decoração interior das vastas 
salas, e até no brazão soberbo que sobranceou ao 
vasto portão, em virtude de se fazer agraciar com 
o foro de fidalgo cavalleiro para que seus netos não 
continuassem somente a nobreza da avó. 

Os apregoados lucros das emprezas não condi- 
ziam ao apparato de tamanho palácio, com fidalgos 
dentro. D. Philomena me disse que seu marido esta- 
va reduzindo em pedras o pão futuro dos filhos ; 
mas que não ousava ir-lhe á mão, vendo o prazer 
com que elle se engolfava n'aquelles estéreis caza- 
rões. 



A mulher fatal i35 

Por sua parte, Carlos, segundo inferi, esperava 
herdar de seus tios ; e, n'este presupposto, ia con- 
struindo casa digna de possuir algumas centenas de 
contos. 

Em i858 deu o futuro herdeiro por concluidas as 
obras, que nunca vi, mas de bons apreciadores tive 
que eram magnificas, soberbas, e vendáveis sem 
perda, senão com vantagem. 

N'aquelle anno festejou Carlos o quarto anniver- 
sario de seu filho Eduardo com um baile, onde con- 
fluiu grande parte da nobreza de todas as datas que, 
seis léguas em volta do mosteiro, fazia sociável e 
mais valiosa a vivenda de Carlos. 

Logo depois que uns convidados se tinham reti- 
rado, e outros, de mais longe, se haviam recolhido 
aos seus quartos no palácio, ás quatro horas de uma 
manhã de outubro, subitamente grossos rolos de fu- 
mo annuviaram os longos corredores. 

Os hospedes, ainda não adormecidos, agrupa- 
ram-se nos dormitórios sem atinarem com as saidas 
encobertas pela fumarada. Reboavam os gritos affli- 
ctos das senhoras, quando appareceram Carlos com 
seu filho Eduardo no coUo, e Philomena com a me- 
nina. O terror e confusão d'elle sobrelevava o dos 
hospedes. Tal e tanto era, que a muito custo encon- 
trou as portas do salão de baile, onde o fumo se 
condensara menos. Ouvia se já o estalar das vidra- 
ças no andar térreo da casa. 

Abriram-se as janellas do salão e ecoaram gritos 
de soccorro por aquellas aldeias próximas. Reinava 
uma quietação desesperadora á volta do mosteiro. 
Nem um braço piedoso que tocasse a fogo em al- 
gumas das torres de três freguezias que já alveja- 
vam aos primeiros alvores da manhã. 



à36 A muíher faícã 

— Sigam-me, sigam-me! — exclamou Carlos sa- 
cudido do seu spasmo por uma horrendíssima lem- 
brança. 

O borborinho das chammas já crepitava no mais 
central da casa, quando a turba saiu de baldão pela 
porta do jardim. Chegados fora, encararam espa- 
voridos nas janellas que abriam sobre o jardim, por 
onde as flechas de fogo saiam azulejando as colum- 
nas de fumo. N'este momento um ribombo atroa- 
dor se ouviu,, e revoltas serpes de fogo irromperam 
o telhado, espadanando madeiras abrazadas como 
lavas vulcânicas. Era a explosão de algumas bar- 
ricas de pólvora armazenadas para a quebra dos 
rochedos. Esta fora a previsão de Carlos quando 
gritou que o seguissem. 

Philomena perdera os sentidos, abraçada á crian- 
cinha. Carlos com o filho a tremer de frio e medo, 
aconchegado do seio, via com os olhos afogados 
em lagrimas o ruir das traves e o baque das ricas 
alfaias precipitadas ao pavimento inferior, por uma 
garganta de fogo aberta pelo repellão das barricas. 

O sol assomava tremente, quando o vasto palá- 
cio coroado de lavaredas estrondeava, a espaços, 
como se a terra mugisse subvertendo-o nas suas 
entranhas. 

Philomena havia sido levada em braços a uma ca* 
sa de ofificinas apartada do edifício ; em quanto Car- 
los se quedava como empedrado a vêr o derruir dos 
vigamentos, o abater dos telhados, e o esboroar 
das paredes. 

E, aquecendo as faces de Eduardo com o seu 
hálito febril, dizia-lhe no silencio do coração : 

— Restas me tu ! . . . não tenho mais nada. . * 



Á mulher fatal i3f 



# 



À religião dos túmulos estava vingada. Podiam 
já reatar o somno eterno as ossadas dos frades ir- 
ritadas. Sacerdotes da piedade com as cinzas, os 
incendiários, certo, cuidariam que o queimarem o 
convento era serviço feito aos arcaboiços dos mon- 
ges em particular, e á divina religião de Christo em 
geral. 

A conjuração, urdida por espaço de trez annos, 
surtiu a ponto. A* volta das ruínas apparecêram 
apenas alguns jornaleiros de longe attraidos pela 
fumaça. Das aldeias circumvisinhas não acudiu al- 
guém. Os pobres doer-se-iam de sua crueldade ; 
mas os ricos, os parentes dos frades profanados 
em suas covas, atavam os braços aos operários que 
se alimentavam do bem-fazer d'elles. 

Ao pôr do sol d'este dia os haveres de Carlos 
Pereira eram aquelles acervos fumegantes de ma- 
deiras, pedras e caliça. As jóias de Philomena e os 
valores em moeda tudo estava soterrado, pulveri- 
sado ou derretido. 

Aquelle dia e os trez seguintes, Carlos e sua fa- 
mília agasalharam se em Tentúgal. Um dos hospe- 
des do mosteiro na noite do baile abriu generosa- 
mente a sua gaveta ao infeliz pae e marido. 

Entre elle, a esposa eos filhos succedêram se 
lances de muito chorar ; mas, um dia, Carlos, ar- 
rancando-se dos braços de Philomena, exclamou; 

— E' forçoso! 

E, estreitando vertiginosamente o filho ao peito, 
soluçou como em anciãs de morte. 



i38 Áf^mulher fatal 

Seguidamente, saiu caminho de Lisboa, d'onde 
passou no paquete ao Rio de Janeiro. 

Philomena) decorrido algum tempo, escrevia-me 
de casa de sua irmã, contando me os pormenores 
do desastre, a viagem de Carlos a solicitar a com- 
paixão dos tios, a provável miséria de seus filhos, 
e talvez a morte do marido, ralado de saudades e 
da paixão de se ver tão pobre. 

No decurso de oito mezes recebi frequentes no- 
vas da minha amiga de infância, e bastante satisfa- 
tórias as que diziam respeito ás esperanças em que 
estribava todo o remédio d'esta familia. Os tios de 
Carlos, amiserados da lastima do filho de sua irmã, 
abundantemente o abasteceram de dinheiro para vir 
em Portugal recomeçar sua vida. Pelo quê, Philo- 
mena, lembrada do revez, me pedia que influísse 
no animo do marido despersuadindo-o de compras 
de mosteiros, e emprezas de estradas em que elle 
havia perdido, sem embargo de se desvanecer do 
contrario. 

Meado o anno de iSSg, Carlos Pereira chegou a 
Lisboa, onde era esperado por esposa e filhos. A 
saudade de oito mezes dessedentava-se em meigui- 
ces ás duas creanças. Philomena contemplava os ex- 
tremos do pae com olhos amarados de pranto, não 
de inveja, mas de justa magoa. Carlos, um instan- 
te nos braços d'ella, desprendeu-se para abraçar 
Eduardo, e de joelhos o cobriu de beijos e lagri- 
mas. 

— Pouco sou na vida d'este homem ! — dizia ella 
entre si. — Ainda bem, meu Deus, que elle ama os 
meus filhinhos ! Por amor d^elles, irá dissimulando 
que me não aborrece . . . 



A mulher fatal i3g 

Sacada a importância das letras que trazia do 
Brazil no valor de dez contos, Carlos explanou á 
consorte os seus projectos commerciaes. A viação 
publica fora aspada do programma. Agora o alvi- 
tre era mais burguez e descasado com a sua re- 
cente fidalguia. Ia negociar em cereaes e azeite. 
Armazenar géneros em grande escala açambarcados 
na estação das colheitas, e vendidos quando a alta 
garantisse vantagens, segundo elle, era ganância 
infalibilissima. Quiz a prevista senhora combater 
aquelle superlativo ; mas o marido enredou-a por 
tal feitio n'uma teia de leis económicas, que Philo- 
mena, alheia da sciencia de seu marido e do senhor 
doutor Adrião For jaz, de Coimbra, não teve que 
redarguir. O centro da veniaga do azeite seria al- 
guma villa da Beira-Alta ; para cereaes, Minho e 
Traz-os-Montes ; sujeitando-se assim o fidalgo ca* 
valleiro á laboriosa tarefa de correr as feiras de 
trez provincias alternadamente. 

Quando isto me constou ofFereci-me a Carlos 
para guarda-livros do armazém d'azeite. Conven- 
ceu-me da minha penúria de habilitações para me 
sair airosamente de entre os odres d' onde em Por* 
tugal tem sahido muita somma de visconde, e não 
sei se de lá preluzia ao meu amigo aquella coroa de 
marquez almejada annos antes. 

Como quer que fosse, Carlos saiu de Lisboa para 
Vizeu, onde deixou a familia e entrou a discorrer 
pelas provincias sondando a natureza da sua guisa- 
da mercancia. 

Ageitou-se o lanço de ver no Porto o meu amigo. 
Notei-lhe alguns cabellos brancos. Disse-me que se 
lhe encaneceram na madrugada do incêndio. 

Quanto a azeite, vinha descoroçoado ; e, respeito 



t4ú AmãhtrfaUã 

à tereaes, quasi dissuadido, sendo causa d^issq a 
sua natural impersistencia e a noticia de que os 
açambarcadores tinham as tulhas cheias e ameaça- 
das de gorgulho. 

— Que heide eu fazer a nove contos ? — pergun 
tava-me elle. — Se os não fizer render quarenta por 
cento, como heide eu manter a decência da minha 
família? Realmente, meu tios deram-me pouco! 
Ninguém vive com menos de cem contos de 
réis. 

-- Isso é verdade. A mim tem-me custado a viver 
com noventa e nove. 

— Mas sério ! que farias tu a nove contos ? 

— Eu? 

— Sim? 

— Eu te digo. . . se tivesse nove contos. . . 

— Que fazias ? 

— Gastava-os. 

— Também eu, se não tivesse filhos. 

— E esposa. Parece que não contas com a mãe!? 

— Está claro que conto . . . Mas que dizes tu ? 
que heide eu fazer? 

— Economisa, até algum acaso te suggerir o me- 
lhor expediente. 

— Se eu podesse obter um bom emprego. . . 

— Com que habilitações ? Ah ! tu cuidas que as 
habilitações são somente necessárias aos caixeiros 
de armazéns d* azeite ? 

— Ora. . . habilitações ! Um secretario geral que 
precisa saber? 

— Não sei. 

— Não precisa saber nada ; mas a mim o que me 
convinha era ser director d'uma alfandega de se- 
gunda ordem. Que te parece ? 



Á mulher fatal i4t 

— A nâo poder ser de primeira, aproveita a se- 
gunda. 

— Pois é o que vou fazer ! — exclamou resolvido 
e satisfeitíssimo. ~ Ainda que eu gaste dois contos 
ou trez na obtenção do despacho, é capital que me 
rende cento por cento. 

O designio pareceu-me plausivel. Comtudo, não 
lh'o approvei nem combatí. 
■— Então vaes para Lisboa chatínar o emprego ? 

— Vou. 

— Levas a familia ? 

— Por emquanto não. . • Mas não sei se as sau^ 
dades do meu Eduardo ... 



X 



X 



Ultimo amor 




A vinte annos que um gentil-homem fran- 
cez, viajante scientifico, estanciou em Lis- 
boa para ver o convento dos Jerónimos e 
a capella de S. Roque, Hospedou-se 
n'um hotel, cujo dono tinha uma filha de dezeseis 
annos, extremamente bclla, typo circassiano ou gre- 
go, typo peninsular ou romano, typo de formosura 
para toda a terra civilisada. O francez não viu a 
capella em que D. João V perpetuou a sua pieda- 
de sandia, nem o monumento manuelino consagra- 
do á épica façanha que abriu as portas á piratagem 
do Oriente, e começou a pesar na balança da Pro- 
videncia os méritos que pozeram ouro e fio o fiel 
da haste, quando o sangue de Alcacerquibir pesou 
na outra concha. Estas philosophias históricas não 
preoccupavam o gentil-homem, nem a loira Cassilda, 
a quem o Luiz XIV portuguez daria a capella de 
S. Roque por um d'aquelles ósculos em que o mo- 



t44 Á mulher faial 

narcha fídelissimo dulcííicava o travor do peccado 
em Odivellas, e n' outras partes. 

O gentil-homem e a galante menina escamug^ 
ram-se. Melhor foi assim. Se o franccz se demora 
e escreve de Portugal, era contar com injuria ou 
bestidade. Foi. Levou nos uma jóia. Que importa? 
A França indemnisa-nos, enviando-nos boas joias. 

O francez era filho-familias, bom coração ; mas 
de quebra com o dinheiro. A portugueza, bem que 
verde em annos, ia já combalida de alma. Queria 
bizarrear em Pariz : gastava a froixo ; parecia mes- 
mo franceza em oitava mão! Ninguém diria que ta- 
manho desplante frisava com a compleição modesta 
e pudica das moças portuguezas que fogem aos 
pães! 

O gentil-homem endividou-se por maneira que 
(leis barbaras !) dois ou trez judeus o metteram em 
Clichy, E vae Cassilda, que não era toutinegra que 
se fosse chilrear saudades á beira da gaiola do ca- 
ptivo amante, assentou de si comsigo, á maneira de 
César á ourela do Rubicão, que o dardo tinha sido 
arrojado. 

Succedeu avassalar um agente commercial, que 
costumava hospedar-se em Lisboa no hotel de seu 
pae, ao mesmo tempo que os rapazes de primeira 
plana de Pariz a assediavam com recovagens e offer- 
tas de palácios e carruagens. 

Grato á preferencia, o agente commercial rece- 
beu-a como esposa, e honroua com o seu apellido 
Arcourt. Receiando, porém, que a teimosia de cer- 
tos príncipes russos lhe manchassem as cartas lim- 
pas de marido, abalou-se de Pariz, e veio estabe- 
lecer-se em Portugal, cedendo, ao suspirar nostál- 
gico da esposa. 



A mulher faial t45 

Mad. Cassilda Arcout fez terramoto no Chiado 
a primeira vez que alli passou a galhadear-se com 
o garbo d'uma parisiense qúe leva os amantes a 
Clichy. 

Os velhos de bigode árabe remoçaram por den- 
tro, como se o fluido transmutativo lhe filtrasse do 
bigode ao coração. Um d'esses, que já tinha visto 
cazar duas netas, afréguesou-se no estabelecimento 
do francez, cuja felicidade commercial nâo podia 
competir com as pompas da mulher* Não obstante^ 
o velho conde de#**, varão maior que o seu nome, 
poz hombro á cruz d'aquelle marido em trances de 
fallir, e prosperoulhe o commercio a olho. Cassil- 
da tinha victoria e jockey e camarote em S. Car- 
los; vestia o pescoço de prendas, e os braços de ser- 
pentes esmaltadas, e estrellava os cabellos de dia- 
mantes. 

O conde de***, ao fim de dois annos, teve a fe- 
licidade de morrer d'um aneurisma no dia em que 
vendera a casa onde nasceu. 

Presumia a gente honesta que a libertina (epitheto 
indicativo de que ainda ha moral nas famílias) ven- 
deria a victoria e trespassaria o camarote. A' moral 
das familias dá grande cuidado saber se as liberti- 
nas vendem as viciarias. Pois não vendeu. Em vez 
de um jockey tinha dois, e dois cavallos em vez de um. 

Ninguém sabia que olympica divindade chovia 
oiro em casa do francez. 

Corre um anno. Embarca se no Tejo um funccio- 
nario d'alto porte que esponjara á fazenda nacia- 
nal cincoenta contos. Procuram-se notas nas gave* 
tas do suicida, e acham-se-lhe cartas de Mad. Cas- 
silda Arcout, quasi iodas em estylo commercial : 
Entregue ao portador a quantia de. .. etc. 

10 



14^ A mulher fatal 

Este notório escândalo esperava a gente honesta 
que fizesse emigrar a libertina* E' aífrontada outra 
vez a execração publica e moral das familias. Cas^ 
silda estreou uma caleche ingleza, tirada por orças, 
apeiou no portão do passeio do Rocio, apertou a 
mão a trez ou quatro rapazes finos, e, rojando a 
cauda de setim adamascado, saltou ligeira ao estri- 
bo e emigrou.. . para os fofos coxins da calechcè 

O francês tinha brios. Poderá não ter ! Fora da 
França, todo o francez casado tem figados de mou- 
ro de Veneza. Lá na sua terra supportam a condi- 
ção de Sgnarellos. Mudein-nos de clima e vei^ão o 
que é pundonor ! 

O marido de Cassilda foi mal julgado dos seus 
visinhos. Infamavam-n'o de complacências que n'al- 
guns pontos do globo, onde não chegou a civilisa- 
ção christã, são castigadas a chibata. Mr. Prosper 
Arcourt não era marido de duelos, nem tão pouco 
de afifogar a mulher com o travesseiro. Vingou-se 
,quasi originalmente, desapparecendo de Lisboa, uma 
noite, com todas as jóias da mulher, nas quaes ia 
de envolta o preço de duas quintas do conde e o 
melhor dos cincoenta contos da fazenda nacional. 
Honra á justiça, intérprete da moral publica ! Cas- 
silda queixou-se no governo civil ; mas ninguém fez 
caso. Mr. Prosper teve a seu favor uma boa porção 
de maridos ; e ella não teve sequer a commiseração 
das mulheres de sua estofa. 

Depois d'este insulto ao direito de propriedade, 
orças e caleche passaram ás cocheiras dos credores 
da casa commercial, fechada a requerimento de mui- 
tos que tinham sido logrados na véspera por Mr. 
Prosper. N'este proceder demasiou o fugitivo a sua 
vingança. Nem que os negociantes defraudados fos- 



A mulher faial i4j 

sem cúmplices de Cassilda ! Pagou mal aos homens 
sérios que o tinham avisado. Vão lá avisar ninguém! 
O mundo é assim, e o francez sabia o mundo em 
que estava. 

A catastrophe deteriorou algum tanto os créditos 
de Cassilda. As orças e os lacaios collaboravam no 
seu prestigio. Esta espécie de mulheres, para se 
nâo confundirem com a lama, precisam de a não pisar* 

A' custa da renunciaçâo dolorosa de certas rega- 
lias domesticas, a esposa abandonada^ protegida por 
um negociante aposentado, pôde, por espaço d'al- 
guns mezes, mostrar que era ainda formosa, esta-, 
deando-se n'um gíg com seu jockey em libré. 

Mas o negociante^ carregado de annos e contas 
de modistas, recobrou a sua rasâo, e dispunha-se a 
simular certa viagem para se aliviar da carga. Ain- 
da assim, doia^he a ingratidão com a linda mulher 
tão lealmente sua ! Emfim, refez-se de animo, e foi^ 
a hora desacostumada, expor as capciosas rasões 
da sua viagem. Puxa a campainha, e ouve dizer den- 
tro uma criada : «Não se assuste, senhora, que ha 
de ser o aguadeiro.» Abre-se-lhe a porta, investe 
com a sala, a tempo que a criada gaguejava qual- 
quer rasão' impeditiva, entra e topa um rapaz loiro 
de luneta no olho direito, e os dedos pollegares nos 
sovacos do collete branco. 

— Está bom! estimo! — regougou o discreto ne- 
gociante; rodou sobre os pés ageitados para rodar 
um homem sem risco de descambar, e saiu. 

O elegante disse depois a Cassilda : 

— Se elle te injuriasse, matava-o ! 

E ella, enternecida a lagrimas, murmurou: 

— Pobre homem!. . . Era meu amigo. . . Tenho 
sincera pena d' elle !. . . 



14^ A nadher fatal 

Falsa explicação das lagrimas. 

A sua grande dôr era ver que o moço da luneta 
e bigode á Don Juan apenas tinha de seu a cora- 
gem de lhe matar o velho, se elle a injuriasse. Cas- 
silda não queria paladinos chibantes. Diziam melhor- 
mente com a sua condição pacifica sujeitos abona- 
dos no joalheiro, na Lavaillant, e no armazém de 
carruagens do Navarro. 

No trajecto de oito annos, ser-me-ia trabalhoso 
indagar os trens e amantes de Cassilda Arcourt. 
Contam-sei a propósito, historias, do recôndito das 
familias, muito para lastimas, desamparos de espo- 
sas, retaliações de esposas desamparadas, tentati- 
vas de suicídios, sequestros, expatriações, emfim, 
opprobrios e misérias, descabidas n^este livro. Seja 
como for, ahi está a mulher , . • fatal. 

# 

Carta de Vhilomena 

Lá está em Lisboa o meu Carlos. Meu. . ./Muito 
custa ao coração abdicar ! Este meu é como o dos 
reis proscriptos que dizem: to meu throno» e co- 
mo a tminha pátria» dos que morrem de fome 
n^ella. Resignação! 

Diz elle que vae comprar um bom emprego, e que 
você lhe applaudira a deliberação. Pedi-lhe que me 
levasse; empenhei o meu Eduardo n'isto. Nada 
conseguimos. Contraveio com rasões de economia 
que me amordaçaram. Mas o filhinho chorava, e 
elle . . • resistiu ! Seria o bom anjo de Carlos que 



A mtdher fatal i4g 

lhe pedia nos lábios do menino ? Deus permitta que 
eu seja a visionaria que você lastima. 

Olhe que se me não despinta da imaginação 
aquella mulher ! . . . E mais quem sabe se ella é já 
morta ? se envelheceu ? se está feia ? se mudou de 
vida ? 

Nada sei: todas as hypotheses são realisaveis, 
mas eu vejo- a sempre satanicamente formosa como 
ella era ha seis annos. 

Ha poucos dias que soíFri um vexame. Chegou 
de Lisboa um coronel que ainda é nosso parente. 
Perguntei- lhe se conhecia Cassilda Arcourt. Fixou- 
me com espanto e disse: «Uma senhora nunca pe* 
de novas de taes mulheres». Para me defender, 
ainda tentei confessar os meus receios ; conteve-me, 
porém, o pejo de calumniar meu marido, arguindo o 
de uma inclinação mal' fundamentada. 

Mas que infelicidade ! Não posso esquecer esta 

mulher ! Odeio-a como se ella já houvesse tentado 

roubar aos meus filhinhos o coração de seu pae ! 

Se o meu amigo podesse indagar alguma coisa 

que viesse dar socego á minha alma. . . 

Olhe que pedido tão desatinado ! Se eu não fos- 
se tão extremosa esposa e mãe, não tinha descul- 
pa. . . 

Carlos já me escreveu. A sua carta é amoravel, 
saudosa, triste, esperançada em voltar cedo para 
nós. Manda aos filhos muitos brinquedos. Anceia 
pela hora em que possa recomeçar vida nova toda 
intima e dedicada á educação dos nossos anjos. 
Pois, apesar de tudo, vejo sempre aquella infernal 
visão do Chiado, aquelle despejado aprumo com 
que ella ia ao encontro dos olhos que a remiravam 
com uma admiração quasi respeitosa. Olhe que vi 



fSo A mulker fatal 

isto ! No olhar dos homens não transluziu o des- 
preso, não. Se não era amor, era a fascinação que 
devora corações. E que mais podemos receiar nós, 
desgraçadas, que apenas temos dos corações de 
nossos maridos a estima reflexa do amor aos filhos ? 
Sabe o que eu queria, meu amigo ? Era que as 
suas palavras podessem outra vez desvanecer o pre- 
sentimento que ha dois annos me afBigia. Mas en- 
tão o meu Carlos estava a cincoenta léguas do abys- 
mo ; e hoje está debaixo dos olhos infernaes da. . . 
minha rival! Vergonhosa confissão! Se eu sinto este 
aviltamento, porque não heide escrevel-o ? ! O' meu 
amigo, âs mais temiveis rivaes são as que nos po- 
dem roubar o coração do esposo, e com elle o futuro 
dos filhos » 



Não sei se Carlos Pereira indagou o processo de 
comprar directorias de alfandegas de segunda or- 
dem. Os seus amigos de Lisboa disseram-me que 
nunca lhe viram modos de pretendente. O que viram 
e souberam pude eu colligir nas seguintes noticias. 

E' ocioso dcscrevel-o no hotel francez rodeado de 
cavalheiros de fino trato; verdadeiros homens de 
Terêncio : familiarisados com todos os escalões so- 
ciaes desde a orgia na taverna até ao baile no paço, 
uns de preclara estirpe, trabalhando por desmentir 
a herança do sangue honrado, outros de vilissimo 
nascimento provando a egualdade humana com a 
egualdade da vasa em que todos se atolam. 

Estes naturalmente seriam quem desse novas de 
Cassilda Arcourt, se não foi elle que as pediu no 



Á mulher fatal i5i 

fim de una Jantar bem estralejado de Champagne. 

A'quelle tempo, quem quer que fosse, era desco- 
nhecido o amoroso de Cassilda. Sabia-se que, seis 
mezes antes, um duque francez, filho d'outro duque 
do Império, saíra de Lisboa importunado por cre- 
dores, que o enxovalhavam nas praças. O duque 
de *** deshonrara-se para manter á esposa do seu 
compatriota as regalias que lhe deixara o seu ante- 
cessor decáido da graça. O successor do duque, 
se existia, era menos fátuo que os outros : em ge- 
ral os amantes de*CassiIda alardeavam sua fortuna, 
pendurando a photographia d^ella de par com o re- 
trato d*uma esposa promettida, com o d'uma amiga 
de infância, com o d'uma parenta respeitável, e com 
o de sua mãe. 

Os retratos de Cassilda vendiam-se. 

Um dos convivas de Carlos tinha-o em sua car- 
teira. Quando o marido de Philomèna perguntou se 
a tal Circe ainda era bonita, o possuidor do retrato, 
lançando-o á mesa, disse : 

— Não está bonita, está divina. 

Carlos demorou-se a contemplal-a, e confirmou : 

— E* grande mulher ! Ha seis annos era menos 
formosa. Que esplendor tem esta fronte ! . . . Que- 
rem vocês saber ? — continuou elle dessecando a 
garganta com marrasquino. — Trez vezes olhei para 
esta mulher como já ninguém olha para Deus. Trez 
vezes senti esbrasearcm-me o peito uns, filtros .. . 
uns filtros. . . 

— Isso a mim já nem me acontece com o absinto 
puro — atalhou um roué de vinte e dois annos que 
pulverisava o cognac de cinza de charuto. — Deixa-te 
lá de filtros, Carlos. O que tu sentias teem-n'o sen- 
tido uns alarves pyramidaes que filtram libras. Não 



j52 á mulher fatal 

me entres ahi a fazer phrases, nem madrigaes em 
prosa de quinto acto. Na minha presença ninguém 
queima incensos a mulher honesta. . . não creio na 
honestidade de nenhuma; menos consinto que se 
pindarisem as devassas. 

— Mas confessas que é bella esta mulher! — re- 
plicou Pereira, ofiferecendo-lhe o retrato. 

O sccptico pegou da photographia, accendeu-a 
na luz próxima, e disse agitando a cHamma, com 
solemnidade : 

— Sacrifiquemos á Vénus caljrpigia ! 

Carlos ainda quiz obstar ao incêndio ; mas, como 
os outros rompessem um coro de gargalhada, te- 
meu ser ridiculo. 

— São horas de S. Carlos — disse o sacrificador. 
— Vamos! se preferes vêr a lama original, vem ao 
theatro, que ella tem camarote de assignatura. 

Estava em uma frisa. Não se vestia. . . despia- se 
com riquissimo impudor. Bella como os demónios 
que appareciam aos anachoretas da Istria. Petulante 
de altivez como só costumam sêl-o as perdidas que 
não teem outra vingança senão o despejo. 

Carlos foi sentar- se na bancada que prendia á fri- 
sa. Os inimigos, aquecidos e excitados pelos sarcas- 
mos do sacerdote da Vénus obscena, disparavam- 
Ihe indirectas chufas que faziam rir os circumstan- 
tes, confirmandolhes os créditos de ébrios com es- 
pirito. Carlos afastou-se d'elles magoado, e reparou 
de longe. 

Cassilda Arcourt, vencida pelas insolências dos 
vinolentos moços, ergueu- se, tomou a capa das mãos 
d'um lacaio, e saiu. 

Marejaram-se de lagrimas os olhos de Carlos. 



A mulher Jataí i53 

Era a sensibilidade no vinho. . . o coração a sobre- 
nadar em Champagne. Sahiu ao pateo. E, sem ter 
tempo de ponderar o feito de sua alucinação, rom- 
peu ao encontro de Gassilda, descobriu se, e balbu- 
ciou : 

— Minha senhora, eu estava na roda dos homens 
que a ofiFenderam ; mas não a offendi. Vossa excel- 
lencia de certo me viu entre elles. 

— De certo, não vi o senhor nem elles — atalhou 
Gassilda, agitando o leque. 

—Não importa. Fico bem com a minha consciên- 
cia repellindo a parte que poderia caber-me nos in- 
sultos que obrigaram vossa excellencia a sair. . . 

— Está enganado. Eu costumo demorar-me pou- 
co no theatro. Pôde o senhor despersuadir os seus 
amigos do prazer de me terem insultado, que eu não 
os ouvi, nem vi. Boas noites. 

— Minha senhora... — Dizia Carlos, e viu-a sair, 
pisando como as deusas de Virgílio. 

As pessoas que ouviram o dialogo perguntavam, 
indigitando Carlos: 

— Quem é este parvo ? 

Como nenhum dos interrogados o conhecesse, 
concluíram que era do Porto. 



O marido de Philomena tinha escripto em sua vi- 
da pouquissimas cartas amatorias. Laura não lh*as 
recebia; Virgínia não sabia ler; Estella não sabia 
responder, e Philomena acceitára e retribuíra declara- 
ções vocalmente. A epistolographia era portanto um 



t54 A mulher fatal 

modo de amar quasi virginal em Carlos; e bem é 
de entender que, chegada a hora, ainda que sero- 
diamente, a sua Índole amoravel devia desentra- 
nhar-se em resmas de papel. 

E, n^aquella noite de theatro, recolhendo ás onze 
horas, sentou-se á banca e escreveu até que as va- 
cas leiteiras mugiram na rua as saudades dos seus 
bezerrinhos. 

Era carta para Cassilda. 

O estylo tinha as ingenuidades tímidas do primei- 
ro amor. A phrase inclinava se respeitosa e idolatra. 
De nenhum pensamento transparecia intuito que 
podesse purpurar de pejo faces de virgem. Uma 
menina resguardada, escrevendo no seu livro inti- 
mo segredos de sua alma, escrava d*um amador em 
versos alexandrinos, certo não diria coisas mais 
cândidas e fragrantes de innocencia. Que seis folhas 
de papel sujas do primeiro pus d'um coração que 
ia cancerar-se! 

No outro dia, Cassilda Arcourt recebeu da posta 
interna uma carta assignada por Carlos, a qual co- 
meçava assim : Sou o homem que se dirigiu hontem 
a vossa excellencia d saida do íheatro. Sou um 
grande coração que hontem trasvasava de fel e hoje 
de lagrimas. Sou a mais reverente paixão que ainda 
ajoelhou deante de vossa excellencia, etc. 

Esta linguagem era myrrha que nunca vaporara 
nos incensórios de Cassilda. A estranhesa era-lhe 
todavia grata, bem que o peito encoiraçado se não 
sentisse commovido ás reminiscências de sua pura 
infância, muito delicadamente espertadas na carta 
com uns rebates de saudade. 

— Mas quem será este homem ? — perguntava 
Cassilda á sua criada grave, moça ladina que á3 



A tnulher faial iS5 

vezes dormitava confundindo os patrões com os 
aguadeiros, 

— Vae-se saber, sè a senhora quer. Chama-se o 
compadre. 

— Por em quanto não. Quero tornar a vel-o. Hon- 
tem mal reparei n'elle; mas pareceu me galante... 
Dá-me o tinteiro e papel — disse ella com intimativa, 
acolchetando as pulseiras, 

Sentou-se e escreveu : 

M I vous súvej toujours, vous autres hypocriteSf 
De beaux discours flatteurs bien sonvent répétés. 
Je les aime^ mon Dituí quand c*est vous qui les dites, 
Mais ce n'est pas pour moi qu'ils étaient inventes, 

Alfred de Musset, — LÀ coupe et les lbvres. 

E mais nada. 

Lacrou o envoltório, selou-o com o sinete, ade- 
ressou a carta a Carlos Pereira, e mandou lançar 
na caixa. 

A's quatro da tarde, quando recolhia de comprar 
um phaeton tirado por garboso normando, encontrou 
Carlos a resposta que abriu com mão convulsa. Leu, 
releu, retraduziu e.. . sentiu-se pequeno para mu- 
lher de tanto espirito! A perspicácia do meu pobre 
amigo era curta, quando mesmo a sua rasão fun- 
ccionava desassombrada; n'este conflicto, porém, que 
admirar, se elle tomou á conta de fino espirito a co- 
pia de quatro versos? E como veria elle n'esse frag- 
mento do escandecido talento uma resposta signifi- 
cativa de coração onde estremecesse fibra não ga- 
fada! 

Mas sejamos tolerantes, se não Justos. Carlos ama- 
va fulminantemente Cassílda. A resposta, quer co- 



j56 a mulher fatal 

piada de Musset ou de Kock, soaria sempre na au- 
dição interior do homem como as meiguices de Vir- 
gínia. . . fallo da Virgínia de Paulo; não me enten- 
dam a Virgínia do padre Joaquim. 

Ao cair da tarde, o jubiloso Carlos saltou para o 
seu carro, e guiou para o largo de S. Roque, onde 
morava a leitora do author de RoUa. 

Estava na Janella : reconheceu-o, correspondeu á 
cortezia de chapéo, rasgada, larga, solemne, digna 
d'uma duqueza honrada. 

Depois, voltou-se para dentro, e disse á criada : 

— O Carlos tem um bonito carro. Vae dizer ao 
compadre que se informe. 

Este compadre é como todos os compadres does- 
tas comadres : um ' sargento de veteranos casado 
com uma que tinha sido cosinheira de Cassilda, su- 
jeito que se alimenta e mais a mulher da casa a 
cujo serviço está a sua grande aptidão de indagador. 
O trajar do veterano inculcava certa gravidade, 
mormente quando montava uns óculos azues com 
guardavento, enfronhava o queixo nas profundesas 
da gravata elástica de setim preto. Era este o cos- 
tume das indagações, e d*este feitio entrou no hotel- 
francez a pesquisar com mui cortez compostura e 
ar mysterioso. 

A dona da casa disse que Mr. Pereira era um seu 
antigo freguez, muito boa pessoa; natural do Brazil, 
mas domiciliado em Portugal ; que parecia ser rico, 
.^ porque gastava muito e pagava generosamente. 

— E' alguma menina que o quer para casar ? — 
acrescentou a franceza. 

— Não, madame, — disse o compadre de Cassilda 
— as minhas indagações são sérias; trata-se de ne- 
gócios de vulto. 



A thulket fatal ' iSj 

— Ai! isso sim; que, se fosse inculcas para ca- 
samentOy já eu lhe dizia que o meu hospede é ca- 
sado com uma senhora muito gentil. 

— Bem: isso não tem nada com os meus negócios. 

Quanto a casado, já Cassilda o inferira de uns 
dizeres que o viuvo de Estella e o marido de Philo- 
mena, com pouca alma e grande quebra da sua di- 
gnidade, inserira na carta. As algemas do precon- 
ceito não prendem as a\as ao coração^ escrevera 
elle — Se disserem a vossa excellencia que a alma se 
obriga a phrases banaes d'um padre^ não creia. 

A quem elle o dizia! Se a esposa de Prosper Ar* 
court ainda estaria á espera d'este aviso para des- 
carregar sua consciência e despontar espinhos de 
escrúpulos ! 

Pouco depois das informações muito de servir^ 
chegou o carteiro com a replica aos versos de Mus- 
set. Lastimava-se elle, queixando-se da injustiça, e 
obtestando Deus sobre a sinceridade da sua paixão. 
Da aleivosia de hypocrita, constante do primeiro 
verso, defendia-se aquelle abatido espirito com ta- 
manho zelo e copia de argumentos que nem um va- 
rão justo calumniado de salteador. Cassilda, na cor- 
renteza da leitura, quantas vezes diria de si comsi- 
go : «Este homem se não é parvo, é velhaco de mar- 
ca!» Infelizmente não era velhaco nem parvo •• • 
Era homem. 

Quantas virgens caidas dos braços dos seus guar- 
das celestes antes da sétima carta ! Quantos leões 
nossos conhecidos recorreram só duas vezes ao dic- 
cionario de synonimos, ou ao estylo d*um amigo ser- 
viçal ! Pois á duodécima carta é que o meu amigo, 
já no gume da desesperação, obteve uma entrevista 
em Cintra no hotel do Victor. 



i58 A fmtlh0r faial 



Ey no acto de sair para Cintra, recebeu a sua 
corre spondencia . 

Abriu a carta de Philomena^ já fora de portas, e 
leu as poucas linhas que diziam assim : 

«Começo por te dar uma triste nova: o nosso 
«Eduardo está doente desde hontem á tarde. Tem 
«muita febre, e os beicinhos roxos. O medico assus- 
«tou-me. Estou afflictissima. A creancinha chama 
«por ti em delirios. Hontem de manhã me tinha 
«elle dito que não tornava a ver o seu papá. Ima- 
«gina as angustias d*esta pobre mãe. O' Carlos, se 
«o nosso filho morrer, vem chorjal-o ao pé da tua 
«desgraçada Philomena.» 

— O' meu querido filho ! . . . murmurou Carlos, e 
enfiou por maneira que o jockey reparou na palli- 
dez do seu amo. 

E quebrando subitamente as guias, desandou a 
largo trote para Lisboa. 



Carta de Vhilomena 

Carlos esteve, aqui dezeseis dias. Dei-lhe parte 
da doença grave de Eduardo. Ao outro dia á meia 
noite tinha andado quarenta e sete léguas ! 

Quando elle chegou, o pequenino espectorava 
sangue e respirava a custo. O pae ajoelhou-se á 



A tnuther fataí xSg 

beira d'elle, ergueu as mãos e orou. Eu nunca o ti- ' 
nha visto orar ; ouvira*o blasphemar depois do incên- 
dio da casa. Não imagina que sublime e ao mesmo 
tempo doloroso era para mim o espectáculo das la- 
grimas e das mãos postas deante da imagem da Se- 
nhora a quem eu confiara a salvação de meu filho! 

A pneumonia cedeu aos cáusticos, dizia o medi-^ 
CO. Eu não sei como a Divina Providencia operou 
a cura^ se por efficacia das nossas lagrimas^ se dos 
cáusticos. Sei que nos abraçámos a chorar de ale- 
gria, quando o medico nos disse que estava salva 
a creança* 

E estava. Hoje faz quinze dias que a conside- 
rei morta, e d'aqui a estou vendo a brincar com a 
irmã. 

Agora falemos de Carlos. Tratou-me com desa- 
costumado affecto, aflfabilidade, amor talvez ; mas, 
n'estas extraordinárias demonstrações de interesse, 
quiz eu decifrar um enigma, que parecera absurdo 
á sua critica. Pintou-se-me que as meiguices eram 
remorsos ; que o apparente ou sincero affecto era a 
consciência em importunas contas comsigo mesma. 
E ao mesmo tempo, assim que o menino entrou 
em convalescença, e a exultação arrefeceu, ahi co- 
meçou elle a recair n'uma taciturna abstracção, 
que se não era tristeza, também não era contenta- 
mento. 

Assim que passaram quinze dias, disse que as 
suas pretenções bem encaminhadas na capital re- 
clamavam a presença d'elle ; senão, corria o risco 
de perder tempo, e dinheiro já adeantado. Poderia 
ou deveria eu contrariai o? não* Apenas lhe disse 
com mais lagrimas que palavras : cPela vida do teu 
Eduardo te peço que não esqueças a mãe d'estas 



i6o A mulher fatal 

creancinhas.9 Abraçou-me com impetuosa paixão^ 
e chorou. Por que chorava elle, meu amigo ? Pois 
não era aquiilo uma compaixão aguiihoada pelo re* 
morso ! ? . . • Bemdito seja Deus ! ainda lhe resta a 
piedade ! 

Olhe : estou quasi resignada* E vou contar-lhe o 
segredo d'esta conformidade, que fica entre Deus e 
nós. Quando pensei que o meu Eduardo morria, 
puz os olhos em Jesus Crucificado, e disse : «Meu 
pae, não me tireis este filho, que eu vos prometto 
abençoar todas as dores que me dilacerarem o co- 
ração; mas livrae me d esta. Senhor; eu vol-o rogo 
pelas lagrimas de vossa Mãe Santíssima. 9 

O meu filho está alli, outra vez rosado, alegre, 
cheio de vida. Se eu me affligisse, era ingrata. Sei 
que, se eu perder o amor de Carlos, elle ha de 
amar sempre os filhos e amparal-os. Ser-lhe-hei o 
que elle quizer. Transijo comtanto que meu marido 
seja bom pae. 

E depois, não pôde ser que tudo isto sejam chi- 
meras ? Sejam ou não, repito, meu amigo, estou re- 
signada 



Carlos Pereira encontrou no hotel duas cartas de 
Cassilda Arcourt. Uma accusava-o de pouco primo- 
roso cavalheiro, faltando a um compromisso solici- 
tado por elle mesmo. A outra, mais retrincada e 
pachorrenta, tresandava ao almíscar e pat-chouli de 
ironias e jogralidades, como as sabem desfechar ao 
peito d'um homem as senhoras d'aquella polpa, 



A rrulher fatal t6i 

quando lhes sobeja pratica e convivência de bons 
farçantes e bons livros. 

Antes de lavar-se do pó da violenta jornada, res- 
pondeu Carlos, e teve animo de explicar sincera- 
mente áquella mulher a causa inopinada da sua ida 
a casa ! Desculpando-se da falta, pôde aquelle co- 
ração afistulado, sem asco de si mesmo, escrever 
o nome do filhinho aureolado do santo amor pater- 
nal ! E, depois de ter dito que ajoelhara á beira do 
filho, pedia á generosidade de Cassilda que o ima- 
ginasse em joelhos deante d'ella. 

Foi generosa. Carlos conseguira até . . . comfno- 
vel-a! A mulher gostava de creanças — pendor não 
vulgar n'umas condemnadas a não poderem extir- 
par do lamaçal do seio os profundos instinctps da 
maternidade. 

Rehabilitado pelo perdão, solicitou de novo o pas- 
seio bucólico ás florestas de Cintra. D'esta feita pres- 
cindiram de resguardos. Entraram na mesma cale- 
che a S. Sebastião da Pedreira, e viram-se rosto a 
rosto, hombro com hombro. 

Carlos sentiu o vagado do deslumbramento. A 
immobilidade dos olhos, e o soíFrear da respiração 
e os beiços entre-abertos por um sorriso de beatifi- 
co enlevo, todo este composto, se não fosse a for- 
ma obrigada do extasis, seria a expressão da mais 
boçal tolice. 

A mulher de Prosper, fitando risonho e agitada 
aquelle arroubamento lisongeiro, não se lembrava 
de caso semelhante em duas dezenas de primeiros 
rende\vousl 

Fui a Lisboa em 1860. 

Na mesma hora em que desembarquei no Terrei- 
ro do Paço, acercou se de mim um engenheiro que 

11 



- i 



i€2 Á mulher fatal 

me reconheceu, e se fez conhecido lembrando-me 
que era uma das três testemunhas que assistiram 
ao casamento da Estella. 

— Aquella pobre senhora — acrescentou ellc — 
morreu a tempo! se não matai- a-ia este devasso vi- 
ver de Carlos Pereira. . . 

— Então que ha ? ! — atalhei eu, ingenuamente 
ignorante. 

— Pois não sabe que elle passeia ahi por Lisboa 
a sua corrupção com a Cassilda Arcourt ? 

— Não sabia ... — disse eu com amargura, vendo 
passar ante mim a imagem de Philomena com os 
dois filhos nos braços. 

— E onde foi este homem buscar o fausto com 
que doura a sua desmoralisação ? perguntou o en- 
genheiro. 

— Trouxe do Brazil ha seis mezes dez contos de 
réis. Carlos vive com ella ? 

— N'um palacete ás Larangeíras ; mas atraves- 
sam Lisboa no mesmo carro. E que será feito de 
outra mulher com quem elle casou ? 

— Ha três mezes que me escreveu da Beira, onde 
vive com dois filhos. 

— Que infeliz familia ! . . . Não saberá ella isto ? 

— Deus permitta que não. Seria inútil o flagel- 
lala com a noticia. Basta que o saiba, quando não 
poder d'outro modo explicar a pobreza do marido, 
e a fome e a nudez dos filhos. 

No dia seguinte examinava eu para alugar, na 
travessa dos Carros, os commodos d'uma cosinha 
meia campestre. Ouvi o rodar d'uma sege. Saí á 
sacada, e vi Cassilda com um homem á sua esquer- 
da. Carlos viu-me. Eu não o vi. Apenas dei tento 



A mulher fatal i63 

de se agitar um braço, e ouvi proferir o meu no- 
me. O ódio faz amóroses instantâneas. A luz dos 
meus olhos não espelhava imagens •, scintiliava-me 
umas áscuas de lume no cérebro. 

Ao outro dia parou um cavallo á minha porta. O 
meu criado estava prevenido. O cavalleiro deixou 
um bilhete brazonado que dizia Carlos Ter eira. Vol- 
tou no dia seguinte, e o meu criado, entregando-Ihe 
o bilhete, disse : 

— Meu amo não conhece o senhor. 

Ora, n'este mesmo dia, me era devolvida do 
Porto uma carta da minha amiga de infância. . 

Dizia assim : 

«Ha quinze dias que lhe quiz escrever: mas da 
cadeira onde me assentara passei para a cama, 
d'onde lhe escrevo, tendo os meus dois filhos um 
de cada lado. Se é verdade o que me dizem, esti- 
ve moribunda. Deus compadeceu se doestes inno- 
centes. Vivo, e estáse retemperando a parte do 
coração que se perdeu. Hoje mais que nunca pre- 
ciso de ser forte, por que. . . estou sósinha. 

«Meu marido perdeuse. Andei adivinhando esta 
desgraça. Os meus parentes sabiam tudo, e não 
sei que remédio esperavam antes que eu o soubes- 
se. Uma prima de meu primeiro marido escreveu- 
me de Lisboa perguntando-me se eu era, como lhe 
tinham dito, mulher d'um Carlos Pereira. Respon- 
di que sim. Não tornou a escrever-me. Alvoroçou- 
me a pergunta e o silencio. Havia oito dias que 
Carlos me não escrevia. Suspeitei que elle tinha 
morrido. Confirmava-m'o a tristeza de toda a gen- 
te que olhava para mim. Preparo tudo para sair 
para Lisboa na mesma hora em que me resolvi. 
Minha irmã então conta-me que toda a gente em 



104 Á mulher fatal 

Vizeu sabia que meu marido vivia em Lisboa ligado 
publicamente com uma mulher muito conhecida, e 
em breve me reduziria e aos filhos a esmolar o pão 
dos parentes. Nem perguntei o nome da mulher... 
Ha quantos annos eu sabia aquelle nome ! . . . 

«Chamei os meus filhos, levei-os comigo ao ora- 
tório onde minha mãe me levava em pequenina, e 
disse-lhes que pedissem a Deus por seu pae. Eduar- 
do começou a rezar em alta voz: Padre nossOy que 
estaes no céo, santificado seja o vosso nome, . . incli- 
nei-me para elle, abracei-o, chorei muito, orei so- 
luçando. . . e parecia-me que os olhos da Virgem 
também reviam lagrimas. Levantei me animosa, fui 
sentar-me a escrever-lhe ; mas senti-me desfallecer. 
Deitei-me, e não sei o que passou nos primeiros dias. 

«Naturalmente, da perdição de Carlos não lhe 
conto novidade. Dizem-me que elle publicou a sua 
desgraça com orgulho. Não lhe escrevi, nem escre- 
verei, com o parecer doestas pessoas que me ator- 
mentam aconselhando me desatinos. Querem que 
eu requeira divorcio. Para que? O divorcio não 
pode ser mais completo do que é. Querem que lhe 
peça a segurança de alimentos para mim e meus 
filhos. Para mim nunca lh'os pediria; para os filhos 
antes irei pedil-os aos meus parentes. Até hoje nada 
me tem faltado. Deixou-me um saquinho de dinhei- 
ro, que não sei quanto é. Se Carlos o quizer, en- 
viar-lh'o-hei, que é seu. Eu o dote que trouxe foi o 
bom coração que elle despresou. 

«No que eu penso com muita dor é no que hade 
ser d'este infeliz, consumindo o dinheiro que tem ! 
Se os tios o não soccorrem, a herança d'estes me- 
ninos será o nome infamado de seu pae. Ate onde 
o abaterá aquella mulher ? 



A mulher fatal 1 65 

«Parte-se-me o coração, se Eduardo me pergun- 
ta quando chega o pae. Digo-lhe sempre « amanhã b ; 
mas o pequeno chora de saudades, e despedaçame. 

«Não deixe de me responder por sentir inútil a 
consolação. Creia que lhe escrevi com os olhos en- 
xutos. Aqui ha Providencia. O golpe era mortal; 
mas resvalou no peito de meus filhos. A sua amiga 
Philomena.» » 



Frequentes vezes vi Carlos Pereira. Sobejava-lhe, 
ajuizo eu, pundonor para desviar-se de mim. Além 
de que, o seu carro e cavallos eram altos, e bem é 
de crer que me não visse confundido entre a peona- 
gem. 

Examinei-o d'espaço, uma noite, no theatro nor- 
mal. Cassilda occupava um camarote de primeira 
ordem, e ellc, na superior, uma cadeira central. Do 
fundo de um camarote, com o binóculo, fixei Car- 
los por largo tempo. Causava espanto o emmagrcci- 
mento, o cavado das olheiras e a cor amarellida. 
Dava parecenças com o Carlos que eu tinha visto, 
onze annos antes, enfermo e prostrado, depois 
d'aquelle primeiro golpe de Laura. Suspeitou-se 
então que os pulmões do moço tivessem lezãò ; e 
eu, vendo- o depois desconfiei que uma tisica muito 
adeantada o ia levando á precoce morte dos irmãos. 

Concluido o espectáculo, vio entrar em sege com 
Cassilda Arcourt. A coberto d'uma columna, confir- 
mei as minhas suspeitas da gravissima doença. 
Quanto a ella, não a tinha visto mais allucinadora 
seis annos antes. Era um bello anjo caido no es- 
terquilinio e mesmo ahi conservava signaes indele- 



i66 A mulher fatal 

veis da mão divina. Era assim uma creatura entre 
celestial e satânica, monstruosidade symbolica da 
lucta primitiva entre Deus e os réprobos da gloria. 
Deviam ser assim as mulheres de Madeão, que 
postas á frente do exercito, sem mais armas que a 
infernal metralha dos olhos, renderam os hebreus. 
Se Jehovah consentia que as madianitas quebras- 
sem a golpes de lascivia os pulsos de seu povo, 
que podemos esperar nós, gente sem Deus nem fé, 
se mulheres d'aquelle condão nos levam em recova 
pelo inferno dentro ! S. Chrysostomo deplorava os 
hebreus srencidos; eu choro sobre a christandade 
actual que não vive do mel do deserto nem se guia 
por columnas luminosas. Trevas e amargura, Cas- 
sildas e Carlos ! . . . Ao remanescente do género 
humano peço perdão. 

Na lista dos viajantes embarcados para o Havre, 
uma semana depois, vi nomeados Carlos Pereira, e 
madame Cassilda Arcourt. E, na volta de poucos 
dias, annunciava-se o leilão da rica mobilia d'um 
palacete a Bemfica, trens, cavallos, ctc, tudo per- 
tencente a uma senhora que se retirava para o es- 
trangeiro. Disseram-me que a baixclla leiloada per- 
tencia ao marido de Philomena. 

Fui assistir. Chamava-me este fútil episodio. Agu- 
çou-se-me a curiosidade de ver a luxuosa baixella 
d'um homem, cujos filhos d'ahi a pouco esmolariam 
a manta do seu catre de bancos. Fiscalisavam o lei- 
lão dois sujeitos, um dos quaes eu conheci de o 
ter visto em Coimbra particularisar bastante com o 
marido de Estella. Exercitava então em Lisboa o 
mister de jogador em que procurava a desforra do 
património perdido. O outro fiscal era o sargento 
de veteranos, compadre de Cassilda. 



A mulher fatal 167 

Avisinhei-me do superintendente mais graduado, 
esperando que elle me reconhecesse. Apertou-me 
cordealmente a mão, e disse-me : 

— Que lhe parece estas coisas ? 

— Que coisas, senhor Antunes ? 

— O Carlos ! 

— Ah ! sim . . . disseram-me que esta mobilia era 
d'elle . . . 

— Está arruinado de algibeira e de saúde ! — pro- 
seguiu o commensal quotidiano de Carlos. — Animal 
assim ainda não vi outro ! Fartei-me de lhe pregar 
que tivesse juizo; mas perdi o tempo. Elle ahi vae 
agora para Baden-Baden . . . 

— Jogar ? 

— Não ; elle não joga. Vae tomar as aguas ; mas 
é um disparate ; que o mal d'elle é do peito. O peior 
é que se lhe acaba o dinheiro antes da vida . . . 

— Vejo que elle dissipou muito depressa alguns 
contos de réis . . . 

— Seis contos de réis em oito mezes, e levou 
trez. 

— Está feito ! Não acho muito, em vista do luxo 
d*esta casa, de dois trens, de trez cavallos, etc«, etc. 

— Não, que a mobilia de Casiilda também aqui 
está, e um dos carros e cavallo é d'ella. 

— Então Cassilda também se deixa arruinar ? 

— Se se deixa arruinar? Então você não sabe 
quê ella o ama perdidamente ? 

— Sim ? ! Ora vejam ! . . . 

— Não imagina ! Desde que elle começou a pade- 
cer do peito, desfaz-se em lagrimas. Disse-me que o 
havia de acompanhar até á sepultura, e matar-se 
depois. 

— E' possivel... Estão na moda taes regenerações 



i68 Á mulher faial 

começadas pelo amor e concluídas pela morte.. k— 
condescendi, sorrindo. 

— Não o diga a rir! Você, se a conhecesse ha 
um anno, e a visse hoje, espantava-sc. Olhe que se 
apaixonou seriamente esta mulher que parecia de 
mármore ! Eu que Ih'o digo c por que o sei. 

— Não duvido. 

— Assisti a scenas patéticas! proseguiu o joga- 
dor pondo os olhos sentimentalmente no tecto.— 
Elle não sabe que está ético ; via chorar Cassilda ; 
não entendia a razão do chôro ; queria saber o que 
a fazia triste . . . Era uma tragedia ! 

— Pelo que vejo, o senhor Antunes tem vivido 
muito na intimidade doesta gente ... 

— Sim, tenho, Carlos Pereira cortou as suas. re- 
lações todas, desde que os amigos começaram a 
ridiculisal-o por elle se apresentar publicamente 
com Cassilda. 

— E o senhor Antunes conservou-se leal ao seu 
amigo desgraçado . . , ? — atalhei com gravidade, co- 
nhecendo o sandeu com quem lidava. 

— Conservei ... 

— Apesar de conhecer que elle se arruinava^.. 

— Pois então ! £adá homem tem sua estrella. . . 
A de Carlos era esta mulher. Mas pode- se gabar 
que foi o primeiro que ella amou. 

— Ao menos, resta-lhe essa grande consolação: 
está justificado. Ora diga- me : como viveu muito 
particularmente com o nosso amigo, talvez lhe ou- 
visse alguma vez fatiar dos filhos . . . 

— Se ouvi ! . . . Partia-se-lhe o coração quando 
fallava n'um que se chama Eduardo ! A Cassilda 
chegou a dizcrme que dava cem libras a quem fur- 
tasse o menino á mãe, e lh*o trouxesse. Cuidava 



A niuther fatal i6g 

ella que o Carlos melhorava, se visse o filho. Eu 
ainda calculei a maneira de tentar o rapto do pe- 
queno ; mas não lhe vi furo. Fossem lá a Vizeu ti- 
ral-o de casa da mãe ! Pois olhe que a doença maior 
do nosso amigo era saudades do tal Eduardo ... Eu 
ainda lhe disse duas ou trez vezes : «deixa esta 
«mulher por algum tempo, e vae estar com a tua 
«familia até te sentires melhor. i 

— E elle que respondia ? 

— Que respondia! Desatava a chorar, e dizia : 
«Não posso, não posso deixal-a uma hora. Se tiver 
de morrer, quero acabar aqui onde a vej^ até ao 
meu ultimo suspiro.» Entenda lá isto, se pôde! 

Principiou o leilão. O fiscal pediu me desculpa, 
e voltou a sua attenção para os licitantes. 

Detive-me alguns minutos a examinar uma éiagé- 
re de páu preto com livros magnificamente encader- 
nados. Os ramos litterarios unicamente representa- 
dos na bibliotheca de Cassilda eram romance e poe- 
sia. Abri um livro que tinha na capa de marroquim 
uma coroa de conde : era O meu visinho Raymundo, 
de Paulo de Koch ; abri outro que tinha umas ini- 
ciaes sobre uma coroa ducal : era Mademoiselle de 
Maupifty de Theophile Gautier. A Dama das Camé- 
lias estava encadernada em velludo azul ; e a Fan- 
ny de Ernest Feydeau em velludo escarlate. A* mar-* 
gem dos livros viam-se mãosinhas de irreprehensi- 
vel esboço apontando as passagens prediletas, que, 
de relance vistas, me pareceram as mais ofifensivas 
do pudor, ou mais zombeteiras da moral. O único 
livro substancial que topei encravado nas futilidades 
foi Le bon seus du cure Jean Meslier. Este, na pa- 
gina de guarda tinha o autographo de Carlos Pereira. 



t70 A mulher fatal 

De « philosophia » era o único thesouro que vi. Donde 
se infere que as boas letras de Cassilda corriam 
parelhas com as do seu sócio de livraria. Demorei- 
me no intuito de arrematar o livro de Carlos. Posta, 
porém, a verba em praça, eram tantos os preten- 
dentes que eu desisti de disputar a um barão a 
posse d'aquella infâmia litteraria em que o compra- 
dor tencionava continuar a sua instrucção. Voltei a 
minha escolha para uma bengalinha de unicórnio, e 
comprei- a no propósito de presentear Eduardo, al- 
gum dia, com um objecto de seu defunto pae, se 
elle pftferisse com respeito e saudade o nome do 
desgraçado. 



Escrevi a D. Philomena fielmente o que vira e ou- 
vira. O resguardo me quiz parecer vão e indigno da 
sua confiança; antes tive pari mim que o precatal-a 
e dispôl-a para a viuvez, orphandade e pobresa seria 
útil aviso. Tenho presente a sua resposta : 

«Minha familia sabe tudo que ahi se passa. Ha 
pessoa que segue os movimentos todos de meu in- 
*feliz marido^ e os conta para Vizeu. Já hontem se 
me disse que sairá para França, e muito doente 
Carlos. Eu ainda lhe não contei que o meu Eduar- 
do recebeu uma carta de Lisboa, que lhe foi entre- 
gue pelo carteiro, e elle me trouxe com muita ale- 
gria, dizendo que era íetra do pae. Era com effeito. 
A "Carta contém só duas linhas que dizem : Meu fi- 
lho ^ teu pae coberto de lagrimas te pede que perdoes 



i 



\*' 



V 



Á mulher faiai tjt 

á sua memoria. O meu Eduardo tem oito annos. 
Leu, mas nSo entendeu. Viu- me chorar, quiz expli- 
cações, que eu não sabiá nem podia dar. Guardei 
a carta para Ih'a mostrar quando elle, opprimido 
pela desventura, sentir a necessidade de odiar a 
vida, e quem lh'a deu. 

Calculei a profunda angustia de meu marido; mas 
custou -me a comprehendêl-a. Eu imaginnva-o con- 
tente, esquecido, sem remorsos. Estas coisas só se 
entendem apontadas pelo dedo da Providencia. A 
mim não me pede elle perdão. Pois não hade ser 
necessário, se Deus lhe pedir contas das minhas 
lagrimas. Está perdoado. 

Por em quanto, mal posso dizer-lhe qual venha 
a ser o meu futuro. Penso n'elle ha muitos dias. A 
minha viuvez já principiou. Meus filhos ha muito 
que são orphãos. Os meus parentes são bons; mas 
pouco afortunados. As trez filhas do homem que 
serviu até á decrepitude honrada a sua pátria, e 
lhes gastou na emigração o dote, estão pobres. Meu 
primeiro marido deixou-me apenas... a liberdade 
de ser mais infeliz com o segundo. 

Gomo educarei estas creanças? não sei. Refu- 
gio-me na Providencia, pedindo-lhe conselho. O 
meu Eduardo é rapaz; poderei mandal-o servir um 
amo no Brasil; mas o porvir da menina afi3ige-me 
incomparavelmente. 

Lembra-me que poderei aproveitar em beneficio 
d'ella alguma educação que tive n'um collegio do 
Porto. Sei alguma coisa piano e francez. Se encon- 
trar casa onde possa entrar como mestra, irei pre- 
parando minha filha para ensinar as filhas das mi- 
nhas discípulas. Até agora não vejo outro horison- 
te, e este vejo-o, meu amigo, atravez de lagrimas 



tf 2 A mulher faial 

de sangue. Dar-me-ha Deus coraçSo que possa ar- 
rancar-se de meu Eduardo ? Sc eu for ser mestra, 
onde deixarei este menino ? . . . A resposta d'esta 
afflictissima interrogação é que eu espero da bon- 
dade divina. Adeus. Escreva sempre á sua amiga 
Philomena. 



~i 



XI 



Ultimo golpe 



^^^ '^^ROCUREi miúdas vezes Antunes, única 
\^ pessoa bem informada em Lisboa das 
j^ paragens dos viajantes. 

No decurso de um anno me mostrou 
algumas cartas de Cassilda, escriptas a occultas de 
Carlos, umas principalmente que desesperavam da 
cura do enfermo, e da sciencia dos médicos de AI- 
lemanha. Carpia-se a correspondente de Antunes, 
magoada pela misantropia de Carlos; mas, ao mes- 
mo tempo, confessava consoladoramente que era 
amada em extremo, e tão necessária como o ar e 
a luz á vida do seu anjo. Referia que elle, no an- 
niversario natalicio do filho, passara o dia e noite 
abysmado cm saudades atormentadoras; por ma^ 
neira que ella chegara a pedir-lhe de m$os postas 
que a deixasse, e voltasse para a sua familia. Ao 
que elle respondera que não iria levar á sua fami- 
lia um cadáver. 



1^4 A mulher fatal 

Em outra carta, dizia Cassilda que estavam de 
viagem para Pariz, onde a levavam esperanças de 
remédio nos milagres operados por um especialista 
de moléstias de peito. 

O ultimo itinerário era voltarem a Lisboa, e 
transportarem-se á Madeira por alvitre do especia- 
lista parisiense. Esta derradeira carta incluia um 
retrato de Carlos Pereira, já mui dififerente do ho- 
mem que eu vira no theatro. As sombras das sa- 
liências ósseas deformavam lhe o rosto. As orbitas 
eram uns grandes anneis negros, como de cadáver 
ao qual regaçassem as pálpebras. Fez-me compai- 
xão e terror. N'aquelle instante, avultaram-me as 
feições d'elle em diversas épocas de sua vida. A 
creança de- 1849 ainda imberbe, o gentil rapaz de 
i853, o homem grave de iSSy. E alli, aos trinta e 
dois annos, morto, morto primeiro nos espíritos de 
honra e humanidade, agonísar assim, longe de es- 
posa e filhos que lhe recebessem no coração o ul- 
timo alento ! 

Volvidos dias, Antunes participou me a chegada 
dos seus amigos, e acrescentou que o pobre Car- 
los, sabendo que eu me interessara pela sua saúde, 
mostrara desejo de vêr-me. 

N'essa mesma hora o procurei no Hotel Central. 

Cassilda passou a outro quarto, quando entrei á 
saleta onde Carlos estava deitado sobre uma otto- 
mana. Sentou-se, quando me viu, abraçou-me com 
alegre semblante. O sorrir d*elle parecia-me a irri- 
tabilidade nervosa operada pelo galvanismo sobre o 
musculo morto. 

— Não estás melhor?... — balbuciei eu, suffocado 
pela dôr e assombro de tamanha desfiguração. 



A mulher faial tyS 

— Muito doente. . . Soffro ha vinte mezes — res- 
pondeu com demoradas pausas. — Poucas esperan- 
ças me restam. Vou á Madeira. Se lá não tiver 
allivio. . . acabou-se tudo. . . E tu. . . vives bem?... 
Estás em Lisboa desde que te procurei na travessa 
dos Carros ? . . . Que mal te tinha eu feito para me 
repellires ? . . . O mal que fiz. . . creio que não che- 
gou até aos meus amigos . . • 

— Os amigos que affligiste com o teu mal de 
certo participaram delle — repliquei, impondo-me a 
delicadesa de o não contrariar. 

— Isso são palavras. Amisade que degenera em 
zelo de phariseus, e que nos impõe obrigações de 
virtude austera, tem parentesco tal qual com a be- 
nevolência dos inquisidores que queimavam os cor- 
pos para salvar as almas . . . tudo por amor ás al- 
mas dos queimados... Ora, meu amigo — prose- 
guíu elle sorrindo ao meu silencio indulgente — o 
apostolado das virtudes sociaes deixa-o aos verda- 
deiros justos ou aos hypocritas bem mascarados. 
Tens sido um franco peccador. . . Não te digo que 
faças confissão publica dos teus erros, no limiar da 
egreja; mas. . . parecia me que a tolerância com os 
teus velhos amigos . . . ensinaria os teus inimigos a 
perdoar-te. 

Sobreestive no meu silencio. E elle continuou: 

— Não te offendas... Tinha precisão de dizer 
isto ao meu único amigo ... No meio das minhas 
desgraças... fataes, e invencíveis... não me era 
pequena dor lembrar-me que não tinha pessoa no 
mundo a quem perguntasse por . . . 

Reteve-se. Os soluços cortáram-lhe a palavra. 
Fitou-mè com os olhos assaltados de pranto, e eu 
entendi a voz que o abafava. 



i7(i A mulher Jataí 

— Querias pcrguntar-me por teu filho? 

— Sim!... — murmurou elle apertando-me nas 
suas mãos trementes e febris a minha, 

— Vive. Ha dias que a senhora D. Philomena me 
escreveu, dizendo-me que Eduardo já lia corrente- 
mente. A menina também vive. 

-Eella? 

— Tua senhora? 

— Sim . • . 

— Não sei o que me perguntas . . . 

— Está resignada ? 

— Sim: resignada. 

Estas ultimas perguntas eram feitas a medo de 
ser escutado. Comprehendi de prompto a conveniên- 
cia de ser parco nas respostas quasi proferidas 
como em segredo. 

— Eu queria. . . — disse elle a meia voz — queria 
sair comtigo até ao campo... Se tu amanhã qui- 
zess6s . « . 

— Com a melhor vontade. 

— Pois vem ao meio dia. Vamos n'um coupé bem 
agasalhado... Este ar do Tejo constipou-me . . . 
Na viagem passei melhor, e quasi sem tosse... 
Aqui, estou peiorando. O vapor para o Funchal sae 
d*aqui a trez dias . . . Estou ancioso por deixar Lis- 
boa. . Vamos amanhã, sim ? 

— Vamos, Carlos. 



A' hora aprasada do próximo dia, saltei do coupé 
no Hotel Central. Cassilda saiu á saleta no mo- 



Á mulher fatal if^ 

mento em que íamos a descer. Elle beijou-a na 
fronte, e disse-lhe, indicando-me á creatura : 
— E' o meu amigo de doze aunos. 

— Ha muito que o conheço de nome — disse ella 
inclinando a cabeça ligeiramente. 

Reparei. Aquella mulher, sem duvida, tinha cho- 
rado. Estava notavelmente desmedrada, pallida, e 
quasi embaciado aquelle verniz de juventude, e ex- 
tincta a brilhante claridade que sâo toda a alma da 
formosura. 

— Que lhe parece Carlos ? — perguntou Cassilda 
— Acha o muito abatido ? 

— De certo ; mas o bom clima da Madeira . . . 

— Tenho muitas esperanças de que elle se res- 
tabeleça. . . — volveu ella. 

Inclinei a cabeça, e dei o braço a Carlos que os- 
cillava de fraco na descida. Entrámos no coupé, e 
mandámos guiar para o Campo Grande. 

— Tens comtigo as cartas de Philomena? — per- 
guntou elle com vehemente desafogo, quando o 
coupé abalou. 

— Não tenho. 

— Queria ver o que ella diz de meu filho. . . 

— O que pôde dizer a virtuosa mulher que é mãe 
amantíssima. Não deves querer ver as cartas de 
tua senhora. Se te restaurares, de volta da Madei- 
ra, t'as mostrarei. 

— Minha mulher terá sofifrido precisões ? — vol- 
veu elle com os seus grandes olhos vidrados de la- 
grimas. 

— Não sei. Vive com a irmã. Se a fome estives- 
se no numero das suas penas, maiores dores que 
as da fome a teriam crucificado, creio eu. Poderá 
ter-se lembrado do futuro dos filhos ; mas, por em 



tjS Á mulher fatal 

quanto, as primeiras necessidades nâo as soífreu, 
tenho d'isso a certeza. 

— O futuro dos meus filhos. . . — repetiu Carlos. 

— Sim. . . 

— Os meus filhos. . . é verdade !. . . O futuro 
dos meus filhos... — repetiu elle muito recolhido. 

— Mas não te concentres agora n'essas previsões, 
Carlos . . . Queres tu ver a tua família ? Queres tu 
que eu chame a Lisboa tua senhora e os meninos? 

— E' tarde, é tarde . . . — exclamou elle muito re- 
concentrado — O que eu queria . . . era viver . . • 
Oh ! . . . se eu me salvasse . . . EUa sabe que eu es- 
tou doente ? 

— Sabe. 

— Amaldicoa-me ? 

— Não : lastima-te. Ensina os filhos a orar por ti. 
— Vês o que é a fatalidade!... — tornou elle, 

apoz longa pausa de muito intima dor — Vês ? . . . 
Lembras- te ?.. . 

— De quê ? . . . 

— Não te lembras de eu te dizer no Porto que 
ainda não tinha experimentado o amor fatal, o amor 
que mata . . . ? 

— Recordo. 

— E então ? viste ? viste, meu amigo, como eu 
me perdi? 

— Vi. E por quem te perdeste ! . . . 

— Cala-te, que me matas ! Perdi-me . . . não sei 
por quem ! . . . O céo ou o inferno que t'o diga ! O 
raio fulminou-me quando eu já cuidava que o berço 
de meu filhinho me fecharia a bocca dos abysmos. 
Eu tinha caido . . . Espantava-me da minha que- 
da .. . A honra e o amor paternal levantavam-me 
pelos cabellos ; mas o coração pesava-me para o 



A mulher faiai Jfg 

fundo da voragem, e atirava-se ás garras d'uma 
infernal voluptuosidade que o espedaçava. Eu não 
posso dizer-te o que esta mulher fez da minha aU 
ma ! Todos os meus instantes eram paixões que se 
abrasavam umas n'outras. Eu tremia de respeito e 
amor debaixo dos olhos d'ella. Erguia-me d'esta 
abjecção por un^ instante, tm quanto a minha ra- 
são m'a mostrava. . . dez vezes perdida. . . dez ve- 
zes infamada . . . Oh ! . . . que despedaçadores ciu* 
mes me deixava este instante de luz ! . . . Ciúmes 
do seu passado atroz, ciúmes da formosa mocidade 
que ella trocou por carruagens, por brilhantes, pe-^ 
los esplendores do escândalo ... Tu comprehendes 
que horror isto seja ? Sabes o que é estar um ho- 
mem a ver as manchas d'uma face adorada, e a 
querer lavar-lh'as com suas lagrimas, e com o seu 
sangue ? Sabes o que é o homem acceitar para si 
o despreso, a deshonra, o remorso, tudo, a ver se 
pôde remir deante de seus olhos e de seu coração 
uma mulher, que nunca poderá, depois de contri* 
cta, apresentar-se ao mundo, e pedir-lhe pefdão 
para o homem que lhe deu sentimentos bons e o 
instincto do bem ? Comprehendes isto ? 

— Carlos — atalhei eu, vendo-o abafar na explo- 
são das desconcertadas idéas — descança ; peço-te 
que não mè expliques o inexplicável. Sei tudo que 
pôde saber se d'um homem na tua deplorável si- 
tuação. Amaste, quanto se pôde, esta mulher. Diz- 
m'o assim singelamente; que a tua historia não é 
original, nem sequer rara. E' uma catastrophe vul- 
gar, mas ainda remediavel. Vae para a Madeira ; 
deves ir; mas leva tua esposa e teus filhos. Os 
cuidados de tua senhora não serão menos afife ctuo- 
sos que os de outra pessoa ; a presença das crean- 



i8o Á mulher faial 

çâs dar-te-ha o doce contentamento por onde a tua 
cura deve começar. Tens a alma enferma de doen- 
ças remediáveis. Saudades, remorsos e talvez a con- 
sciência do opprobrio sâo chagas que fecham 
quando nos sorriem os entes queridos que fizemos 
chorar, e a consciência sente rehabilitada, ao passo 
que as offensas nos sâo perdoadas. Eu te assevero 
que tua infeliz senhora virá para ti com se nunca 
houvesse queixa da tua lealdade. Se a esperança 
de vêl-a não te alvoroça nem a desejas, ao menos 
pensa, prefigura no teu espirito a exultaçâo que has 
de sentir vendo o teu Eduardo, aquelle lindo me- 
nino ao lado de quem ha dois annos ajoelhavas e 
punhas as mãos supplícantes. Deixa que elle venha 
também ajoelhar e orar «o pé do teu leito. 

Escutou-me Carlos Pereira largo tempo, sem ges- 
ticular signaes de importunado. Senhoreou-me a 
desculpável presumpção de ir amollentando e re* 
duzindo o animo do meu amigo, movendo-lhe os 
affectos paternaes, já que a sensibilidade de esposo 
apenas estremecia ferida pela compaixão. 

N'este discorrer, nunca interrompido, chegámos 
á porta do jardim do Campo Grande. Apeámos ; e, 
andados poucos passos, Carlos dobrava os joelhos 
de fatigado, bem que se esforçasse em alongar o 
passeio. Sentou-se, e disse-me com voz débil e 
ainda extenuada do afogo com que tinha querido 
explicar a fatalidade : 

— Ninguém pôde retroceder, depois que a sorte 
o impelliu . . . Para qualquer lado que se volte, en- 
contra a morte. Se recuar, morro ; se não recuar, 
morro também. Os meus filhos não me salvariam, 
se estou ético como meus irmãos. O que elles me 
fariam n'este estado, era exasperar-me as agonias. 



A mulher fatal i8t 

E' tarde, torno a dizer-te que é tarde. Se a tua in- 
tenção é tornar a minha morte mais christã, devo 
dizer-te que a ignominia da morte não me dá mais 
cuidado do que a da vida. Os juizes, que me sen- 
tenciaram vivo, que me sentenceiem morto. 

— Mas . . . — atalhei eu. 

— Deixa-me fallar — contraveio Carlos, espace- 
jando detidamente as palavras. — Se eu tivesse que 
legar á minha familia, e suspeitasse que o morrer 
longe d'ella a prejudicava, chamal-a-ia jpara se apos- 
sar dós meus bens arriscados a furto. Deves saber 
que estou pobre. Se eu morrer, diz francamente a 
minha mulher que nem Cassilda nem ninguém me 
roubou. Fui eu que consumi o pouco que tinha; 
bem pouco, ainda que te pareça absurda esta jus- 
tificação de um pródigo. A' busca da saúde gastei 
alguns contos de réis ; e sabes tu ? escuta, crê, e 
não olhes para mim, procurando me no rosto o ru- 
bor do pejo . , . Vou para a Madeira, favorecido por 
Cassilda. E' ella quem me dá o valor das suas 
ultimas jóias vendidas em Pariz ; e vendeu-as na 
certeza de que estou phtysico, de que vou morrer, 
e ella ficará pobre. Aqui tens uma acção boa da 
mulher a quem só falta a pobresa para que todos 
a insultem ! Que lucrou ella ? em recompensa de 
sua caridade apenas receberá a do hospital. Não 
é preciso muita abnegação ? Diz-m'o tu que estu- 
das as almas pervertidas . , . Não será heroismo o 
da mulher que se sacrifica, sabendo que eu vou 
morrer, e que apoz mim lhe hadc ficar a respon- 
sabilidade de me ter empobrecido, e matado ? Quan- 
do ella passar indigentemente trajada, os que ainda 
a reconheceram, dirão : «Ahi vac a devassa que 
devorou a afortuna' de Carlos Pereira!» Pois aqui 



i89 A mulher fatal 

tens a mulher que eu encontrei ha trez annos com 
mocidade, bellesa, sem coração, mas feliz ; sem 
amigos verdadeiros, mas adorada de todos os ho- 
mens; odiada das mulheres, mas esplendida na 
petulância com que as affrontava. Olha para ella, 
e verás que estás envelhecendo; repara-lhe nos pul- 
sos, não lhe verás uma pulseira; vae ao seu guar- 
da-roupa e encontrarás vestidos que ella d' antes não 
consentiria nas suas criadas. Esta mulher não é mi- 
nha esposa, nem lhe será licito vestir luto por mi- 
nha morte ... 

— Bem sei . . . — interrompi menos commovido que 
o usual dos theatros onde se faz o auto lagrimavel 
da apotheose do vicio redemido pelo amor. — O 
luto hade vestil-o uma viuva chamada Philomena ; 
o luto hãode vestil-o dois orphãos. Philomena está 
a esta hora apressando o ensino de primeiras letras 
de seu filho para o offerecer ao balcão de algum 
merceeiro, que lh'o acceitará, com a condição de 
que elle hade erguer- se ás cinco horas para varrer 
a loja. Os que passaram por Cassilda, e disseram: 
«Ahi vae a devassa que devorou a afortuna, de 
Carlos Pereira» dirão também vendo um menino de 
compleição mimosa carregando fardos: «Alli está 
um filho de Carlos Pereira ganhando o pão negro 
que seu pae dissipou com as devassas!» A pieda- 
de, meu amigo, hade beijar a face do innocente, e 
voltar as costas á criminosa. E' justo, é providen- 
cial que assim seja. Tua senhora vae ser mestra 
de meninas para se amparar a si e a sua filha. Os 
que viram Cassilda, e voltaram o rosto anojados, 
hãode olhar respeitosamente para a filha do conse- 
lheiro«##, para a viuva do desembargador###, e 
dirão : «Aquella mulher que recebe umas sopas e 



A mulher faUú j83 

um tostão diários é a viuva de Carlos Perei- 
ra». 

— Que conclues ? — atalhou o amigo rebatendo 
corajosamente os Ímpetos das lagrimas, e não sei 
se os da ira. 

— Concluo que Cassilda expiará como culpada; e 
que tua mulher e teus filhos padecerão innocentes. 

— Vamos embora, que tenho frio e febre— disse 
Carlos. 

Dei-lhe o braço, entrámos no coupé, e voltámos 
para Lisboa. 

Eu ia profundamente triste e desesperado de o 
restituir vivo ou moribundo á sua família. E, por 
sobre a dor de tão irremediável calamidade, pun- 
gia-me não sei que invencível compaixão de Cas- 
silda. E' que eu tinha sido empestado pelos miasmas 
litterarios d'este penúltimo quartel do século. As 
Adrianas, as Damas das Camélias e das Pérolas, 
laureadas á mingua de virgens authenticas em glori- 
ficações de livros e palcos, com applausos até das 
mulheres honestas, das cândidas noivas, das ma- 
tronas impollutas, e das velhas lagrimosas... em- 
fim, a podridão social distillada em óleos aromá- 
ticos nas retortas dos engenhos mais em voga, con- 
taminaram-me tanto ou quanto. Válido testemunho 
dera eu de tabidez intellectual quando enflorava a 
vala de um d*esses corpos cem vezes vendidos, 
n'um romance que ficou lembrado, e hoje escarne- 
ce outros de muito sã moral que... esqueceram. 



» • * 



Voltei no dia seguinte ao Hotel Central. Disse- 



j84 a mulher fatal 

ram-me que Mr. e Mad. Pereira haviam saído em 
trem. Desconfiei que o meu amigo era mais deli- 
cado dó que eu tinha sido na travessa dos Carros. 

Na verdade eu havia apostolado tão incompe- 
tente quanto inconvenientemente a contricção dos 
peccados, Demasiei-me, talvez, em desluzir-lhe as 
cristali»aç5es do amor, formadas n'aquclla alma, 
ramo desflorido e seco, submerso no lago conge- 
lado, conforme a theoria de Sthendal. A meu ver 
crístalisações de lagrimas só o calor da mortalha as 
degela. 

Por outra parte, doía-me a severidade grosseira 
com que respondera ao ardente elogio de Cassilda. 
Presentia remordcntes pesares, se um dia a en- 
contrasse em Lisboa, abrindo á caridade esquiva a 
magra mão, por onde filtraram ondas de ouro. 
Isto, ainda assim, não impedia que todo o meu do- 
loroso mteresse me chamasse o coração aonde cho- 
rava uma viuva com dois meninos sentados no li- 
miar da miséria. 

Tornei ainda ao hotel. Encontrei-os descendo as 
escadas, seguidos da sua bagagem. 

— Vamos embarcar — disse elle secamente. 
Cassilda Arcourt castigou-mc com um lance de 

olhos coruscante. O meu fraco amigo denunciara 
provavelmente á sua bemfeitora o desafifecto com 
que eu desfizera nas suas virtudes. Se o futuro me 
não despenar d'este remorso, não ousarei mais 
olhar de fito a generosa creatura que desvaliei. Es- 
peremos. 

— Se vaes embarcar, — disse eu encarando-o co- 
mo quem se despede par^i sempre. . . — Adeus ! 

— Adeus, voltou Carlos nem levemente commo- 
YÍdo, 



A mulher faia! i85 

— Vamos depressa, que faz vento aqui — in- 
terveio desabridamente Cassilda, tirando-lhe pelo 
braço. 

— Até á volta — murmurou elle. 

— Adeus, Carlos. 

Permaneci no Gaes do Sodré a vêl-o ir n'um bote 
que atracou ao vapor da carreira açoriana, e reti- 
rei-me quando a multidão dos barcos m'o encobri- 
ram. Chorei com pena e saudade. 

Chegando a casa encontrei uma carta de Philo- 
mena, sem carimbo de terra. Abri-a com alvoroço, 
vi a data : era de Lisboa, escripta n'aquelle mesmo 
dia. Continha isto : 

«Estou em Lisboa desde a madrugada com meus 
filhos. Constou-me que meu marido tinha chegado 
moribundo. Venho despedir-me d'elle, se o puder 
conseguir. Desejo muito ver o meu CarIo3, muito, 
meu amigo. Será crueldade ? Serei repellida ? Dei- 
xar-me-hão levar-lhe as creancinhas? Diga-me se 
isto é um desatino. E, se não é, esclareça-me onde 
elle está. Hospedei-me no hotel da Estrella, rua da 
Prata. Sua obrigadissima, Philomena.» 

Fui sem demora á hospedaria. Encontrei uma se- 
nhora que representava ter muito além dos qua- 
renta annos, e esses bem golpeados de infortúnios. 
Philomena devia ter, quando muito, trinta e trez. 
Metade dos cabellos encanecera. A estatura, que 
tinha sido a sua máxima elegância, pareceu-me di- 
minuída e curvada. Trajava de preto, e menos de 
modestamente. 

Não pude dissimular o meu espanto. Ella conhe- 
ceu-o, sorriu-se e disse : 

— Vê-me ? escuso de lhe contar quanto hei sof- 
frido. Aqui tem uma velha que era ha vinte c seis 



i86 A mulher fatal 

annos uma creança com quem o senhor jogava os 
pinhões. Estou assim. Mas, em compensação, aqui 
tem duas flores que teem as raízes no coração 
d'esta pobre mãe. Veja como estão lindos os meus 
filhos... Estou-os creando assim foimosos para a 
desgraça os envelhecer, passadas mais algumas 
primaveras ... 

Beijei os filhos de Carlos. 

— Minha amiga, disse eu vencida a comnioção — 
recebi n'este momento o seu bilhete. Chegava, 
quando o recebi, de ver embarcar seu marido. . . 

. — Para onde ? ! 

— Para a Madeira. Hontem escrevi a vossa ex- 
cellencia participando lh'o. Se a minha amiga me 
consultasse, dir-lhe-ia que não viesse a Lisboa. Car- 
los não volta aqui, penso eu. . . 

— Foi só? — acudiu ella anciadissima. 

— E, se fosse só ?. . . — condicionei eu por lhe 
adivinhar o intento. 

— Se fosse só, seguil-o-iamos . , . 

— Não foi só, minha senhora. 

— Não?... Pois então... — balbuciou ella — Deus 
vá com elle... Voltaremos, filhos... Não vereis 
mais o vosso pae . . . 

Os dois meninos aconchegaram se do seio da 
mãe com os olhos húmidos. 

— Elle não levou saudades doestes anjos? — per- 
guntou Philomena, com as faces inundadas de 
pranto. 

— Fallou-me d'elles antes de hontem com muita 
saudade. Morre com elles no coração. Também me 
perguntou muito commovido se vossa excellencia 
teria soífrido privações. . . 

^»— Tenho .,.— exclamou ella — mas eu trasjia-lhQ 



A mulher fatal 187 

aqui estas oitenta libras . . . Deixou-me cento e vin* 
te . . . Ha dois annos que vivemos do que falta, e 
do meu trabalho, e da beneficência de minha ir- 
mã. . . Se vê que elle as precisa, ahi as tem, man- 
de-lh'as. 

-^E, depois, estes meninos vão pedir por por- 
tas ... 

— Irei eu com elles . . . 

— Minha senhora, quando este dinheiro chegar 
ao Funchal, seu marido estará morto. Pensemos 
no seu destino, senhora D. Philomena. Este di- 
nheiro é uma base pequena para edificar futuros ; 
mas vejamos o que hade fazer-se. Vossa excellen- 
cia volta para a companhia de sua mana ? 

— Se não tiver outro remédio. Minha irmã está 
pobre : o marido acabou de arruinar-se no jogo, e 
vem a Lisboa pedir um baixo emprego nas estra- 
das. Outra minha irmã enviuvou ha trez mezes em 
Bragança. O marido era um general que nem mon- 
te-pio deixou. Ouvi dizer que alguns deputados 
vão pedir uma pensão para ella. Estamos assim 
todas. 

— Dá-me então vossa excellencia a permissão de 
pensar no seu futuro até amanhã ? 

— Pense n'estas duas creancinhas. . . pense de 
modo que ellas não sintam fome, se eu morrer. 



Um mez depois, Philomena era recebida n'um 
collegio de educação como professora de piano, e 
coadjutora da mestra de francez. Sua filha foi com 
ella, e Eduardo entrou como pensionista n^urn col- 



i88 A mulher fatal 

legio dirigido por um venerando sacerdote que da- 
va ás creancinhas pouco abastadas ensino quasi 
gratuito. 

Nâo assisti ao lance da separação. - Devia de ser 
constemador! Mas, todos os domingos, Eduardo 
ia ver sua mâe e passear com ella e sua irmã. 

As proprietárias do collcgio affeiçoaram-se por 
maneira a D. Philomena que a consideravam mais 
sua sócia que assoldada para o ensinamento. N'este 
viver pacifico e distraido pelo trabalho, a esposa 
de Carlos recobrou-se algum tanto, pelo que diz 
respeito ao vigor do espirito ; quanto ao corporal, 
a velhice parecia medir-lhe as horas pelos annos 
das pessoas felizes. 

Obtive, entretanto, que um amigo indagasse no 
Funchal noticias de Carlos Pereira. Li uma carta 
em que se respondia ás informações pedidas. Os 
médicos da terra julgavam-n'o doente irremediável, 
e queixavam-se da barbaridade com que os de Lis- 
boa sujeitavam um moribundo ás duplas agonias 
do enjoo do mar. 

N'outra carta annunciava-se a súbita partida de 
Carlos para Lisboa, no mesmo barco em que vi- 
nha a carta. 

Occultei esta noticia de Philomena. 

Procurei Antunes inutilmente durante trez dias, 
nas casas de tavolagem onde este amigo de Car- 
los pernoitava. Disseram-me que elle, acamarada- 
do, com dois representantes de viso-reis da índia, 
tinham roubado em fraudulento jogo a um marquez 
hespanhol, argentario celebrado em Portugal, vinte 
mil libras ; e, depois da façanha, dividido o saque, 
se haviam emancipado das espeluncas ordinárias, 
passando a jogar em casas titulares. 



A mulher fatal j8g 

Pude topar Antunes em uma casa titular, onde 
entrei juntamente com um alquilador, mais relacio- 
nado na casa do que eu : d' onde inferi que o se- 
nhor Antunes condescendia com o eclectismo do 
fidalgo que «dava tavolagem na mesma sala onde 
tremiam de indignação, pendurados nas paredes, 
onze retratos de condes. 

Chamei de parte o licito salteador do marquez 
hespanhol, e perguntei-lhe se sabia onde morava 
Carlos Pereira em Lisboa. 

— Olhe, meu caro senhor, eu tenho aqui uma 
carta d'elle, que hontem recebi, mas ainda não tive 
occasião de o procurar. O homem, segundo en- 
tendo d'esta carta, vem muito mal de fortuna. 
Leia lá. 

Recordo me do essencial da carta. Dizia que peio- 
rára, e se sentia nas ultimas ; que precisava ir para 
ares de campo; mas apenas tinha meia dúzia de 
libras. Não pedia empréstimo nem esmola ; mas 
rogava ao seu amigo Antunes que lhe arranjasse 
vinte libras sobre o seu relógio de patente e uma 
abotoadura de diamantes. Terminava dizendo que 
se hospedara no «Hotel das duas Irmãs», rua do 
Arsenal. 

— Vê-se que está bastante necessitado... — dis- 
se eu tomando nota do hotel. 

— Pois que quer ? — observou o senhor Antunes, 
inquieto, relançando a vista ávida ao grupo dos jo- 
gadores. — Carlos é um doudo varrido . . . Não tem 
cinco réis de juizo . . . 

— Nem de pão, d*aqui a pouco — accrescentei 
eu, medindo aquelle infame que comera por espa- 
ço d'um anno os lautos jantares de Carlos. E o 
senhor Antunes não está disposto a favorecei- o? 



igo A mulher fatal 

— Ah ! sim, eu não duvido dar-lhe alguma coi- 
sa. . . Se o senhor vae para lá, leve-Ihe esta nota 
de quatro libras . • . 

— Entregue-a ao gallego que lhe trouxe a carta 
— disse eu repellindo a nota* 

— O senhor offende-se?! — acudiu elle* 
Não repliquei* 



Entendi que esconder este acontecimento de Phi- 
lomena era prival-a da consolação de soccorrer seu 
marido. Quando, ao deante, ella soubesse que eu, 
sem poder justiíicar-me, occultára da sua santa a^ 
ma a miséria do pae de seus filhos, sobeja rasão 
teria de arguir-me. 

Fui, pois, n^aquella mesma noite ao collegio e 
tudo lhe referi. 

A consternada senhora, sem me responder, abriu 
uma gaveta, e deu-me uma saquinha, dizendo : 

— Pouco tirei d'ahi. Paguei trez mezes no colle- 
gio a Eduardo, fiz algum fatinho aos dois peque- 
nos ; o resto ahi está. Se me quizer fazer a esmo- 
la de lh'o mandar. . . 

— Levarei parte d'este dinheiro. ... 

— Todo, todo. 

— E o collegio de seu filho, minha senhora ! 

— O que Deus quizer. Pedirei a estas senhoras 
que me adeantem alguma coisa do meu ordenado, 
quando for tempo. Vá, vá, por quem é, levar-lhe 
o dinheiro. 

Quando recebi o saquinho, senti o religioso fer- 
vor de beijar-lhe a mão. 

Annunciei-me na hospedaria* 



Á mtãher fatal igi 

O criado voltou dizendo que o senhor Carlos 
estava descançando. 

— Quem lh'o disse ? perguntei. 

— A senhora d'ellê. 

— Diga a essa senhora que eu preciso fallar* 
lhe. 

— Voltou o criado : 

— A senhora manda dizer que não conhece o 
senhor. 

Maravilharam-me os brios de Cassilda, e que* 
dei-me alguns instantes perplexo. 

— O dono da casa ? 

— As donas da casa estão com a senhora do 
hospede. 

— Chame-as, que preciso dar-lhes um recado. 
Voltou o criado e conduziu-me a uma sala". 
Entraram duas lépidas damas, que deviam dar- 

se intimamente com Cassilda, segundo inferi de 
seus ademanes e tregeitos. 

— Sinto incommodal-as, minhas senhoras. Sou 
portador de setenta libras para o sr. Carlos Pe- 
reira. Preciso entregar-lh'as hoje. Fazem-me obse- 
quio de recebel-as, e entregar-lh'as ? 

— Pois não ! . . . 

— E dizer ao senhor Carlos que lh'as envia a 
mãe de Eduardo Pereira ? . . . 

— De Eduardo Pereira ? 

— Sim, minhas senhoras ... 

— Hade querer recibo ? 

— Se elle está descançando . . . 

— Não ... — gaguejou uma* 

— Elle está acordado ... — gaguejou outra. 

— Esteja ou não, dispenso o recibo* Minhas se-^ 
nhoras, boa noite ! 



jg2 A mulher fatal 

Esperava eu receber pela posta interna carta de 
Carlos a chamar-me com as anciãs de uma alma 
muito agradecida á caridade da esposa ; esperava 
que elle desejasse, pelo menos, saber se seu filho 
estava em Lisboa ; e que posses tinha Philomena 
para generosidade tamanha e tanto a ponto. 

Ao quarto dia suspeitei que elle tivesse expi- 
rado. 

Mandei indagar no hotel, e soube que tinham sal- 
do para fora da terra. Fui informar-me com as 
duas irmãs, e encontrei-as enfurecidas contra Cas- 
silda, em rasâo de saberem, á ultima hora, quem 
ella era e tinha sido. 

— Uma libertina de tal raça encampar-se como 
esposa do tal seu amigo ! — exclamava uma das 
irmãs. — Gassilda Arcourt ! quem não conhece em 
Lisboa a Cassilda, que arruinou mais de uma dú- 
zia de rapazes do tom ! 

— Só rapazes? — aggravou a outra. E velhos ! ? 
Não te lembras do conde de *** e d*aquelle velho 
que se afogou, quando éramos pequenas? 

— E atreveu-se a procurar um hotel honesto ! — 
voltou a outra encolerisada. 

Tive de enfrear os impulsos do riso, desafiados 
pela proverbial honestidade d'aquella estalagem, 
cujas donas tinham corações adequados ao officio, 
estalajadeiros a mais não ser. Cassilda, condemna- 
da n'aquelle tribunal, não tinha já onde levar re- 
curso de revista. 

— Queiram dizer-me . . . —perguntei eu edificado 
da verecundia e pudicícia de taes damas — que dis- 
se Carlos Pereira quando recebeu o dinheiro ? 

— Perguntou quem o mandava muito espantado, 
e ficou a olher para Cassilda, e ella para elle. De- 



A mulher fatal igS 

pois saímos. A mana esteve a escutar a ver se per- 
cebia o espanto da homem, e. . . 

— Pareceu-me que o Carlos chorava, e ella não 
dizia palavra — concluiu a outra. 

— Nó dia seguinte — proseguiu a mais palavrosa 
— a Cassilda saiu para alugar casa no campo, c 
voltou á tardinha, dizendo que já tinha ca^a em 
•Gaífípolide. Começou logo a enfardelar a bagagen^ 
t hdntèm á tarde partiram. O Carlos custou-lhe 
ibuito a descer as escadas. Um hospede, que nós 
cá temos, ia a passar e o£Fereceu-lhe o braço; c 
foi esse hospede quem depois nos contou a bella 
jóia que nós cá tínhamos tido. Elle conhecia Cas* 
silda desde o tempo em que ella ainda se portava 
bem na casa do pae que teve hotel na rua Augusr 
ta, e contou-me que estava lá hospedado quando 
ella fugiu com um francez, e veio depois casada 
com outro. Se o senhor quizer saber a vida toda 
da tal pezêta o nosso hospede conta-lh'a. 

— Obrigado, minhas senhoras. Sei de mais. 

Despedi-me d'estas recreativas mulheres, louvan- 
do a Deus conservar- se ainda, e onde a gente me? 
nos o espera, alguma reliquía do amigo pudor por* 
tuguez. 



^ DiJPhilciihena. pedia-me instantemente que des- 

cobrisseí.dm' Campolide a pousada do marido. Não 

havia dissuadil-a de vêl-o e levar lhe os filhos! Pfo- 

fuiidafFmatjEíríareHgiosa, est^ senhora desejava que o 

enfermo não saisse.d'este mundo senci os soccorros 

da egreja e o seu perdão. Seria crueza^ se não 

perversidade, impugnar- lhe tão santos sentimentos; 

i3 



ig4 Á mulher fatal 

cu, porém, de mim para mim, cuidei sempre que 
a presença d'ella e filhos apressaria o trespasse de 
Carlos, para quem o viatico e o perdão eram actos 
nem sequer lembrados como benefícios para a vida 
futura. 

Andei pessoalmente averiguando a residência de 
Carlos. Imaginava-o eu n'alguma das graciosas e 
floridas vivendas que por ai li alvejam por entre 
Tcrduras. Ahi é que eu o procurava, tirando incul- 
cas de visinhos. Ia retirar me desesperançado de 
cncontral-o, quando na revolta de um atalho, me 
saiu de rosto Carlos na janella única de um case- 
bre de pobre apparencia. Parei a olhar para elle, 
ainJa mal seguro de que o fosse, quando Carlos me 
disse : 

— Sou eu, sou; entra por essa cancellinha da 
liorta.. • . Desejava não morrer sem te dizer adeus... 

Subi, e entrei n'uma salinha, contigua de uma 
alcova ... As paredes do quasi escuro recinto esta- 
vam ornadas de registos e veras effigies de san- 
tos, uns encaixilhados, outros grudados na cal. Vi 
um velho canapé de palhinha e duas cadeiras. So- 
bre o canapé se reclinou Carlos, amparando-se nos 
travesseiros. 

— Qui triste casa escolheste! — disse eu. 

— NSo é boa para se viver n'ella; mas é óptima 
para quem morre. Como ante-camara de sepultura, 
tem bastante luz e adornos de mais. Este palacete 
é de uma lavadeira que mora aqui por baixo. . . — 
disse elle sorrindo. 

— Mas . . . —interrompi pressurosamente — não ti- 
nhas recursos para melhor casa ? 

— Não. 

— Não recebeste, ha quatro dias . . . ? 



A mulher faijt jg5^ 

— Setenta !!bras ? Recebi ; mas ... se eu viver 
seis mezes, onde irei buscar recursos ?• • . 

— Estranho esse espirito de economia que te vi- 
sita pela primeira vez ! . . . Vives sósinho ? 

— Não. Cassilda foi a Lisboa procurar o doutor 
Barrai. . • Tenho que te pedir perdão de me negar 
duas ou trez vezes quando me procuraste. Cassil- 
da suspeitou que eras inimigo d*ella... Depois dó 
nosso passeio ao Campo Grande. . . odíava-te. 

— Que me faz isso ? Eu não a odeio. As tuas in- 
felicidades procedem de causas mais elevadas. Cas- 
silda na tua existência representa apenas. .. uma 
mulher. Saibamos, visto que estamos sôsinhos: 
queres ver tua senhora? 

— Onde está ella ?-r- perguntou serenamente. 

— E' professora de piano e francez n'um collegio. 
— Essa infeliz... — volveu Carlos mais abalado 

— deu-mc a esmola das suas economias. . . 

— Não: era parte do dinheiro que lhe tinhas dei- 
xado. 

^ — Dize-Ihe que, se ha Deus, ella será recompen- 
sada. 

— Ji é. Tua senhora principia a sua glorificação 
n'estc mundo. Deus também se manifesta áquem 
da morte. 

— E os meus íilhos? o meu Eduardo? 

— Está n'um collegio. Desejas vel-o ? 

— Ardentemente. Se fosse possível... 

— Eu te direi um dia em que esteja só. 

— Isso é miserável! Que tem que Cassilda veja 
o teu filho? 

— E* verdade. . . tens rasão. . . O meu filho pó- 
^e vir . . . 



igõ A mulher fatal 

— E tua senhora ? e a tua menina ? 

— Ora não vês que será isso matar-rae ? Que 
direi á desgraçada ? que me dirá ella a mim ? Não 
observas o meu estado? Isto está por dias... Quan- 
do me viste á janella, tinha eu chegado momentos 
antes, porque receei morrer asphyxiado n'este ca- 
napé. Tenho ataques de abafação que me levam ao 
extremo de cuidar que é chegada a hora. 

— E sentes alento para receber o teu filho ? 
— Receio morrer. . . mas, se morrer. . . 

E rompeu a chorar em pranto desfeito. 
Eu fiquei como tranzido de dor, olhando para elle, 
sem inspiração de palavra consolativa. 

— Não, não quero ver o meu filho I — exclamou 
Carlos de golpe. — Espera que eu me levante does- 
ta prostração; qaando eu estiver melhor, então me 
farás o favor de m'o trazer. Iremos dar um pas- 
seio a Bellas ; leval-o comtigo, e eu vou lá ter. Eu 
não queria magoar esta pobre mulher que me não 
hade sobreviver muitos dias... 

— Quem ? — perguntei, vencido pelo espirito de 
irónica incredulidade. 

— Cassilda. 

Sorri involuntariamente. Carlos franziu o sobr'- 
olho, e murmurou com rancor : 

— Sê bárbaro para ella ; mas sê também deli- 
cado para os moribundos. 

— Não te affli jas, Carlos * . . — Volvi eu algum 
tanto corrido da penetrante admoestação. — O teu 
filho virá quando tu ordenares. 

— Pois sim — disse elle esquivamente. 



A mulher Jataí ip/ 



Relatei o dialogo a Philomena, instando-a a que 
não tentasse vêl-o. Pareceu-mc que a convenci; 
pelo menos, obriguei a a não argumentar com as 
suas clausulas de sacramentos e perdões, idéas que, 
ás vezes, me tornavam suspeita a lucidez intelle- 
ctual d'esta senhora... Apresso-me a repellir a 
calumnia de algum mal-intencionado. Os sacramen- 
tos e os perdões considero-os sacratíssimos, quan- 
do se pedem. Ungir um moribundo inconscio, ou 
perdoar a um culpado incontricto são documentos 
falsos para a salvação de uma alma. Philomena 
theologizava d'outro feitio, e talvez estribada em 
boas auctoridades. 

Um dia recebi um bilhete de Carlos Pereira n'es- 
tes termos: «Quero ver o vazw Eduardo; mas en- 
€ carrega algum criado do coUegio de o conduzir. 
«Desculpa me. O meu fim é não aguar o jubilo de 
«o ver. Entende-me, meu amigo...» 

Entendi- Cassilda teimava em odiar-me, e eu 
apenas podia despresal-a, reservando o meu arre- 
pendimento para quando ella justificasse os dra- 
mas e os romances da escola, onde ella aprendera 
a parecer sublime. 

Communiqueí o bilhete a D. Philomena, que se 
encarregou de mandar o menino com um criado 
do collegio. 

A virtuosa senhora . . . mentiu. O termo é duro ; 
mas perdoe-m'o a sua piedosa indulgência. Os san- 
tos também se desviaram do prumo da verdade, 
quando a inexactidão aggravava o seu martyrio. 
Saiu Philomena com os seus dois filhos, cami- 



jpf A mulher faial 

nho de Campolide. Deu informações ao boleeiro, e 
colheu outras d*uma lavadeira, que succedcu ser a 
senhoria de Carlos. 

, A sege ficou na estrada. Era estreito o quinchô* 
so por onde a lavadeira ia guiando a senhora, e 
contando-lhe os disvelos com que D. Cassilda tra* 
tava o marido. 

— O marido . . • d'ella ? — perguntou Philome» 
na. 

— Sim, eu acho que elles são casados, — disse a 
mulher — mas, se não são, por alma lhe preste... 
Ou não são ? perguntou a lavadeira, cruzando os 
braços, e parando cm frente da senhora. 

— Vamos... — disse Philomena. Andae, filhos. 

— Acho que não são casados... tornou a mu* 
Iher. — Por isso hontem os dois médicos que cá 
vieram, quando elle esteve a dar a alma ao seu 
Creador, iam a dizer por aqui fora: tEm que mãos 
caiu este desgraçado !» Então pelos modos as mãos 
eram as da tal D. Cassilda!... Querem vocês 
ver ? . . . 

Dados alguns passos, a lavadeira mostrou a sua 
porta a D. Philomena, dizendo : 

— A entrada é pela cancella da horta ; mas a se- 
nhora pôde ir pela loja onde eu moro, e subir pela 
escada de dentro, que eu tenho a porta fechada 
por cá. 

Philomena entrbu convulsa, sentou se n'uma arca, 
por não poder suster- se, chamou para junto de si 
os meninos ; e, pondo o dedo indicador sobre os 
beiços, parecia escutar. 

Em quanto ella recobra animo, vejamos o que 
passa em cima. 
. Ao anoitecer do dia anterior, Carlos, agitado em 



A mulher fatal igg 

extrema anciedade, disse á consternada enfermeira 
que sentia a morte ou a necessidade de se matar. 
Os tubérculos estendendo-se até ao mcsentério cau- 
savamlhe grandes dores, ao mesmo tempo que a 
díspnea lhe angustiava a respiração. Cassilda, co* 
mo, durante o dia, ouvisse Carlos repetidas vezes 
fallar no filho, suppoz que as peioras da doença 
prendiam com a saudade. Assim que foi dia, par. 
tiu ella para Lisboa a chamar o medico, e levou o 
bilhete de Carlos que me foi entregue por um gal* 
lego. O medico tinha saido meia hora antes de Phí- 
lomena chegar, deixando o doente mais socegado, 
e meio adormecido com muito sensivel allivio. Não 
obstante, Cassilda, pedindo ao doutor, e obtendo a 
mais sincera opinião sobre o estado de Carlos, pre- 
parou-se para o ver morrer na próxima noite ou 
por todo o dia seguinte. Na occasião em que Phi- 
loraena se sentou, escutando, estava Carlos vestido 
e deitado no colchão posto ^obre o pavimento. 
Cassilda, sentada á cabeceira, amparava lhe a ca- 
beça n'um dos braços, e com a mão do outro des» 
empastava-lhe os cabellos húmidos de sobre as fon- 
tes. 

— Olha que me sinto muito bem. • . — dizia elle. 
— Tenho somno... creio que vou adormecer.. . 
deita me no travesseiro a cabeça. .. 

— Adormece no meu braço — dizia ella. 

— Não, que te incommodo, minha pobre filha. 
Este dialogo ouvia-se na loja da lavadeira, atra- 

vez de ura tabique fendido que formava o mainel 
da escada interior. 

Philomena ergueu-se energicamente, proferida a 
ultima palavra do marido, e disse : 

— Abra-me a porta . . . 



400 A mulher fatal 

Quiz ella seguir a mulher ; mas. os joelhos do- 
braram-se-lhe sobre o ultimo degrau da íngreme es- 
cada. 

A lavadeira abriu a porta, que nunca tinha aber- 
to, e" disse para baixo: 

— Quem heide dizer que procura o senhor Carlos ? 

— Que é ? ! — bradou elle espantado de ver abrir- 
sc aquella porta pela primeira vez. 

E, como Philomena não respondesse á pergun- 
ta, a senhoria, satisfazendo á anciedade do doente, 
disse : 

— E* uma senhora com um menino e uma menina. 

— Ah! exclamou Cassilda levantando-se de sal- 
to, em attitude de fugir. 

— Onde vaes, filha? — rouquejou Carlos, erguen- 
do-se a meio corpo. 

— E* tuà mulher e teus filhos ! — segredou ella in- 
clinando-se-lhe ao ouvido. 

— E' impossivel ! . . . é impossível ! — bradou o 
moribundo esticando se sobre os braços que ver- 
gavam debaixo do tronco. 

— Suba, minha senhora — dizia a lavadeira. 
N'este lance, Cassilda Arcourt correu turvada- 

mente para o quintal. 

— Vem cá! não me fujas, não me fujas, que eu 
morro, Cassilda!... — bradava Carlos, cm pé, camr 
baleando, com as mãos recurvas na cabeça. 

Philomena subiu mais alguns degráos, levando 
os meninos adeante de si, e disse soluçando a 
Eduardo. 

— Entra, meu filho, entra. . . vae ver teu pae... 
O menino entrou medroso e quasi impellido pela 

lavadeira; mas, á vista d'aquelle pavoroso homem 
de compridas barbas, em pé, com os olhos spas- 



A mulker fatal sor 

módicos, sem algum vestigio de seu pae que não 
lhe esquecera^ fez pé atraz para fugir de aterrado. 

Carlos, ao vêl-o, exclamou : 

— E's tu, meu filho?., . és tu? Vem cá, Eduar- 
do!... 

E deu dois passos vacillantes no táboado com os 
braços estendidos para a creança. 

N'este instante, Philomena assomou ao topo da 
escada com a menina, e correu para elle levando 
cada filho por sua mão, e bradando : 

—•O' Carlos ! ó filho da minha alma !. . . 

O moribundo recuou, teve-se em pé um instante 
em convulsões, caiu em joelhos, estendeu um bra- 
ço proferindo «Eduardo» mas já o não via, por que 
a sua mão pousara no rosto da menina. Philomena 
achegou lhe do peito o filho; elle inclinou a face 
como se quizesse beijal-o; mas nos lábios de Car- 
los o que estremecia então era o ultimo alento. A 
face desceu, desceu, até encontrar o amparo do 
braço de Philomena, 

Estava morto. 



Vae, martyr e algoz ! Vae, alma funesta que com- 
pendiaste no derradeiro instante as agonias de treze 
annos! Esse teu acabar, se não fosse instantâneo, 
seria o maior supplicio que viram homens ! Eu não 
sei se em tuas pupilas mortas ficou espelhada a 
imagem da mulher que deixaras bella, e ahi viste 
envelhecida e rugosa, como phantasma vingativo! 
Ai ! não era ! Lagrimas de amor misericordioso eram 
essas que ella verteu na tua face fria ! 

Vae, suicida, que primeiro arrancaste de tua ai- 



209 A mulher fatal 

ma todos os liames que podiam honrar e santificar 
tuas dores. Ao teu ultimo lampejo de luz, viste a 
victima entre dois anjos; olhaste em ti, e viste o 
opprobrio, a repulsão, o morrer entre o remorso e 
a blasphemia talvez ! 

Vae, creança, que choraste, orphã aos oito annos! 

Vae, coração aberto em flor, que, á primeira pair 
xão, te encheram de torpe fel. 

Vae, esposo d'um anjo resgatado, antes que a 
peçonha de teu coração lhe inoculasse a morte. 

Vae, ó pae extremosissimo que choravas e ora- 
vas ao pé do leito de teu filho, e ahi mesmo pre- 
sentias o crepitar distante da aza negra da paixão 
fatal que te havia de entranhar no peito farto lodo 
amassado em sangue. 

Desfa2-te ahi n'essa vala obscura, aos trinta e 
trez annos, homem que apenas tiveste uma lagrima 
de estranhos, e o reparo glacial do coveiro, que, 
no recalcar da enxada, parecia querer esmagar os 
embriões d^alguma ervinha que podesse reverdecer 
da tua leiva. 

Dae-lhe, ó Senhor, o repousar infinito, se para 
estes desgraçados não ha em tantos milhares das 
vossas estrellas um reviver nos resplendores da 
luz perpetua ! 



Conclusão 



<S^^^^^HiLOMENA saiu apoz o cadáver do ma- 
y^ rido. 

Jt. A gente do campo viu passar um 

esquife em uma seje ; e depois, em ou- 
tra, duas creanças que amparavam a cabeça de sua 
mãe • • • 

Aquelle espectáculo silencioso tinha a singela so* 
Icmnidade que faz chorar. 

E o povo chora, quando entende as angustias as- 
sim despidas de visualidades. 

A viuva, ao separar-se da sege que se apartava 
para o cemitério dos Prazeres, disse aos filhos : 

— Dizei-lhe adeus ! 

E o mais velho, descobrindo-se, murmurou: 

— Adeus, meu pae !.. . 






Eram passados seis mezes, quando os jornaes 
de Lisboa e Porto imprimiram o seguinte annuncio : 



204 Á mulher faial 

Em Lisboãy na rua dos Capellistas^ iio^ precisa 
fallar-se ao illustrissimo senhor Carlos Pereira^ 
sobre objecto do seu interesse. 

Fui auctorisado pela senhora D. Philomena a 
procurar o annunciante. 

— E' o senhor Carlos Pereira? — perguntou-me 
um respeitável capitalista. 

— Carlos Pereira morreu, ha seis mezes. 

— Sim ? E quem deixou ? 

— Viuva e dois filhos. 

— Estão em Lisboa ? 

— Sim, senhor. 

— Pois que se habilitem para succedercm na he- 
rança de um tio de Carlos Pereira, que deixa toda 
a sua € fortuna» ao sobrinho, ou filhos de seu so- 
brinho se elle não viver ; e além d'isso, deixa um 
legado especial de trinta contos a seu afilhado Eduar- 
do, que penso ser um dos pequenos. 

— E'. Qual «fortuna» calcula vossa senhoria que 
seja a dos dois filhos de Carlos ? 

— Não sei ; mas o que posso dizer-lhe é que o 
primeiro dos tios que morreu deixou ao segundo 
que morreu agora trezentos contos fracos. Poder- 
se-ha dobrar a herança, sem lhe errar uma dúzia 
de contos. 



Levei esta noticia a D. Philomena. 

Cuidava eu, homem de instinctos pecuniosos, que 
a viuva, no auge do seu jubilo, solfreria alguma 
syncope. 

Contei o caso com as mais engenhosas precau- 
ções, afim de evitar o embate súbito da fausta nova. 



Á mulher faial 2o3 

Ouviu-me com serenidade, e disse afinal a viuva: 

— Ainda bem que Deus se apiedou dos meus fi- 
lhos. Veja o meu amigo que descançada vida re- 
servava a Providencia para o meu pobre Carlos! 

— Vossa excellencia provavelmente sahe do coUe- 
gio... — disse eu, maravilhado do frio desprendi- 
mento d'esta senhora. 

' — Não, meu amigo. Porque héide eu sair?... 
Se não tivesse encargos e obrigações, teria estala- 
do de paixão. O trabalho é preceito e remédio di- 
vino. Estas senhoras teem sido para mim duas 
santas amigas. Aqui ficarei com minha filha, onde 
a sua educação hade continuar como se houvesse 
de ser pobre. Quando eu era collegial no Porto, 
meu amigo, suppunha-me das meninas mais ricas 
e esperançosas de afortunada vida. Afinal, vim 
aqui converter em pão o que lá aprendi como pren- 
das necessárias a uma senhora de boa sociedade. 
Desejo, portanto, que minha filha nunca se per» 
suada que um grande dote em dinheiro é mais se- 
guro que o direito do trabalho ao estipendio. Quan- 
to a meu filho.,, pedirei a Deus que o brilho do 
ouro lhe não deslumbre o espectáculo da morte de 
seu pae. Estou preparando para elle um livro.. • 

— Um livro?! Escripto por vossa excellencia? 

-^ Sim. E* a vida do meu marido. Quando Eduar- 
do tiver dezesseis annos, dir Ihe-hei : «Este manu- 
scripto ajunta o á tua herança. E' o dote que rece- 
bes de tua mãe.» 

Eduardo Pereira tem hoje quinze ann.^s. 

E' natural que este Hvro alumie a obscuridade c 
explique os discretos silêncios do manuscripto de 
sua mãe. 



EPILOGO 



C&sstlda ireourt 




morte c uma pavorosa chimera. 
Não ha morte. A alma é faisca da luz 
eterna. O corpo é molécula da maté- 
ria universal. Esta palavra da philosophia é novis-* 
sima com dois mil annos de idade. 

Não ha morte nem vida : ha formas. Isto também 
é novo. Disse-o Heraclito, depois Aristóteles, de- 
pois eu. D'aqui a trez séculos este axioma torna a 
ser novissimo. 

Mas a morte, no entender de theologos, de fa- 
bulistas, de poetas e auctores de necrologias, existe. 

Figuram*n'a muito mana e acamaradada com os 
conquistadores que juncam de cadáveres a terra. 
Dão lhe como armas a fome e a peste, os dilúvios 
e as séccas, as paixões homicidas e os livros esta- 
fadores. 

Semelhante allegoria tem que ver com Cassilda 
Arcourt. Esta mulher foi instrumento da morte : 



ao8 A mulher fatal 

embora a pathologia assevere que as suas víctíma^ 
falleceram de aneurisma, de asphyxia, de tuber 
culos, de anazarcas. 

Cassilda, a exterminadora, tinha direito á bem- 
querença da Fatalidade que lhe ervára o punhal 
cora que ella coava aos corações as nevralgias di- 
lacerantes. 

Chegou a hora do premio. 

Sentia- se Cassilda a envelhecer aos trinta e cinco 
annos, e os seus últimos vestidos a esphacelarem-se. 

Vivia n'um quinto andar, onde a fome ia tre- 
pando. 

E completamente esquecida. 

Nem ódio nem caridade se lembravam d'ella. 

Mas, ás vezes, sentia rebates do seu passado e 
murmurava: tSe eu quizesse...» 



Retrocedamos. 

A lavadeira tinha perguntado á viuva de Gârloa 
se era d'ella, se de Cassilda o espolio do mono. 

— Nada tenho aqui — respondeu Philomena; 

Levado o cadáver, entrou Cassilda com uma mu« 
Iber que a tinha agasalhado quando fugia. 

Abriu a gaveta de uma commoda, e encontrou o 
restante dinheiro que Philomena enviara ao marido. 
Embolçou-o. 

Fechou as suas malas, e saiu para Lisboa*i ^ 

A senhoria do casebre me contou depois 'que Cas- 
silda expedia uns gritos aíHictissimos, e faz/ia ácda- 
mações espantosas, em quanto enfardelava -á sua 
bagagem. 

— E Philomena que fez? perguntei eu. 



A mulher fatal 20'g 

— Só se lhe viam as bagadas no rosto como pu- 
nhos ; mas palavras nem uma nem duas. 

Cassilda tinha uma irmã que não vira no decurso 
de dezoito annos. Era a proprietária do hotel de seu 
pae, c casara honradamente. 

Procurou-a e pediu lhe o seu amparo. 

A irmã queria recebel-a condicionando-lhe que 
ncrh diria o seu nome nem se deixaria ver dos seus 
hospedes. 

Cassilda acceitava; mas o cunhado expulsou-a, 
dizendo que tinha filhas, e que as não queria em- 
pestadas, nem a sua casa infamada. 

A expulsa não se entendeu a si, nem entendeu o 
mundo, como era de esperar da sua congenial es- 
perteza e leitura. Estavam ainda actuando n'ella as* 
novcllas das rehabilitaçõcs, a alchimia dos que pro- 
mettem converter lodo em diamantes e tirar de es- 
gotos fragrâncias. Não obstante, quando saiu aflVon- 
tada da casa de seu cunhado, disse entre si tQue 
desgraçada me fez Carlos! Onde elle me deixou!» 

Alugou quarto n'um quinto andar, confiada no 
anicjui lamento, antes que se lhe esvaísse a bolça 
que trouxera de Campolide. Uma noite, acariciou-a 
a idéa do suicidio. Ergueu se febril. Mirou-se n'um 
espelho de viagem, e achou-se bella. Olhou á volta 
de si, e viu os seus vestidos de setim antiquados e 
desmerecidos, e as suas caixas das jóias, vasias. 
tQue importa ser bella? disse Cassilda á sua im?- 
gcm — o homem que olhar para os teus vestidos 
avaliará por elles a tua formosura. Mata-te, mise- 
rável, antes que a fome te envelheça!» 

A morte, para dissuadir a sua cúmplice, fez-lhe 
uma temerosa carranca, e sacudiu-lhe os nervos 






2i90 A muiher fatai 

horrorisados. «Não tenho coragem!» murmurou 
Cassilda olhando para duzentas cabeças de fósforos 
diluidos n'um cálix d^agua. 

Remirou-se no espelho e disse:- 

fSe eu quizesse. .-» 



Três mezes depois doeste colloquio com o espe- 
lho em um quinto andar d'uma travessa esquálida 
do Bairro Alto, entrou no Passeio do Rocio, ás dez 
da noite, uma senhora arrastando a cauda de uma 
capa escarlate com borlas pretas. Os grupos de ho- 
mens atravessavam-se no passeio central para a ve- 
rem repassar com o entono, com a magestade, com 
o ar de realeza antiga que dá uma capa roçagante 
a uma mulher que mesura os passos como as rai- 
nhas trágicas. 

Eu estava a um lado, conversando com uai comt- 
panheiro de collegio de Carlos Pereira sobre as 'en- 
cadeadas desventuras do nosso amigo. 

Como sou muito myope, disse ao meu interlocu- 
tor provinciano : 

— Que mulher é esta para quem olham todas e 
todos? . ». 

— Não sei ; mas já reparei que é petulantemente 
gentil. 

Avisinhou-se um dos elegantes mais entendido 
cm formosura, e dissc-nos : 

— Ella ahi está mais linda do que era! 

— Ella quem ? — perguntei, 

— Cassilda Arcourt. 

— Cassilda ! — objectei eu. — Olhe que não se en- 



_ ' 1 ■ 



-"1 



A mulher fatal 2ii 

gane ! Ha trez mezes me disseram que i!issa mulher 
estava desgraçada e velha !. . . 

— Conheceu-a ? — replicou o cavalheiro. 

— Vi-a muitas veze5. 

— Pois vá reconhç^cel-a, que ella ahi vem, 

— Baista-me a sua afifirmativa — desisti eu. — Sgbe 
dizer-me quem substituiu o defunto Carlos Pjpreira? 

— Então o senhor onde tem estado ? nos antipo- 
das ? 

— No Minho. 

— Pois eu o illustro em duas palavras. Esta mu- 
lher foi casada còm um francez. . k 

— Mr. Prosper Arcourt, sei. . . 

— Sabe também que o marido a roubou ? 

— Sei, e que fugiu. 

— De Paris passou á índia franceza, onde esteve 
doze annos, e voltou rico. Chegou a França, com- 
prou uma casa acastellada nas margens do Rhône, 
onde vivia principescamente, quando morreu. A sua 
herdeira era Cassilda. Foi procurada em Lisboa e 
encontrada n'um quinto andar; saiu d'ahi para Fran- 
ça; e, quando voltou á pátria, foi residir n'um pa- 
lacete a Buenos-Ayres. Aqui tem a actual amante 
de ***, 

As três estrellas significam um dos personagens 
de primeira plana em Portugal. E os novos livros 
de cadeau, que recebe Cassilda, teem estampada 
em relevo uma coroa de duque. 



* 
* ' * 



Bravo, Cassilda! 

Este livro acabaria mais ao gosto moderno, se tu 



21» A mulher fatúl 

liiorresses de saudade ou de fome. Como obra de 
arte seria o meu romance um primoroso desmenti- 
do á natureza ; mas a tua catastrophe daria que pen- 
sar! E as tuas consócias entrariam em catechese de 
rehabilitação, assim nociva paraellas quanto ridicula 
para os assopradores do ephta restaurativo da pu- 
reza virginal. Tolheste-me a novella até certo ponto; 
mas aliviaste-me do remorso de ter prophctisado que 
serias sempre abjecta! 

Bravo, Cassilda! 

Tens um duque a teus pés . . . 

Onde irás tu? Onde te verei eu? 

A tua cabeça está alta ; mas acima de ti a escada 
dos prodígios conta ainda muitos degrdos. 

Olha sempre para a tua estrella, Cassilda ! Que 
as estrellas, depois da ultima revolução do globo, 
perderam o pudor ! 

Sobe, sobe, Cassilda ! 

E, na altura onde estás, se te mover, como des- 
fastio, o desejo de ler este livro. . . compra-o. 



FIM 



J. P. OLIVEIRA MARTINS 



OBRAS COMPLETAS 



I. Historia nacional: 

HiSTOBUL DA oiYiiiíSAçIo iBKBtOA, 4.* od. (1S97), 1 vol. br. 700 TB, Ene. 900. 

HiBTOBiA DK Portugal, 6." ed. (1901), 8 vol., br. 1^400 r«. Ene. 1^800. 

O Bbazil b as colosias poRTuauBZAS, 3.^ ed. (1888), 1 vol., br. 700 rs. Ene. 900. 

PoBTUOAL COKTBICPOBANKO, 8.* ed. (1895), 2 Yol., br. 2^000 rs. Ene. 2^400. 

POBTUOAL KOS ICASBS, (1889), 1 Tol., br. 700 TB. Enc. 900. 

Camões, os Lusíadas b a rbsascbnçaem Portugal, (1891). 1 vol., br..^600 rs. 
Enc. 800. 

Navegacioites y dbscubbimibntos de los portugueseís, fed, do Atento de Madrid, 
1892), 1 vol. (nâo entrou no commercio.) 

A TIDA db Nuh>alyabbs, 2.* ed. (1894), 1 vol., br. 2^000 rs. Cart. 2^0. Ene. (fo- 
lhas doiradas) 3^200. 

Os FILHOS de d. João i, 2.* ed., 2 vol., br. 1^400 rs. Ene. 1^800 rs. 

O Pbiscipb pbbfbito, (1895) 1 vol., br. 2)^000 rs. Encad., folhas doiradas, 8^200 rs. 



II. Historia geral: 

Elbmsktos de akthbopologia, 4.* ed. (1895), 1 vol., br. 700 rs. Ene, 900. 
As BAÇAS humanas e A ciYiLiSAçÃo PRIMITIVA» 2 voí., br. 1^400 rs. Ene. 1^800 rt 
Systema dos mythos RELIGIOSOS, 2.' ed. (1895) 1 vol., br. 800 rs. Enc. 1^000. 
Quadro das ihstituições primitivas, 2.^ ed. (1893) 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900. 
O BBGIMB das riquezas, 2^* ed. (1894), 1 vol., br. COO rs. Enc. 800. 
Historia da republica romana, 2.* ed., 1897, 2 vol., br. 2^000 rs. Enc. 2^400. 
O HELLENISMO E A CIVILISACÃO CHRISTÃ, 2.* ed., 1 vol. br. 800 rs. Enc. 1^000 rs. 
Taboasde Chronolooia e^geogbaphia HISTÓRICA, (1884), 1 vol., br. 1^000 rs. En« 
eadernado 1^200. 



III. Varia : 

A circulação fiduciária, 2.* ed., 1 vol. br. 800 r8..Enc. 1^000 rs. 

A reorgahisação do Bakco de Portugal, opúsculo, (1877) br. 150 rs. 

O ARTIGO «Banco» no Diccionario Universal PortugueZf (1877), 1 vol , br. 500 rs. 

Politica b economia nacional, (1885), 1 vol., br. 700 rs. 

Projecto de lei de fomento rural, apresentado á camará doa deputados na sessão 

de 2887 f 1 vol., br. 300 rs. 
Elogio histórico de Anselmo J. Braamcamp, ed. part. (1886), 1 vol. (esgotado). 
Theophilo Braga e o Cancioneiro, opúsculo, (1869) esgotado. 
O Socialismo, (1572-3), 2 vol., br. 1^200. (Esgotado) 
As eleições, opúsculo, (1878), br. 200 rs. 

Carteira de um jornalista : I. Portugal em A/rica, (1891), 1 vol., br. 400 rs. 
Inglaterra DE hoje, cartas de um viajante, 2.* ed., (1894), 1 vol., br. 600 rs* 

Enc. 800. 
Cartas peninsulares, (1895), 1 vol. br. 600 rs. Enc. 800 rs. 



Parceria António Maria Pereira 

LIVBARIA EDITORIA 

Bua Augrusta^ 50^ 52 e 64 -- LISBOA 



Obras de José Quintino Travassos Lopes 



Nova graininatica elementar da língua porta- 
gueza» redigida segundo as iheorias modernas, e contendo 
quadros synopticos muito uteis^ cart. 160 róis. 

Compendio de arithmeUca e systema métrico, 

28.* edição, contendo 29 gravuras e mais de 2.000 exercí- 
cios e problemas, reformado segundo os actuaes program- 
mas, br. 200 réis, cart. 280 réis. 

Resumo de arlthmetlca e systema métrico, 5.« 
edição, muito augmentada e contendo 13 gravuras, appro* 
vado pelo antigo conselho superior de instrucção puDlica, 
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lho superior de instrucção publica, br. 160 réis, cartj 240 rs. 

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ções sobre obJectos.^— !•*/ parte» 9.' ediçito, muito 
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creanças de 7 a 9 annos, br. 160 réis, cart. 240 réis ; com 
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ções sobre objectos.— 2.* parte, 6.* edição, ornada com 
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r. 16jO réis, cgrt. 240 réis ; com encad. de luxo, para pré- 
mios e "brindes, '3^ réis. 

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Historias de animaes, sua vida, costumes, ane- 
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